Do pedido de casamento



Introdução:

O Machado, que era um brincalhão, gostava sempre de contar uns casos engraçados, de inventar uma piada, preferência que levasse a duplo sentido, coisa porca mas inocente, às vezes picantes, porém sem exageros, com todo o respeito é claro, como convinha então naquele meio de gente familiar. Em seu repertório constava o caso do seu "pedido de casamento".

Talvez seja novidade para as pessoas mais modernas, os tempos mudaram e com eles os hábitos, mas antigamente havia o costume de pedir a mão da moça em casamento, pedia ao pai ou a um responsável permissão para ficar noivos, usar alianças na mão direita, o que significava boa intenção e a assunção de um compromisso mais sério por parte do pretendente.

O dito noivado, ou o pedido de casamento, se consumava quase sempre numa cerimônia bastante formal, muita gente reunida, os parentes da moça, também os do rapaz, e este ou na maior parte das vezes um seu representante, por causa dos acanhamentos, se dirigia ao futuro sogro, solenemente, usando palavras de praxe, explicando o que todo mundo esperava e que já estava mais do que explicado, e formalizava o pedido.

O resultado, ou seja a resposta do pai da moça, pode ser que viesse na hora, com um normal sim ou quem sabe, improvável mas não impossível, um imprevisto não, ou poderia ser postergada, o mais comum das vezes, com as desculpas também de praxe, que ia conversar com a filha, consultar a esposa, ouvir os parentes, discutir os problemas, ponderar, etc. e tal, tinha que valorizar a decisão, não podia passar a impressão de que estava ansioso por se livrar da filha, embora fosse grande a preocupação de que muitas delas ficassem encalhadas. Era um pessoal orgulhoso.

Das dificuldades:

No caso do Machado, no seu pedido de casamento, houve algumas complicações, as quais vamos tentar explicar. Para começar, o namoro já tinha história, era uma paixão antiga e se arrastava há algum tempo. Iniciara insipiente quando ainda muito jovens, se interrompera por algum motivo, cuja explicação não sei, e voltara novamente, desta vez para casar.

Numa temporada, ele tinha se mudado de Calçado para morar em Vitória, por influência de algum parente, onde sentou praça na polícia, como técnico de laboratório, chegando à graduação de sargento, com futuro promissor.

Futuro promissor?

Sim, mas não para os pais da amada, que eram bastante preconceituosos. Tinham birras, como por exemplo contra os "turcos", os mascates ambulantes, então muito presentes em Calçado, pouco confiáveis segundo achavam, e igualmente contra os polícias, os mal falados meganhas, gente de fama ruim, que lidavam com bandidos e maus elementos. Não, não tinha desculpa não, nem explicação ou justificativa, que era apenas um serviço técnico, trabalho honrado de laboratório, nada de se meter com bandidos, etc., etc., não, não interessava, polícia na família não, de jeito nenhum, nada feito.

Que jeito? A solução encontrada pelo Machado foi bastante radical, deu baixa, largou tudo, carreira e futuro promissor, e voltou para Calçado, para cuidar da propriedade da mãe, então já viúva.

Com isto estava transposto um obstáculo, um requisito fundamental, pois para o casamento das filhas, a preferência, o cartaz mesmo, a ambição dos velhos, era para com os jovens da lavoura, agricultores, filhos de fazendeiros, gente afeita aos serviços pesados, que entendessem de café, de bois, de plantações, fossem trabalhadores, ativos, acostumados no batente, que tivessem o costume de levantar cedo, no raiar do dia já prontos de pé.

Outra coisa, e esta era uma convicção do velho, um machão de primeira linha, os homens da família não podiam ser nem burros, nem molóides, e muito menos maricas ou preguiçosos, efeminados então, muito delicados, nem pensar. Ele virava bicho, uma fera, quando tinha que lidar com esse tipo de gente e com gente mole ou preguiçosa ou sem expediente. E era seu pensamento, repetia sempre, que homem era homem e mulher era mulher, que macho que se presa não podia dar chance, tinha que mostrar que era macho mesmo, tinha que ter personalidade. E muito franco, não fazia rodeios e nem mandava recados, costumava dizer o que pensava na hora, na cara do freguês, agradasse ou não.

De permeio, aconteceu o falecimento da futura sogra. O viúvo só e meio desolado, ficou com a responsabilidade de cuidar das cinco filhas, todas bonitas, prendadas, casadoiras, em idades entre os treze e os vinte e dois anos, cercadas e assediadas por um punhado de pretendentes, alguns mais afoitos que se chegavam, e outros que não, tímidos, permaneciam de longe esperando o melhor momento.

O Machado, bastante descontraído, até certo ponto é claro, pois não convinha abusar, se enquadrava entre os primeiros. Se acertara com a namorada, que era a mais velha das irmãs, e passou a freqüentar a fazenda. Certo que apenas nos fins de semana, pois durante os dias úteis tinha que trabalhar e mostrar serviço. Freqüentava a casa da namorada nos finais de semana, onde ia no seu cavalo malhado, do qual tinha muito orgulho, soltava o animal no pasto e passava lá o resto do sábado, pernoitava e todo o domingo. Ali pelas oito e meia, nove da noite, era convidado, como o resto da família, para se recolher na cama, que eles dormiam cedo. Para manter o cartaz, na segunda feira tinha que partir de manhãzinha, de madrugada, antes que o pessoal da fazenda se levantasse, não podia ser visto pelo sogro.

Um outro problema que veio à tona nesse tempo, para complicar os planos do nosso herói, foi um boato que correu por Calçado, inventado por alguém que não gostasse dele, algum despeitado, e espalhado por gente ruim, pelas más línguas, que fofocavam que ele tivera um problema de saúde em Vitória, de doença venérea, difícil de curar, cujo tratamento a que se submeteu era complicado e doloroso, enfiavam pela uretra uma sonda, ou sei lá o quê, e queimavam os tecidos doentes com nitrato de prata ou permanganato de potássio, qualquer coisa assim, que queimava, horrível. Um tratamento de eficiência duvidosa, mas que era o que existia na época, diziam que além de todos os problemas, costumava deixar seqüelas, seqüelas irrecuperáveis. Uma tristeza esse pessoal de língua comprida e maldade no coração.

Não obstante, felizmente, tal boato não trouxe maiores conseqüências e não foi levado muito a sério. O namoro se encaminhou normalmente e chegou a época do noivado, do compromisso, do pedido de casamento, nos conformes de então. Num domingo, todos reunidos na sala, as famílias, parentes e amigos, preparados para o evento. Se não há engano, o pedido foi feito por um tio, talvez o Sinhô, que era bom de conversa, parece que sim.

A resposta do sogro não foi a direta, como podia ter sido, e era a esperada. Em vez disso, o velho pediu um tempo e respondeu que precisava de alguns dias para consultar o ex-sogro, o patriarca da família, que era o pai da falecida, que agora tinha que ser ouvido, pois na falta dela cabia a ele opinar a respeito.

A conclusão, ou seja a resposta, veio em uma semana, ou duas, não há certeza, e de forma bastante inesperada, num domingo, quando regressavam do "banho no munho". Era a primeira vez que ele fora convidado para tomar um "banho no "munho".

Do banho no munho:

Para entender a problemática, conforme o Machado contava, além dos entraves e dificuldades já referidas, para entendimento do problema, vem como ponto culminante, de relevo inquestionável, o episódio do "munho".

Era mais ou menos uma rotina, muita gente tomava banho no "munho", ou melhor, nem tanta assim, apenas o dono da fazenda, os meninos e alguns seus convidados esporádicos.

Corrigindo de novo, não, não era bem no "munho", apenas um modo de falar, os banhos eram debaixo dele, numa espécie de porão, meio fechado de um lado, meio aberto do outro, onde corria o córrego, água abundante, vinda de duas direções, do leito normal e do desvio criado para alimentar a roda.

