A
aldeia onde nasci, brotada no sopé das serras capixabas,
era de uma rua só, de poeira ou lama. Os morros, cobertos
pelos cafezais, pareciam cabeleiras encaracoladas.
Cresci
entre os terreiros de café, pisando palhas, atenta ao
perigo do poço de lavar os grãos, encantada com
as enormes pás que os espalhavam para secar. Assisti
às festas das colheitas, vi colonos embriagados, torrando
o dinheiro antes de torrar o café.
Meu
São Benedito tinha seus clãs, seus mistérios,
lendas, leis próprias e selvagens. Gente amiga, gente
brava, pistoleiros de aluguel. Fazendeiros que encomendavam
mortes, que defloravam as filhas dos colonos e recompensavam-nas
com um marido. Homens bêbados que espancavam suas mulheres
e filhos. Patrões que chicoteavam seus empregados. Maridos
que perdiam no jogo a comida das crianças. Irmãos
que se matavam por causa de herança. Ricos que ficavam
pobres.
Na
igreja, a missa era mensal. Em maio, as crianças, vestidas
de anjo, coroavam Nossa Senhora. Na frente da igreja, o povo
organizava leilão e arrasta-pé. Na quaresma, cobriam
os santos de roxo. São Benedito, o padroeiro, distribuía
perdões e o povo continuava pecando.
A
igreja católica não era soberana. Os fiéis,
por curiosidade ou desespero, iam atrás dos canjerês,
dos terreiros de preto-velho, de mãe-de-santo, de curandeiros
e benzedeiras. Faziam mandingas, simpatias, rogavam pragas,
amaldiçoavam. Os de espírito forte afastavam mau-olhado,
curavam espinhela caída, tiravam encosto, desfaziam casamentos,
arrumavam noivos...
Dos
feitiços que me contaram só um sou capaz de lembrar.
Para se vingar de um patrão cruel, um colono enterrou
no formigueiro, ao pé uma enorme figueira, a camisinha
de pagão do filho do fazendeiro. À medida que
as formigas iam comendo a peça de roupa, a criança
ia minguando. Não houve doutor, nem padre ou feiticeiro
menor que desse vigor ao menino. Quando as formigas carregaram
o último pedaço da camisinha, a criança
morreu no colo do pai, fazendo-o sentir-se impotente.
As
simpatias eram poderosas. Quando suspeitaram que o filho da
vizinha podia estar com tétano, alguém ordenou
que pegassem um frango preto e dele arrancassem o fígado
e o colocassem, quente e pulsando, no local do ferimento. Não
sei se por causa física ou força espiritual, o
estrepe foi puxado pelo fígado e o menino recuperou-se.
Houve
por lá um menino de coração maior que o
peito, débeis mentais, loucos que as famílias
escondiam, bobos que babavam, outros que faziam graça.
Tinha a mulher que não usava calcinha e exibia as vergonhas
para os meninos; mãe que vendia as filhas; o homem que
vendeu a alma ao diabo; padre que era pai; gente que se enforcava...
Matava-se
por lá para ver o tombo. Antes dos sete anos, eu já
tinha visto dois corpos furados por balas. Fresca na memória
guardo a imagem do vizinho dando seu último suspiro,
tombado sobre uma poça d'água de setembro. Nenhuma
violência em cinemas cope substituiu o impacto causado
pela proximidade com a vida findando, com o sangue viscoso misturando-se
à lama.
Quando
a chuva escasseava, tinha procissão ao cruzeiro. Cada
qual com sua latinha d'água. Subíamos o morro
cantando. O sol sapecando nossas peles. A poeira entrando pelo
nariz. Os corpos, cansados, suavam. Os cachorros também
acompanhavam a peregrinação, compenetrados, sem
latir, só balançando os rabos. Bem no alto molhava-se
o pé da cruz. Implorávamos de Deus a clemência.
Eu tinha fé.
Sônia
Bonzi