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O LOBISOMEM DE BEMPOSTA - parte 2

     Com as obras do prédio da Usina, aconteceram grandes mudanças na Fazenda Velha. Em princípio, sua população deve ter quintuplicado, se não cresceu ainda mais. Começou a fluir gente de fora para a área: pedreiros, carpinteiros, armadores, ajudantes não especializados. O canteiro de obras era imenso.

      Lembro-me que inicialmente, para receber todas as famílias e mesmo os solteiros, foram construídas as residências. uma série de barracões de madeira e muitas casas em alvenaria, formando verdadeiras vilas. O movimento aumentou muito. Nossa vida pacata transformou-se numa grande agitação.

      O prédio da Usina, logo, logo, surgiu imponente, majestoso, como o vemos ainda hoje. Era uma grande promessa, um grande sonho, uma redenção para nossa terra. Que, entretanto e infelizmente, desmoronou com o fracasso do empreendimento.
Mas, voltemos ao Lobisomem.

     A Bemposta, como sabemos, é uma área rural que fica abaixo da Fazenda Velha, na margem esquerda do rio. Lá habitavam algumas famílias, pequenos proprietários, entre elas, as dos Celestino e dos Bernardes, sendo os primeiros os mais numerosos. Por isto, havia sérias desconfianças de que o bicho fosse um dos membros dos Celestino. Algum pobre coitado, marcado pelo destino, vítima de alguma praga, provavelmente praga de mãe, que não falha nunca, ou quem sabe alguma promessa não cumprida. Motivos sempre os há.

     Segundo constava, todo ano, na época da Quaresma, o pobre diabo tinha que cumprir o seu destino cruel. De humano transmudava-se em um bicho horroroso e empreendia suas andanças e caminhadas noturnas, mais comumente nas sextas-feiras. No geral, fazia itinerários predeterminados e não atacava ninguém, desde que não o incomodassem.
Apesar da certeza, as informações eram mais ou menos vagas, truncadas, ninguém sabia muito bem como ele seria, nem acrescentava maiores detalhes. Até que numa noite, passou pela Venda do Mendonça o carreiro do seu Álvaro Vieira, o velho Deolino, homem experiente, muito benquisto, descendente de antigos escravos da família dos Vieira.
Deolino não se fez de rogado. Contou sua história com todos os pormenores e deixou todos convencidos.

     Ele estava trazendo um café para o Departamento, exato numa sexta-feira da Quaresma, e devia chegar a Calçado ao amanhecer. Segundo afirmou, na época do acontecido, não havia a Venda do Mendonça. Mas havia uma outra venda, bem próxima dali, do outro lado do rio, na propriedade de seu Cirote.

      Como já era tarde, e aproximava-se da meia noite, eles, ele e o ajudante, o candeeiro, resolveram dar uma parada para descansar. Estacionaram o carro junto da venda, soltaram os bois das cangas, e os prenderam no curral do seu Cirote, para que não se dispersassem. E os dois, com suas mantas e apetrechos, foram se agasalhar sob o prédio da venda, que ficava bem junto da estrada.

     Ainda bem não tinham pegado no sono, quando ouviram um barulho muito estranho, um tropel de animal. Ouvidos atentos, quando o Bicho passou. Choc-choc-choc..., um barulho que eles nunca mais iriam esquecer. Os dois tremeram de medo, mas ficaram quietos, acordados, esperando que ele voltasse.

     O Bicho, vindo da Bemposta, atravessou a ponte e dirigiu-se para os lados da Fazenda Velha. Pouco antes das três da madrugada ele retornou. O mesmo choc-choc horrendo, assustador. Passou em frente da venda, e os dois tremeram de novo. Era um porco grande, um cachaço enorme, com pernas compridas de cachorro, grandes orelhas que balançavam no trote desengonçado.

     Eles só se refizeram do susto e seguiram viagem, quando o dia amanheceu. Atrelaram os bois ao carro e levaram o café‚ para o Departamento.
E assim, desde então, ficou esclarecido para todos e confirmado que, realmente, morava um Lobisomem na Bemposta.


H. Teixeira de Siqueira
Rio de Janeiro, junho de 1989.
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