É assim que me lembro do Lalau


    
- Pega esta com jeitinho que ela está bem madurinha! - disse o professor Wenceslau para o Acácio e o Grim, os quais estavam embaixo do pé de manga, esperando que o Lalau, das grimpas, jogasse as mangas que ele, digamos assim, estava pegando emprestadas da fazenda do Dr. Aníbal de Athayde Lima. Os três estavam caminhando naquela distante e ensolarada manhã de domingo. Passando pela fazenda Terra do Sol, resolveram fazer uma "visita" aos pés de manga daquela deslumbrante propriedade. Mais deslumbrados ficaram com a visão de tantos frutos. "Por que não pegar alguns? O dono mora em Vitória e o campeiro, em pleno domingo, jamais acordaria cedo."

Então ficou combinado que o Lalau, por ter um porte atlético, subiria na mangueira e os outros dois lhe prestariam, em terra firme, a devida assessoria. Já haviam colhido bastantes mangas, quando os "assessores" pressentem o perigo e se mandam, deixando o professor de educação física sozinho no alto da mangueira e alheio à mudança de estratégia. Eis que surge de repente, não mais que de repente (como dizia o poeta), o proprietário da Terra do Sol. Ele mesmo: o desembargador Dr. Aníbal. Surpreso e indignado,vê as mangas no chão, olha para cima e descobre o autor do furto. Como um menino travesso, lá estava o larápio. Peremptoriamente, o Desembargador disse com severidade: "Sim, senhor, hein? Roubando minhas frutas!" Apavorado, o nosso "ladrãozinho" olha para baixo e vê o que ele jamais imaginou de ver naquela hora. Imediatamente, recupera o controle da situação e diz baixinho: "Psiu, Doutor! Não fala nada e sai daqui depressa, porque estou aqui em cima vigiando pra vê se aparece quem deixou essas mangas no chão. Volta, que ainda vou ficar mais um tempinho aqui. Não faz muito barulho, hein?" Foi o suficiente para o Lalau descer e correr asfalto afora, despejando uma chuva de impropérios sobre os "fiéis assessores".

Em outra ocasião, ele e o Acácio caminhavam para os lados da propriedade do Seu Geraldo Monteiro. Avistaram um pé de laranja imenso e carregado daquela deliciosa fruta. Resolveram "visitar" o laranjal do velho amigo, que, para surpresa deles, estava lá e lhes falou da dificuldade de pegar as laranjas daquele pé extremamente alto. Até lhes ofereceu uma escada, que para ele de nada adiantou. O Lalau não se fez de rogado. Subiu na escada e escalou o pé de laranja. Não ficou uma laranja sequer. Prometeram voltar no dia seguinte, já que havia outro pé em igual condição. Assim fizeram, só que dessa vez, o Acácio, seu bom amigo, colocou no fundo do saco, em que as laranjas eram depositadas, uma enorme pedra. Cobriu-a com as laranjas que lhe eram jogadas. Dessa vez, o Lalau deixou algumas laranjas no pé. Ao jogar o saco nas costas, reclamou: "Meu Deus, peguei menos laranjas hoje e o peso parece que dobrou."

- Deixa de moleza e vamos embora, falou o amigo bonzinho. Ao subir a escadaria que dá acesso ao seu bairro, o atleta gemeu, mas agüentou firme. Perto de sua casa quis dividir as laranjas com o companheiro, o qual prontamente recusou, alegando que ainda havia muitas em sua casa. Despediram-se. Em casa, o Lalau pede à sua esposa que guarde as laranjas na fruteira. Minutos depois ela pergunta-lhe: "Wenceslau, pra que você quer esta pedra grande que está no fundo do saco?" Furioso vai à casa do amigo, que é seu vizinho, e diz:

- Seu vi... foi você que colocou aquela pedra no saco, né? Você vai me pagar essa um dia.

Na solenidade comemorativa dos 5 anos de fundação da Academia Calçadense de Letras, o talentoso artista Lalau fez, em madeira, uns troféus alusivos à data. Foram oferecidos a vários colaboradores do nosso Silogeu. Para mim, que sou o presidente da instituição, ele fez um maior e me ofereceu, solenemente, fazendo-me grata e emocionante surpresa. O que me chamou a atenção, naquele momento, foi que ele mal continha a vontade de rir. Fiquei sem entender o porquê. Mais tarde, soube que antes da seriedade com a qual ele me ofertara o troféu, já havia aprontado com o Acácio (no quintal dos outros, é claro!) e ao olhar o parceiro de aventuras, relembrava a travessura e esboçava indisfarçável sorriso.

É assim que me lembro do Lalau: com idade avançada num corpo atlético, com cabeça de menino levado e um coração bondoso de grande homem. Sim, o professor Wenceslau, no sentido lato da palavra, foi grandioso; foi um cidadão de bem e de bem com a vida viveu, semeando, por onde passava, alegria, otimismo, poesia, companheirismo, esperança...

Edson Lobo Teixeira
eteixeira777@ig.com.br

Edson Lobo Teixeira é professor de português e o atual presidente da Academia Calçadense de Letras.




 

O broinha - www.broinha.com.br - todos os direitos reservados