Do Relatório de Viagem: dois calçadenses em Viena




Viena, 9 de setembro de 2000 (sábado). Chegamos ontem à noite depois de um tempo bem longo de viagem. Pegamos o jumbo da Britsh Airwais no Rio, às 13:55 horas local e fomos para São Paulo. De lá partimos às quatro da tarde, viajamos por mais ou menos onze horas para chegar no Aeroporto de Gatwick em Londres. Foi agradável, ou melhor dizendo, não foi ruim, ou ainda tão ruim, como costuma acontecer nessas longas travessias do Atlântico em vôos econômicos. Mariazinha junto da janela, eu espremido entre ela e um vizinho, que era meio gordo. No início sentimos um pouco de calor, um vento quente, meio aquecido, vinha de embaixo no canto. Mas depois de uma hora de vôo, parou e a temperatura ficou agradável. A viagem foi boa, não teve os inconvenientes de outras. O companheiro do meu lado, que viajava com duas senhoras e um rapaz, sentados no banco de trás, não incomodou, não quis saber de papo, deitou a cadeira e dormiu quase o tempo todo, e foi gentil, levantava-se prestimoso quando queríamos ou precisávamos sair, para ir ao banheiro ou simplesmente relaxar e esticar as pernas. Como disse, era meio gordo, cara de bolacha, falava pouco, mal respondia às mulheres quando estas puxavam assunto. Soubemos que era suíço, casado com uma delas, mas falava português fluente. As mulheres, duas maduronas, brancas, como gente de Santa Catarina, irmãs, também não eram de conversar demais. Nem o rapaz. Ninguém nos incomodou. Nem me lembro de quem sentava nos bancos da frente. Também não houve aquele anda anda de gente desassossegada pelos corredores.

A comida do avião foi mais ou menos, deu para comer bem, jantar ali pelas sete ou oito horas, esqueci de anotar o cardápio. Mais tarde, para quem quisesse, havia sanduíches à vontade, era só pedir. O fuso horário para Londres é de quatro horas, nós saímos de São Paulo mais ou menos três ou quatro da tarde, não sei precisar direito, chegamos em Londres às sete da manhã, só que no Brasil eram ainda três da madrugada, o avião adiantou meia hora, o horário certo seria 7:30. O café da manhã, "break fast", foi servido às cinco, ou seja a uma da madrugada no Brasil. O avião estava cheio de brasileiros, o idioma dominante era o inglês, mas os avisos eram dados também em português, vários comissários brasileiros, ou ingleses que falavam português, uma mistura de idiomas, conforme a cara do passageiro a moça começava perguntando em inglês e depois terminava falando português, não havia problema de comunicação.

Nosso destino foi o Aeroporto de Gatwick, terminal Norte, que não sei bem aonde fica em relação à cidade, tenho de olhar no mapa, mas fica longe. Tivemos que nos transladar para outro aeroporto, o de Heathrow, uma hora e meia de corrida em estrada boa. Sorte que o rapaz do chekin no Rio foi espetacular, explicou tudo direito, nos entregou um papel com um desenho, tudo assinalado. Quando chegássemos a Gatwick, deveríamos passar pelo controle de passaporte, seguir em frente, procurar o balcão da Britsh para apanhar um tíquete e procurar depois o ônibus da "Speed Link bus", que nos levaria a Heathrow, terminal número um, não esquecer, pois esse ônibus passaria também pelos outros três terminais, teríamos de descer no um. Nos despachou no Rio já com os dois cartões de embarque, um até Gatwick e o outro de Heathrow a Viena, as bagagens seguiram diretas. Ainda teríamos de passar de novo por outro controle de passaporte. E foi mais ou menos isso o que aconteceu, com diferença de uma dificuldadezinha, pois depois de pegar os tíquetes fomos direto para o ponto do ônibus, onde havia uma mulher controlando a entrada, mandona, branquela, meio velha, falando um inglês nervoso, a gente não entendia nada, apontava, gesticulava, mandava uns entrar no ônibus e refugava outros, um monte de gente, gente de todo tipo, do nosso avião e de outros, uma confusão. Demorei a entender que tinha que voltar, e entrar numa fila mais atrás para apanhar um cartão grande e esperar numa sala de passageiros o próximo ônibus. Esse cartão era de várias cores, dependendo da cor, a pessoa ia em determinada viatura. No fim tudo deu certo. Quando fomos pegar o nosso ônibus, encontramos com dois casais de brasileiros, um deles acompanhado de um filho, um rapazola. Uma das mulheres foi simpática, puxou assunto, vieram de São Paulo, também iam para Viena, e depois, coincidência, Praga, Budapeste e Berlim. Iam também pegar a excursão da SATO. Agora estava bom, não tinha mais errada, era só seguirmos juntos. Descobrimos também que em Berlim eles tomariam outro rumo, iam para a Rússia, São Petesburgo. Mariazinha achou a mulher meio metida, meio sofisticada.

