A
nossa São José do Calçado parece que foi
feita sob medida para a prática do ciclismo de mão
única, no caso, só de descida. Suas ladeiras longas
e íngremes são um convite irrecusável para
memoráveis desabaladas ciclísticas. Claro que nem
tudo terminava do jeito que queríamos. As vezes saíamos
com algumas escoriações por todo o corpo e nossas
bicicletas ganhavam mais alguns arranhões, sem falar nos
aros empenados, freios quebrados, raios partidos e guidons tortos.
Calçado
é pródiga em ladeiras. Temos a ladeira da Biquinha,
ladeira do Querosene, ladeira da dona Dulce, ladeira da dona Candinha,
ladeira da Rua Quinze, ladeira do Daud, ladeira do Montanha Clube,
ladeira do Buraco Quente, ladeira do Hospital, ladeira do Lelê,
ladeira do Campo do Americano, ladeira da Divinéia, etc.
Sem contar as pequenas elevações, como a subida
para os Correios ( sentido Praça - Grupo Escolar ) e para
o Posto de Saúde (antigo Posto de Puericultura ).
Apesar
dos pedidos e das constantes advertências de nossos pais
para que não fizéssemos estripulias com nossas bicicletas,
elas eram solenemente ignorados. Se existia perigo de levar um
tombo da bicicleta? Nem passava por nossas cabeças tal
possibilidade. Éramos mais nós mesmos! E tome de
descer as ladeiras. Quando acontecia de algum colega se acidentar
de bicicleta, lá vinha nossos pais com as histórias
dos incidentes ocorridos na cidade, devido às imprudências
dos bicicleteiros ou bicicletistas.
Me
lembro de duas dessas histórias de tombos. Uma aconteceu
com a Regina, filha do "seu" Tiná e de dona Tita,
donos do único "hotel" da cidade. Regina, vendo
que muitos meninos brincavam de descer de bicicleta a ladeira
do Daud, partindo de um ponto um pouco abaixo do cartório
do senhor Éber, até chegar na praça, onde
ficava o ponto dos ônibus, resolveu ser ousada. Cismou que
desceria toda a ladeira do Daud, partindo do topo, onde ficava
a Cadeia Pública, passaria pela pequena curva na esquina
onde ficava a loja do Tunico, seguiria reto pela praça,
subiria pela Governador Bley ( rua do Grupo ) e chegaria até
o hotel de seus pais, sem tocar nos freios e nem pedalar.
Seria
uma façanha e tanto, pois ninguém havia tentado
fazer isso antes. E lá foi a Regina. Desembestou-se lá
da Cadeia Pública, olhos verdes, cabelos loiros ao vento
e jogados de um lado para o outro, como era de seu costume, e
vamos que vamos! Descer a ladeira até que foi fácil,
apesar da velocidade já totalmente fora de qualquer controle.
Na hora de fazer a pequena curva, na esquina do venda do Tunico,
a coisa complicou. Como naquele tempo as ruas ainda eram de chão
batido e recobertas com saibro, bastou uma pequena bobeada e a
bicicleta saiu da linha imaginária traçada pela
Regina. Pronto! Foi o suficiente para perder o controle da bicicleta.
Em
alta velocidade, uma pequena guinada no guidom levou a roda dianteira
a bater no meio-fio da calçada. Foi uma decolagem forçada,
mas bem executada, que levou junto a bicicleta já com a
roda da frente quadrada. Quanto a aterrissagem, não foi
assim uma Brastemp. A aproximação foi perfeita,
passando, ambas ( Regina e a bicicleta com a roda quadrada ) no
vão de uma das portas da venda do Tunico, sem encostar.
Mas já não havia trem de pouso e nem o reverso (
peça do avião da TAM que falhou, lembram? ) estava
funcionando para diminuir a velocidade. Regina desceu de testa
no pé de uma mesa. Afora um corte profundo na testa e escoriações
por todo o corpo, Regina saiu inteira da aventura. O mesmo não
se pode dizer da mesa e da bicicleta. Foi perda total!
A
outra história que também era muito contada, falava
de um sujeito de quem não mais me lembro o nome, que resolveu
descer, de bicicleta e sem usar os freios, a ladeira da dona Candinha.
Isto sim era loucura, mas se o cara garantia que conseguiria,
então o negócio era ver para crer.
Vou
descrever, primeiro, a situação. A ladeira da dona
Candinha era larga, de chão batido, longa e íngreme.
Terminava numa rua transversal, também larga e de chão
batido. Fazendo a curva e seguindo à esquerda, chegava-se
no trecho do Rio Calçado conhecido como dona Éta.
Caso contrário, fazia-se a curva para direita e seguia
em frente, na direção da ponte do Jazim. De frente
para a ladeira, no outro lado da rua transversal, ficava o Matadouro
Municipal, com um "bitelo" de um portão de madeira,
de duas abas. Atrás do Matadouro passava o Rio Calçado.
E
lá foi o destemido bicicleteiro descendo a ladeira da dona
Candinha. Ao passar em frente a casa do Juarez Três Orelhas,
os olhos do intrépido ciclísta já se encontravam
tão esticado quanto o de um japonês da gema, para
evitar que o vento, devido à velocidade que a bicicleta
estava ganhando, irritasse a vista. Passada a casa do Juarez,
iniciava o trecho de maior declive da ladeira. A parti desse ponto
o sujeito tinha duas alternativas: Ou pulava fora da bicicleta
e saia rolando até parar; ou se mantinha equilibrado sobre
a bicicleta e seja o que Deus quiser.
Ao
passar na frente da casa da dona Candinha, já quase no
final da descida, os olhos já se encontravam arregalados
e nem piscavam. Os lábios semi-abertos mostravam a arcada
dentária hermeticamente fechada, dente mordendo dente.
