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O
LOBISOMEM DE BEMPOSTA
Hoje
nosso assunto versa sobre coisas e almas do outro mundo. O sobrenatural,
com seu mistério, seu fascínio, seus inexplicáveis,
que vem, através dos séculos, resolvendo grande
parte de nossos problemas.
O ser humano é, realmente, muito complexo. As vezes temos
oportunidade de observar atitudes, de pessoas conhecidas ou não,
em determinadas situações, que nos deixam confusos.
Numa grande cidade, como no Rio
de Janeiro, por exemplo, costumam acontecer coisas marcantes e,
a toda hora, um fato, um acontecimento, um exemplo, saltam a nossos
olhos. Num dia desses, eu estava sentado num banco de rua, próximo
a uma pracinha, aguardando a condução, quando parou
um carro. Dele desceu uma jovem senhora, mais ou menos bem vestida.
Notei que estava um tanto tensa. Dirigiu-se ao jardim, agachou-se
e depositou ali alguns objetos: um prato de papelão contendo
pedaços de bolo e de doces, um outro com farofa, uma garrafa
de guaraná, um maço de cigarros aberto, uma vela,
e mais alguns complementos. Acendeu a vela, despejou um pouco
de guaraná no copo, ajeitou as coisas, levantou-se e foi
embora.
Fiquei intrigado, achei tudo muito
esquisito. Uma pessoa de boa aparência fazer aquilo. Por
quê? Qual seria o motivo, qual motivação?
Crença, fé, crendice popular?
A propósito de crença,
lembro-me de um texto que achei genial de Millôr Fernandes,
que li em sua coluna, no Jornal do Brasil. Com aquela mania de
dizer coisas sérias brincando, ele defendia que, quando
nossa Constituição for revisada, daqui a cinco anos,
será necessário que se lhe acrescente algo que defenda
a Liberdade de Descrença. Referindo-se à recente
atitude de Khomeini, o líder religioso iraniano, que ordenou
perseguir e matar o escritor inglês que escreveu os "Versículos
Satânicos", os quais considerou ofensivos à
sua religião, ele argumentava que "em toda a história
da humanidade, não via crentes de qualquer fé que
não esquartejassem crentes de outra. E, ao contrário,
jamais soube de dez mil descrentes invadindo um país para
trucidar dez mil descrentes de outra descrença. E, no entanto,
luta-se em todo o mundo pela Liberdade de Crença".
Mas, a verdade não adianta
negar. Sabemos que a crença no sobrenatural, com certeza,
é tão antiga quanto o próprio homem, e faz
parte de nossa natureza. Ela sempre existiu aonde os homens se
ajuntaram.
Eu mesmo tenho um caso para contar
a respeito. Vamos aproveitar a oportunidade para recordá-lo.
Aconteceu há muitos anos. Trata-se de um Lobisomem; bicho
estranho que povoava a imaginação das pessoas do
interior e que causava muito medo. A história remonta à
época em que eu freqüentava os tradicionais encontros
de fim de noite, na Venda do Mendonça, na Fazenda Velha.
Depois de um dia desgastante de
trabalho na construção da Usina, a peãozada
se juntava ao anoitecer, na Venda, para um bate-papo, uma cachacinha,
onde se jogava muita conversa fora e contavam-se muitos casos.
Um dos que era sempre referido era sobre o lobisomem. A presença
do bicho na região era antiga, um ponto pacífico,
todos concordavam, todo mundo sabia que havia um lobisomem que
morava por ali, diziam que ele vinha da Bemposta.
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