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O PERDÃO

Meu amigo Carlinhos Caçapa ( Dr. Carlos Lacerda de Castro Crissaff )

     Fiquei muito contente em saber que agora voçê é Doutor e mais contente ainda em saber que tem (só) dois clientes: O Jiló e o Nêm do João Pimenta. Devem ser duas causa grandiosas, fenomenais. Causas que nenhum outro advogado se atreveria a representar. Só voçê, com toda essa sabedoria e astúcia, pode representá-los perante a Lei.
Mas o motivo principal dessa pequena missiva não é esse. Vou seguir o conselho de minha mãe que diz o seguinte: "Sempre há tempo para perdoar". Então com o coração cheio de alegria revolvi perdoar todas as covardias, molecagens, as vêzes que voçê quase me matou e as que eu chorei por voçê nesses mais de 40 anos de amizade.

     Vamos começar lá pelo Grupo Escolar Manoel Franco. Eu estava no segundo ano e voçê tinha acabado de entrar no Grupo, portanto voçê não conheçia ainda aquele leite em pó que agarrava no céu da boca. Deixava a gente maluquinho. Então, em um belo dia, na hora do recreio eu pedi uma caneca(daquelas de plástico)do famoso leite ao seu Manoel, o qual prontamente me atendeu e eu dei prá voçê e falei assim:Olha Carlinhos, esse leite é muito bom prá gente cresçer, mas tem que enfiar tudo na boca de uma vez só. E assim voçê fez, tá lembrado? Lembro-me direitinho vendo voçê ficar entalado e para te ajudar peguei mais um pouco e enfiei no seu nariz. Além de entalado voçê ficou sufocado. Foi a primeira vez que chorei por voçê. Chorei de tanto rir vendo a sua cara vermelha, inchada, pareçendo que ia explodir . Foi a primeira covardia que voçê fez comigo. Numa outra vez, também na hora do recreio, voçê estava tomando sopa de fubá com couve (péla égua).Bem quente.

     Daquelas que primeiro a gente assopra umas 15 vezes e prova com a ponta do dedo prá ver se já esfriou. Então voçê foi dar um gole e nesse exato momento, eu para te proteger, te dei um empurrão. Desçeu tudo de uma vez só. Eu fiquei olhando prá voçê, assustado, pois voçê lacrimejava mais do que um sujeito com 50 lacerdinhas no olho. Disso eu me lembro bem: quando voçê abriu a boca tinha um pedaço de pele branca saindo da sua língua ( ou era da sua goela ?) Foi a primeira vez que voçê tentou me matar. Voçê tentou me matar de tanto rir, vendo voçê com aquela cara de dragão chinês soltando fogo pelas narinas. Foi bom. Foi bom por que a Dona Edyl ( diretora do grupo) me agradeçou muito, pois voçê ficou sem falar uns 15 dias. Meu amigo Caçapa, quantas outras voçê não armou prá cima de mim. Mas estou te perdoando.Lembra-se quando íamos caçar passarinho? Disso voçê não pode reclamar.Íamos na minha bicicleta nova. Voçê além de pedalar debaixo daquele sol quente ainda tinha que carregar a espingardinha e o embornhal com broa , rapadura , pão com goiabada e normalmente uma garrafa de cachaça. E voçê me fazendo sofrer na garupa. Quanta maldade voçê fazia comigo. Mas vou te perdoar. Lembra-se quando eu acertava um passarinho e ele caia no meio do mato? Eu falava prá voçê pegar e lá ia voçê todo serelépe no meio das urtigas e dos arranha-gato pegar o pobre do bichinho. Só prá me ofender. Prá dizer que era mais corajoso do que eu. Quanta sacanagem voçê fazia com isso. E aquela vez que eu coloquei voçê com um cigarro na boca pra eu treinar minha pontaria. Mais uma vez lá foi voçê me ofender, dizendo prá todo mundo que voçê era meu tiro ao alvo ambulante, mas que não tinha mêdo não.
     
      Mais uma vez as ofensas. Mas eu te perdôo. Como vou te perdoar aquela vez que fomos roubar galinha lá no Palmital e mais uma vez voçê prá mostrar prá todo mundo que era o mais corajoso, depois de uma eleição democrática que fizemos, foi escolhido prá ir na frente prá ver se não tinha cachorro vigiando o galinheiro. Mais uma vez volta voçê correndo com as galinhas e o cachorro atarracado no seu traseiro.

      Quanta bravura. Coisa de moçinho no cinema. Lembro-me direitinho do outro dia. Voçê deitado sa sua cama, pelado, com o traseiro inchado prá cima e sua mãe colocando emplasto de farinha com arnica prá ver se diminuia o inchaço um pouquinho. Coisa de herói. Coisa que voçê sempre foi. Não tenha dúvidas. Mas voçê continuava fazendo das suas comigo.

     Tudo prá tentar me jogar prá baixo. Como quando íamos brincar de carniça. Voçê lembra? Voçê mais uma vez para mostrar que era durão, corajoso, que não era mulhérzinha, tentava me ofender. Voçê sempre era a carniça. E quando chegava na hora que a turma falava assim: "beliscão", era o terror. Voçê lá, impassível, aguentando aquela monte de beliscão que chegava deixar marca roxas no bumbum. E voçê com aquela voz de herói desbravador do Jacá falava: Não doeu nadica de nada. Aí começava tudo de novo. Quanta ousadia , quanta molecagem. Mas eu te perdôo. Como vou te perdoar as vezes que eu arrumava briga na rua e o pessoal colocava a mão entre um e outro e falava assim: quem cuspir aqui primeiro é mais homem. Sempre nessa hora voçê tomada o meu lugar e levava as cusparadas no focinho. Mas mostrava que era homem. Tudo prá me sacanear. Enfim, meu perdoado amigo, não posso ocupar todo o site do "Broinha" contando todas a suas faltas comigo, pois eles teriam que aumentar a carga dos computadores. Só tenho mais uma coisa para te dizer: Se voçê tivesse um amigo que fizesse tudo isso que voçê fez comigo, eu não sei. Acho que voçê não ia perdoar. Mas, conforme diz a dona Carmem: sempre há tempo. Abraços, segundo voçê mesmo diz: do seu melhor amigo ( até por isso eu te perdôo)

 

Djalma Junger Lahud (Piriquito)

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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