Saltamos no terminal um, conforme orientação, o um e o dois ficam juntos. Ainda era cedo, onze horas? O vôo para Viena seria às quinze, e ainda nem constava do painel de controle, havia muito tempo que esperar. E, principalmente, teríamos que comer. Aí era problema, despesa pequena, um lanche, não estávamos em condições de almoçar, e tinha que ser com cartão de crédito, pois não ia fazer câmbio de dez ou quinze dólares, só a taxa que eles cobram comeria um bom dinheiro. Mais difícil ainda foi escolher o local. Havia cafeterias, casas de chá, um restaurante, e lá no final um local com balcões de comida rápida, tinha que ser aqui, mas comer o quê? Tudo com aparência ruim, mas tínhamos que comer qualquer coisa. Terminamos comendo essa qualquer coisa, horrível, que paguei com cartão de crédito, 4,5 Libras, em dólares 6,90 US$.

Uma coisa que nos chamou a atenção foi o movimento do Aeroporto de Heathrow, não o de pessoas, que esse era enorme mesmo, mas o de aviões. Na hora da decolagem, a aeronave aproximando-se da cabeceira da pista, Mariazinha viu pela janela e me cutucou, uma fila de aviões imensa, atrás, preparando-se para decolar, 20, 30 ou 50? Sei lá, tentamos mas não deu para contar. Um atrás do outro, como carros em engarrafamento, mal saia um, levantando vôo, e lá estava outro já postado na cabeceira, esquentando os motores, preparando-se para a corrida.

Ontem foi um motorista que nos pegou no Aeroporto de Viena. Eu fiquei para trás, e quando cheguei já achei o grupo com ele, me esperando, me atrasei por causa da mala grande que havia aberto o fechecler. Mas tudo bem, não perdeu nada. Era de tardinha, seis e pouco, dia ainda claro, temperatura amena. Um dos paulistas veio conversando e especulando o motorista, um latino americano, falando espanhol, residente em Viena não sei quantos anos, não guardei o papo. A cidade foi aparecendo, aqueles mesmos edifícios que caracterizam a maioria das cidades européias, enfileirados, homogêneos, uns ao lado dos outros, de quatro ou cinco andares, de fachadas regulares, lembrando os de Paris, porém mais sóbrios, menos enfeitados.

Fizemos câmbio no Aeroporto. Estávamos vários juntos. Eu queria trocar cinqüenta dólares dando uma nota de cem, queria saber se eles voltariam o troco em dólar. Conversei com um dos paulistas. Mais tarde Mariazinha veio falar comigo, em tom de censura, como me considerando um mesquinho, que ouvira o homem comentando com a mulher e ela dizer "só cinqüenta dólares, não dão para nada". Na verdade, eu acabei trocando setenta, que terminou sobrando, pois não fomos jantar em nenhum restaurante chique, como recomenda a etiqueta e costumam fazer as pessoas refinadas. Mesmo se isso acontecesse, eu poderia pagar com cartão, cinqüenta seria mais que razoável para as despesas em dinheiro. Na verdade, nem jantamos ontem, estávamos cansados, preferimos permanecer no quarto do hotel, e roer uns restos de coisas que trouxemos do avião. Preparei leite com nescafé que trouxe na bagagem, sob protestos da Mariazinha, que tomou contrariada, reclamando.

Hoje vamos sair para o city tour às nove horas. O rapaz da SATO, a nossa operadora, entregou-nos um envelope com dados sobre nosso programa até Berlim, e nele há ofertas de vários opcionais. Achei tudo caro, o que mais tem é opcional, mas ainda não resolvemos nada, vamos ver.

