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Sempre que volto ao passado, dentre minhas lembranças,
o tempo da infância na Fazenda Velha, sempre é a
mais presente. Era um tempo muito feliz. Ser criança, vivendo
em contacto direto com a natureza, foi um privilégio que
a vida me proporcionou. Além de ir à escola, e de
algumas obrigações domésticas impostas pelos
meus pais, nada me aporrinhava.
O
que me fascinava era a "mata" , um resto de Mata Atlântica
que existia em frente a nossa casa, margeando a estrada Calçado-Bom
Jesus. Durante o dia, os pássaros se exibiam como atores
principais naquele cenário verde: canários, melros,
maritacas, tucanos, sobrevoavam as árvores, de um lado
para o outro, fazendo a maior algazarra, à procura da comida
ou de uma companhia para acasalar. A vida pulsava, naquele paraíso
verde.
Vez
ou outra, eu e alguns amigos fazíamos incursões
pela "mata", à procura do jacu, da rolinha, do
Juriti, pássaros que sempre estavam sob a mira da "seta"
(era assim que conhecíamos o estilingue) de um garoto.
Nunca avançamos mais que uns 30 metros "mata a dentro",
a nossa capacidade de potencializar o medo era incrível,
e um pequeno sopro de vento que derrubasse um galho era o suficiente
para provocar uma correria desenfreada.
Quando
a noite surgia, atrás da Usina, tudo mudava. A "mata"
passava a ser ameaçadora, era o lar de todos os meus medos,
lá viviam o saci, a mula sem cabeça, o lobisomem,
as almas penadas e outros monstros que alguns colonos diziam encontrar
em suas caçadas. Estes medos, juntamente com a "mata",
foram companheiros inseparáveis na infância, e vivi
com eles uma relação mista de sonho e realidade.
Naquela
época, a fábrica da cachaça "Fazenda
Velha", de propriedade do Dr. Pedro Vieira, e a fase final
da construção da Usina São José traziam
à região, grandes movimentações econômicas,
e meu pai, acompanhando toda aquela onda, tornou-se comerciante
de café, em parceria com um Sr. que morava em Natividade,
Rio de Janeiro.
Os
contactos com Calçado, onde estava o armazém de
café, eram feitos através do único telefone
da região, que ficava na casa do meu tio Zezé Vieira
(avô do Fefeu e do Juquita).
Muitas
vezes, ao cair da noite, a mando de meu pai, tinha que ir à
casa do velho tio para mandar recados ao meu tio Luizão
, que administrava o armazém em Calçado
Aí
é que a coisa pegava! O caminho até a casa do meu
velho tio passava em frente da "mata". Uma criança,
em uma boa carreira, gastava em torno de dois eternos minutos
para vencer a estrada em frente à mata.
Já saía de casa, com a adrenalina percorrendo todo
o corpo e a imaginação voando longe. O medo era
de encontrar com a mulher, de cor branca como uma cera - a cor
da morte- coberta por um lençol, que, segundo alguns moradores
da região, também aparecia na "mata".
Passava
em frente à "mata" correndo, na maior velocidade
que conseguia imprimir às minhas pernas, com os olhos quase
fechados e rezando todas aquelas orações que aprendemos
na infância. Acho que as orações valeram,
pois a mulher nunca apareceu no meu caminho.
Muitos anos mais tarde, quando já estava na universidade,
em Viçosa - MG, numa das vindas a Calçado, ao passar
em frente à Fazenda Velha, assisti a uma cena que me trouxe
muita revolta na época. Haviam queimado a minha "mata".
Eu observava mudo os últimos troncos soltando uma fumaça
de agonia.
No
terreno onde havia a "mata", foi plantado café,
que provavelmente trouxe a seu proprietário um bom retorno
financeiro na época.
Hoje,
quando passo por lá, vejo a Fazenda Velha como um lugar
triste, desabitado, com uma vegetação seca, chorando
a ausência da exuberante mata e do córrego, que corria
no vale à sua frente. Sinto que não só os
meus sonhos de criança foram destruídos, junto com
ela, mas também muitas vidas que ali habitavam. É
isso ai....
Oscar
Rezende
roscar@uol.com.br
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