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VERY GOOD

     Recentemente vimo-nos, Luiz e eu, na condição de hospedar um alemão que visitaria Viçosa, através de um intercâmbio do Rotary Clube. Meu constrangimento começou com a expectativa de que o visitante pudesse ser um alto executivo, cuja acolhida exigiria uma conduta extremamente formal, comportamento este que não condiz com meu jeito de ser, informal e descontraído e, por que não dizer, pouco afeito às formalidades do "saber receber", enfim, às indispensáveis etiquetas que a "Fazenda Velha" não me ensinou.

     Em meio às preocupações com a recepção, com um cardápio que fosse menos agressivo aos hábitos alimentares do hóspede, veio-me a maior delas: o idioma. Deveríamos nos comunicar em Inglês, língua com a qual tenho pouquíssima intimidade, limitando-me a alguns monossílabos e outros tantos chavões assimilados através dos filmes.

     Para minimizar a tensão, ocorreu-me uma das muitas anedotas da infância da Mamãe (Nádia Rezende) e que ela nos contava à beira do fogão à lenha, nas noites frias e monótonas de nossa vida na fazenda:

     Ela e os irmãos (Tio Joãozinho, Tia Ercy, Tia Merquita e Tia Bisica, ou algum outro de que agora não me lembro), a caminho para a escola, passavam diante da casa de Dona Bárbara, uma velha professora aposentada e já totalmente surda. Mamãe, sempre espirituosa (e pronta para as traquinagens), com um sorriso nos lábios, cheia de simpatia e educação, fingia cumprimentar a pobre senhora com um solene: "Vá à merda, D. Bárbara!" E, como resposta, ouvia: "Vou muito bem, minha filha!" Agradecida, D. Bárbara sensibilizava-se com a atenção que aquela menina lhe dispensava, mas aborrecia-se com os demais irmãos que sempre caíam na gargalhada.

     Certo dia, D. Bárbara comentou com minha avó sobre a educação e a atenção de uma de suas filhas - a Nádia, atribuindo-lhe muitas e louváveis qualidades que não combinavam com o comportamento moleque e irreverente de Mamãe. Quanto aos outros filhos, acrescentava D. Bárbara, ela só tinha queixas pois estavam sempre a rir dela! Apurados os fatos, Mamãe foi devidamente repreendida, mas o episódio transformou-se em uma das gostosas anedotas de sua infância.

     Esta poderia ser, "pensei eu com os meus botões" (e para rir da situação constrangedora que me aguardava), uma boa estratégia para estabelecer os primeiros contatos com o visitante que, enfim, chegou para o almoço. Felizmente era um jovem simples e de sorriso fácil. Ao oferecer-lhe um suco de manga, ouvi um eloqüente "very good!", o que me deixou mais animada. A partir dali, entre meias palavras e gestos, iniciei um precário diálogo com o rapaz, até que meu filho Gustavo, vindo socorrer-me, intermediou a conversa e, para minha surpresa, sustentou a comunicação enquanto durou a permanência do alemão em nossa casa.

     Hoje, este incidente que nos leva ao riso possibilita-nos também um retorno ao passado para trazer de volta as saudosas lembranças da Mamãe que, com seus "causos" e anedotas, povoou de sonhos e emoções a nossa imaginação, naqueles tempos, felizes e longínquos, de nossa infância na Fazenda Velha.

Maria das Dores Teixeira de Rezende Raggi
Viçosa, Maio de 2003.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

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