Revisando: 09 de setembro de 2000 (sábado), estamos aqui no apartamento do hotel, Hotel Renaissance, localizado a Linke Wienzeile, 71, tel. 0043.1.90102, apartamento 547, quinto andar, ambiente muito bom, sem luxo, mas muito bom. Cama larga, com um cobertor que não é cobertor, é um acolchoado branco que embola, volumoso, quente, lembra aqueles de pena que vi em Curitiba. Mariazinha não reclamou, mas eu senti um pouco de calor à noite, não consegui regular o ar condicionado, aliás eu acho que ele estava quebrado, rodei o botão do termostato e ele girou frouxo, deu uma volta completa, mas não quis reclamar na portaria, é muito complicado, os caras não me entendem. Mariazinha dormiu o primeiro sono bem, mas depois me cutucou, eu estava roncando, acordei assustado, dum sono profundo, não cheguei a bronquear. Tomamos ontem à noite um banho gostoso de emersão, na água quente, que deixa a gente relaxado. Não houve problemas com as torneiras, como costuma acontecer, eram daquelas de levantar uma alavanca para abrir e girar para um lado ou para o outro para temperar a água, que vai de gelada a fervendo, passando por todas as gradações. Uma outra alavanca, em separado, serve para escolher banheira ou ducha. Andei pensando que até que seria bom ter um banho desses em casa, que gostoso, quentinho, relaxante.
Acabamos de chegar do "break fast", café da manhã excepcional, comi tudo que não podia, ovo mexido, pedaço de bacon, um pedaço de uma outra coisa que não sei o que é, uma espécie de bolo de carne, muito gostoso, sucos, frutas, é da gente se perder, sem saber o que comer, tanta coisa que tem, tanta variedade, iogurtes, sucrilhos, comidas de japonês, peixe cru, legumes picados crus, pães de todo tipo, geleias, queijos, manteiga, margarina, etc.. Mariazinha ficou meio envergonhada de mim, me reprovou, porque sujei a mesa, derramei as coisas, ando muito desastrado, comi igual a um porco, etc., etc. Estamos saindo para o city tour de Viena.

O guia local era um tipo alemão, falando um espanhol carregado, que dava para entender mais ou menos. Desde que deixamos o hotel, foi mostrando vários prédios importantes e comentando. A Galeria Austríaca, O Museu de Belas Artes, com pinturas e esculturas, a Embaixada do Brasil, a da Argentina, a da Suíça, uma área nobre, o prédio que abriga a Filarmônica de Viena, vale a pena ver um concerto, não poderíamos deixar de levar pelo menos um disco da Filarmônica, vale a pena.

O primeiro local em que paramos para ver de perto foi o Palácio do Belvedere. Na verdade são dois palácios, o de cima que fica no alto de uma colina, e lá embaixo o outro, mais simples, ambos separados por uma encosta, ajardinada, com escadas, com monumentos, chafarizes, estátuas. O de cima então é magnífico. A vista é linda, daí o nome de Belvedere, que significa "Linda Vista", avista-se o centro da cidade velha, no meio do casario as torres da Matriz de Santo Estevão. Quando foi construído o Belvedere, não existiam os outros prédios e a vista da igreja deveria mesmo ser mais linda, sobressaindo na distância. Os Palácios foram construídos por ordem de Eugênio de Savóia, conhecido também como o Príncipe Eugênio. Segundo o guia, esse era um sujeito com aparência ruim, sem atrativos físicos, miúdo, filho de uma amante de Luís XIV, o famoso Rei Sol de França. O quinto filho, sem possibilidades na corte. Quando o rei mandou exilar sua mãe (devia estar enjoado, a mulher dando problemas), o príncipe se aborreceu, abjurou da nacionalidade francesa e veio para Viena, onde entrou para o exército como soldado. Revelou-se um gênio militar, muito inteligente, em poucos anos era o general mais importante do Exército Austríaco. Comandou uma série de vitórias, principalmente nos Balcãs contra os turcos que eram uma ameaça constante para o império austríaco. Teve sucesso também em campanhas na Itália, em Flandes e na Baviera. Consta que venceu batalhas contra o próprio exército do Rei Luís XIV. Este convidou-o para voltar à França e assumir um alto comando no seu exército mas ele rejeitou. Foi muito festejado em Viena, devido às suas vitórias militares, à sua importância como homem inteligente que se impunha. Não casou, não teve filhos, parece que não gostava de mulheres, o guia não entrou em detalhes. Foi esse príncipe que mandou construir os palácios do Belvedere. Não chegou a habitar o grande, o mais bonito, o de cima, cujo telhado verde de cobre tem a forma das tendas de seus exércitos de campanha. Ele habitou apenas no de baixo. Seus herdeiros, parentes colaterais, foram quem venderam os prédios para o imperador. Hoje esses palácios pertencem ao governo austríaco e são muito badalados. Foi no grande que em 1955 se reuniram as autoridades austríacas para, com toda a pompa e circunstância, assinar com os países aliados, vencedores da Segunda Guerra, o tratado que criou o atual estado austríaco, como nação independente e soberana.

