MENU





Sua mensagem


Caso a página não esteja sendo exibida corretamente
instale o plugin  do  flash  no seu computador entrando
no link acima.

Melhor visualizado em resolução 800x600 ou 1024x768


POVOADO DE SÃO BENEDITO

     A aldeia onde nasci, brotada no sopé das serras capixabas, era de uma rua só, de poeira ou lama. Os morros, cobertos pelos cafezais, pareciam cabeleiras encaracoladas.

     Cresci entre os terreiros de café, pisando palhas, atenta ao perigo do poço de lavar os grãos, encantada com as enormes pás que os espalhavam para secar. Assisti às festas das colheitas, vi colonos embriagados, torrando o dinheiro antes de torrar o café.

     Meu São Benedito tinha seus clãs, seus mistérios, lendas, leis próprias e selvagens. Gente amiga, gente brava, pistoleiros de aluguel. Fazendeiros que encomendavam mortes, que defloravam as filhas dos colonos e recompensavam-nas com um marido. Homens bêbados que espancavam suas mulheres e filhos. Patrões que chicoteavam seus empregados. Maridos que perdiam no jogo a comida das crianças. Irmãos que se matavam por causa de herança. Ricos que ficavam pobres.

     Na igreja, a missa era mensal. Em maio, as crianças, vestidas de anjo, coroavam Nossa Senhora. Na frente da igreja, o povo organizava leilão e arrasta-pé. Na quaresma, cobriam os santos de roxo. São Benedito, o padroeiro, distribuía perdões e o povo continuava pecando.

     A igreja católica não era soberana. Os fiéis, por curiosidade ou desespero, iam atrás dos canjerês, dos terreiros de preto-velho, de mãe-de-santo, de curandeiros e benzedeiras. Faziam mandingas, simpatias, rogavam pragas, amaldiçoavam. Os de espírito forte afastavam mau-olhado, curavam espinhela caída, tiravam encosto, desfaziam casamentos, arrumavam noivos...

     Dos feitiços que me contaram só um sou capaz de lembrar. Para se vingar de um patrão cruel, um colono enterrou no formigueiro, ao pé uma enorme figueira, a camisinha de pagão do filho do fazendeiro. À medida que as formigas iam comendo a peça de roupa, a criança ia minguando. Não houve doutor, nem padre ou feiticeiro menor que desse vigor ao menino. Quando as formigas carregaram o último pedaço da camisinha, a criança morreu no colo do pai, fazendo-o sentir-se impotente.

     As simpatias eram poderosas. Quando suspeitaram que o filho da vizinha podia estar com tétano, alguém ordenou que pegassem um frango preto e dele arrancassem o fígado e o colocassem, quente e pulsando, no local do ferimento. Não sei se por causa física ou força espiritual, o estrepe foi puxado pelo fígado e o menino recuperou-se.

     Houve por lá um menino de coração maior que o peito, débeis mentais, loucos que as famílias escondiam, bobos que babavam, outros que faziam graça. Tinha a mulher que não usava calcinha e exibia as vergonhas para os meninos; mãe que vendia as filhas; o homem que vendeu a alma ao diabo; padre que era pai; gente que se enforcava...

     Matava-se por lá para ver o tombo. Antes dos sete anos, eu já tinha visto dois corpos furados por balas. Fresca na memória guardo a imagem do vizinho dando seu último suspiro, tombado sobre uma poça d'água de setembro. Nenhuma violência em cinemas cope substituiu o impacto causado pela proximidade com a vida findando, com o sangue viscoso misturando-se à lama.

     Quando a chuva escasseava, tinha procissão ao cruzeiro. Cada qual com sua latinha d'água. Subíamos o morro cantando. O sol sapecando nossas peles. A poeira entrando pelo nariz. Os corpos, cansados, suavam. Os cachorros também acompanhavam a peregrinação, compenetrados, sem latir, só balançando os rabos. Bem no alto molhava-se o pé da cruz. Implorávamos de Deus a clemência. Eu tinha fé.

Sônia Bonzi

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados