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SER
BROINHA
Como
definir? As lembranças vêm chegando, às vezes
de mansinho, outras aos montões. Umas silenciosas, coloridas.
Outras perfumadas, gostosas.
Como esquecer das corridas que o cabo
Nilo nos dava com sua barriga redonda e seu canivete amolado,
capaz de furar todas as bolas que ia encontrando?
Como esquecer os banhos de rio sob a ponte
da vala ? E o entardecer na praça de cima, com o Jaspe
ao fundo, parecendo um grande traseiro?
Da igreja lembro-me das unhas do Padre Amando segurando a hóstia.
Diziam-me:- Estrangeiro é assim mesmo, não gosta
de tomar banho.
Aos domingos, com grande ansiedade esperava
o melhor momento para pular o muro do Americano e assistir aos
fabulosos vôos do Chamorro, encaixando a pelota marrom.
E a elegância do beque central Lé, ao desarmar sem
falta o atacante adversário ( de preferência do Motorista)
e a incrível habilidade e a fome de gol do Vilmar. Tirando
Garrincha, nunca existirá outro ponta direita igual.
A cidade ficava moderna quando ouvia o
matraquear característico do Fordeco do França ou
mais ainda, quando a Tia Mercês desfilava com o seu bólido,
um Austin of England . Ao mesmo tempo, a cantiga chorosa dos carros
de boi e a marcha picada dos cavalos faziam o contraponto da modernidade.
O cine São José com seus
seriados intermináveis, deixava a turma discutindo a semana
toda, como o mocinho iria sair daquela. Lá também
aconteciam as "reuniões da banda", impróprias
para menores.
A farmácia do Seu Cruz, era o próprio pronto socorro.
Quando um ensangüentado chegava era uma festa. Todos queriam
ver, porém as portas eram fechadas e só poucos privilegiados
podiam ficar: eu era um deles.
Sonhávamos todos os garotos com
a pele morena, o sorriso malicioso e a sensualidade das quatro
irmãs, com o joelho da professora, com as histórias
do Dr. Homero, dançar agarradinho no Montanha ( regra número
1, era deixar virado para a direita). Há muito mais que
não conto, por não Ter vivido, ou para despertar
nos outros suas próprias recordações.
Poucos têm ou terão a chance de ser broinha. Eu sou.
Claudio Medina da Fonseca.

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