Naquela altura dos acontecimentos já sabia que, fazer a
curva para direita ou esquerda, estava fora de cogitação.
Sobrou a única opção: seguir reto. E foi
o que fez. Por sorte o portão do Matadouro já estava
aberto, pois estava quase na hora de chegar o caminhão
que recolhia os retos não aproveitáveis dos bois.
O bicicleteiro entrou no Matadouro feito um avião dando
rasante e a molecada correu atrás para ver o paradeiro.
Achar
o que restou da bicicleta até que não foi difícil.
Os ferros, todos retorcidos, encontravam-se junto ao tronco de
madeira onde era amarrado o boi para o sacrifício. Faltava
alguma coisa da bicicleta, mas ninguém sabia o que. Mas
onde foi parar o bicicleteiro? Essa era a pergunta que todos faziam
e que não queria calar! Procurou-se por todo o interior
do Matadouro e nada se achou. Alguém, então, percebeu
que uma pequena porta nos fundos, que dava para uma espécie
de deck de madeira, estava aberta. A princípio ninguém
viu nada, mas o que chamou a atenção foi o brilho
do guidom, que estava numa rameira, no outro lado das margens
do Rio Calçado. Visto mais de perto pôde-se, então,
descobrir o paradeiro do bicicleteiro. Com as mãos ainda
segurando o guidom, mas encoberto pela vegetação
ribeirinha e com meio corpo dentro d'água, estava lá
o danado, desacordado e sem um arranhão no corpo.
Para
que não digam mais tarde que só falo das encrencas
do outros e, aproveitando a deixa das ladeira de Calçado,
vou aproveitar para contar a minha descida de bicicleta em uma
das ladeiras. Estávamos andando de bicicleta em volta da
Igreja Católica, Ronaldo Castro ( Pezão ), Renato
( Abusado ) e eu. Então surgiu a idéia de, partindo
do portão do Hospital, desceríamos a ladeira, contornaríamos
a Igreja Católica pelos fundos e seguiríamos pela
reta do Ginásio até o portão do pátio,
parando no topo da ladeira do Buraco Quente. O freio só
poderia ser usado para parar a bicicleta no ponto final.
Subimos
a ladeira que leva até o Hospital São José.
Para aumentar a emoção, resolvemos subir mais um
pouco até uma pequena elevação onde se avista
o cemitério. A estrada era de chão batido, mas recoberta
de saibro. Nos posicionamos e disparamos. A pequena descida até
chegar na curva do Hospital não foi problema, mas já
ganhamos alguma velocidade. A primeira curva à direita
foi feita tranqüila, mas com um certo cuidado, pois a pista,
além de saibro, estava cheia de piorras de eucalipto. Qualquer
descuido e o chão estava ali mesmo!
Passamos
a primeira curva e continuamos a descida, agora na reta do Hospital.
Nossas bicicletas já estavam alcançando velocidade
razoável, mas nada que, caso necessário, comprometesse
o bom funcionamento dos freios. Chegamos na segunda curva, agora
feita à esquerda. Antes, porém, ainda na reta, tínhamos
que seguir rente ao meio fio do lado direito da pista, para fazermos
a tangente da curva, sem precisar correr o risco de inclinarmos
muito a bicicleta e ela vir a derrapar.
Fizemos
a tangente da curva e saímos rente ao meio-fio, já
entrando na pequena reta em descida, que terminava na Casa Paroquial.
Ao entrarmos nessa reta, a velocidade das bicicletas já
comprometia o bom funcionamento dos freios, pois, se acionados,
levaria muitos metros para que a velocidade diminuísse.
Continuamos a descer a reta e a velocidade aumentando. Ao passarmos
em frente a casa do casal Manoel do Tão e Guiomar, pais
da Tina, Deca e Lim, surgiu do nada um cachorro, que avançou
para cima de nossas bicicletas. Para que não mordesse nossos
pés, instintivamente os tiramos dos pedais. Nisso que soltamos
os pés, provocou um certo desequilíbrio no guidom
e, como o chão era de saibro, foi o suficiente para o pior
acontecer.
Ronaldo,
que tinha uma bicicleta maior, e estava na frente, foi o primeiro
a cair. Renato, que estava do lado, foi junto. Eu, que tinha uma
monareta praticamente nova, e estava a menos de um metro atrás,
fui na onda. Deslizamos no saibro para mais de 10 metros. Tivemos
escoriações nos lugares clássicos: mãos,
ombros, cotovelos, joelhos e nos dedos dos pés, além
de nos impregnarmos de poeira de saibro. Mas não estávamos
sentindo dores, pois a adrenalina estava correndo solta nas nossas
veias.
Depois
do susto e de um copo d'água com açúcar,
dado pela dona Guiomar, para acalmar, olhei para minha monareta
e danei a chorar. A roda dianteira sofreu um giro de 180 graus,
e agora estava virada para trás. O guidom, em forma de
U, estava invertido, e os cabos de aço dos freios, partidos.
Achei que a bicicleta estava destruída. Renato me ajudou
a levantá-la e ficamos olhando o estrago. Mais calmos,
percebemos que o parafuso que prendia o guidom junto ao garfo,
tinha afrouxado. Retornamos com o guidom para a posição
correta e apertamos o parafuso. Com o guidom no lugar, foi só
fazer um giro de 180 graus no sentido contrário, e a roda
dianteira ficou na direção correta.
Voltamos
para casa sujos, arranhados e empurrando as bicicletas. No outro
dia, cedo, estava na oficina do Totonho Toniquim para consertar
os freios da monareta e desempenar as rodas. Mas que era gostoso
descer de bicicleta as ladeiras de Calçado, isso era.
Gilberto Vieira de Rezende
calcadense@bol.com.br

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