O prédio ficava mais ou menos a um quilômetro da fazenda, numa vargem, próximo de uma encosta, e chegava-se lá por uma trilha aberta na vegetação. Ali debaixo, a água se estancava e formava uma bacia natural, um poço, onde os meninos nadavam e brincavam e os adultos ficavam com água pelo joelho, e aproveitavam também a grande ducha que vinha de cima, quando estava fechada a comporta das águas que movimentavam a roda. Esta era uma roda d'água, de madeira, grande, que transmitia movimento a todo o "complexo do munho", o moinho de fubá, o engenho de cana, o gerador de corrente elétrica, a oficina de ferreiro, conhecida também como tenda. Um ligado de cada vez, já que a força não era suficiente para tocar tudo ao mesmo tempo. A água vinha de uma canalização superior e caía ali uns cinco metros, com peso e força, capaz de mover a roda. Quando desviada, para desligar o sistema, formava a tal ducha, com peso capaz de derrubar um que entrando não estivesse prevenido ou sem bom preparo físico.

Como já se disse, o fazendeiro ali costumava tomar seu banho diário. Levantava cedinho, antes das seis horas, com frio ou com calor, e vinha, já vestido com a roupa de serviço, chapéu de feltro na cabeça, sujo e surrado pelo uso, de tamanco, na mão um pedaço de sabão do reno enrolado numa bucha, e uma toalha de saco de farinha de trigo nos ombros. Se orgulhava de tomar banho na água fria. Na casa grande da fazenda até que tinha instalações sanitárias completas, com banheira de água quente e outras facilidades, mas isto era para as mulheres, homem que se presa tomava banho era no córrego.

Ele tomava seu banho nu, pelado, igual como nasceu, ou como os índios quando aqui Cabral chegou. Um banho demorado, caprichado, esfregava o sabão na bucha e esta pelo corpo, bastante espuma, e entrava sob a ducha. Normalmente, levava consigo os meninos e esporadicamente algum convidado que pernoitasse na fazenda.

Pensava que se alguém quisesse vê-lo naquele estado, paciência, o problema não era dele, não tinha acanhamento, nem vergonha de se expor, e nem pruridos de pudor. Ao contrário, considerava tudo muito natural, "não era assim que a gente nascia?" Não pretendia afrontar ninguém, o local era meio deserto e passava pouca gente por ali, e para espiá-lo naquelas condições, a pessoa tinha que ser curiosa e fazer algum esforço. Era rotina antiga, de muitos anos.

Naquele domingo, no tal domingo, convidou o Machado para tomar banho com ele. Foram os dois tranqüilamente, se despiram debaixo do munho, e entraram na água. O velho estava conversado, assuntos variados, os problemas da fazenda, as formigas cabeçudas atacando as laranjeiras, o pasto seco e o gado magro, os capados gordos mas com preços baixos, a queda da safra do café, tempos ruins, uma crise atrás da outra.

O Machado estranhou aquela conversa toda, meio fora de propósito, pois não tinham tanto assunto assim, percebeu que era apenas um disfarce do velho, o que ele queria mesmo era observá-lo, estudá-lo. De olho, reparando seus movimentos e os detalhes do seu corpo, olhava de lá, olhava de cá, atenção em algumas partes.

Aí, na sua narrativa, contando o caso, o Machado caprichava, exagerando nos detalhes e na encenação, fazia gestos, gesticulava, dizia que pensou lá com seus botões, porém sem dizer nada. "Que diabo será que esse velho tá querendo comigo, tá me estranhando? Se for preciso, jogo um trem nele, não vou dar sopa não, parece mal intencionado". Sabia que o sogro tinha fama de garanhão, que não perdoava as mulheres lá da roça que lhe dessem oportunidade, e para completar estava viúvo, de jejum algum tempo, portanto um perigo. Então completava: "não dei as costas para ele o tempo todo, tá doido, de jeito nenhum!".

Na saída do banho, quando voltavam para a fazenda, o homem depois de um longo silêncio, comentou: "seu Machado, tudo bem, estou de acordo". "De acordo com quê meu senhor?" Estranhou o Machado. "Ué, você não pediu casamento, não quer casar com a minha filha? Estou dizendo que estou de acordo".

Foi então, finalmente, que ficou explicado o porquê do banho. O sogro estava preocupado com o futuro da filha e queria conferir pessoalmente, tirar algumas dúvidas, esclarecer a veracidade ou não das fofocas que corriam na rua.


Vila Velha, agosto de 2004.
João Hertesi



 


 

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