Continuando na direção do centro, entramos pela Ringstrasse. O prédio da Ópera, um grande edifício, que dizem que é maravilhoso por dentro, foi inaugurado em 1869, o primeiro prédio construído ao redor do anel, do lado de fora, sendo que, segundo o guia, os vienenses não gostaram dele, acharam-no feio, de mau gosto, criticaram-no asperamente. Um dos arquitetos suicidou, foram dois os arquitetos, o outro teve um ataque do coração e morreu antes da inauguração. Durante a Segunda Guerra, a aviação aliada bombardeou Viena, destruiu a Ópera, a doze de março de 1945. Os Vienenses resolveram restaurá-la, e a reconstruíram igualzinho era antes, com os mesmos planos e projetos. E continuamos seguindo pelo anel. Esse anel, é uma avenida que circula em torno da cidade velha. O nome em austríaco é Ringstrasse, (Ring = anel, strasse = rua, avenida) e foi construído, por ordem do Imperador Francisco José, a partir de 1857, no local onde existiam as antigas muralhas que cercavam a cidade, que então foram demolidas.

Na cidade velha, dentro do anel, estão os edifícios mais importantes e bonitos de Viena, a maioria construídos depois da demolição das muralhas. Logo após a Opera, que fica do outro lado, continuando pelo anel, vemos o Jardim da Corte, um jardim privado dos Habsburgo, onde há o monumento, uma estátua, de Wolfgang Amadeus Mozart. Este jardim é parte do palácio imperial de inverno dos Habsburgo, O Hofburg, um complexo de edifícios de tempos e estilos diferentes, que ficam à direita de quem segue, dentro do anel. O início de sua construção deu-se há 640 anos, ocupa uma área de 17 hectares e tem 2600 apartamentos, é o maior prédio da Áustria e o segundo maior da Europa, perdendo apenas para o Vaticano. Hoje hospeda a Escola de Equitação Espanhola, a Biblioteca Nacional, e vários outros órgãos, inclusive a capela onde cantam Os Meninos Cantores de Viena, é também a sede da Presidência da Áustria. À esquerda vemos a estátua de Maria Teresa, a famosa rainha de Áustria, conhecida como a avó da Europa, porque teve 16 filhos, e sua descendência se espalhou por todo o continente, através de casamentos com reis e rainhas. Dois museus, o de Ciências Naturais e o de Belas Artes, que possui em sua coleção obras de todos os grandes mestres da pintura, Tintoreto, Corregio, Ticiano, Velasques, Rembrant, Dureto, Rubens, etc.. Segue-se O Teatro da Corte, "O Burgtheater", o teatro mais importante do idioma alemão, onde sempre se pode ver belos espetáculos, sempre em língua alemã. Do outro lado, o Prédio da Prefeitura, um edifício grande, em estilo neogótico, com cinco torres na frente, a do meio bem mais alta que as outras, parece mais uma igreja, o edifício do parlamento, em estilo neoclássico, com aquelas colunas na frente, lembrando uma construção da Grécia Antiga, ou de Roma, na frente a estátua da deusa da sabedoria, Atenea, ao que o guia comentou que também na Áustria, onde se reúnem os políticos, a sabedoria fica do lado de fora. A Igreja Votiva, estilo neogótico, construída em 1854-59, em memória de um atentado que sofreu a pessoa do Imperador Francisco José. Segue-se uma vivenda de fachada rosada, em cujo interior há um restaurante típico. Nesta casa Straus criou sua mais bela composição, O Danúbio Azul. Podemos entrar e comer um hambúrguer no mesmo local onde Straus trabalhava. Ele necessitava de inspiração para compor, por isso teve três esposas e dezesseis amantes, sempre dedicava suas canções a uma delas, esposa ou amante. Ele acreditava que sem amor é impossível compor.

 


 

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