Do Relatório de Viagem: dois calçadenses em Viena



Demos uma parada num sítio muito interessante, um conjunto de prédios antigos, restaurados recentemente, denominado Conjunto de Habitações Populares de Hundertwasser. Essas habitações deviam estar em péssimo estado, habitadas pela população mais pobre, e um conhecido pintor austríaco, de nome Friedennsreich Hundertwasser, resolveu restaurá-las para criar mais uma atração turística. O conceito utilizado foi revolucionário, preservar a individualidade humana e estimular a criatividade. São edifícios de altura e formatos irregulares, quatro, seis, sete pavimentos, cada apartamento foi pintado externamente com uma cor diferente, e as janelas e portas são todas de tamanho, formas e estilos diferentes, ao gosto do morador. O conjunto é popular e está numa área nobre, os aluguéis são baratos e subsidiados, a metade do que se paga na circunvizinhança, paga-se por metro quadrado, daí a grande procura, creio que são apartamentos pequenos, de no máximo uns oitenta metros. A rua, que é estreita, é cheia de outras atrações para os turistas, lojas de suvenirs, restaurantes, cafés, bares, etc.

Continuando sua explanação, o guia informou que o menu preferido dos vienenses é escalope, Escalope Vienense, de "ternera ou cerdo" empanados, com nome alemão de "Wienerschnitzel" Acho que é escalope de vitela ou porco, à milanesa, não? O melhor da cidade é o que é feito pela avó dele, do guia, que ele come quase todo domingo.

Paramos na Catedral de Santo Estevão, já nossa conhecida. É considerada o símbolo de Viena, e porque não dizer, da própria Áustria. A primitiva construção data do Século XII, foi consagrada em 1147, portanto há 853 anos. Entretanto, dessa igreja primitiva não resta nada, foi queimada no século XIII, e em seguida reconstruída, e desta segunda, resta o portal principal, em estilo românico-tardio. Sua terceira reconstrução, em estilo gótico, é dos século XIV e XV, e é praticamente o que temos hoje. Todavia, ela foi bombardeada na Segunda Guerra e teve de ser restaurada novamente. Seu telhado, que data de 1945, é todo de azulejos desenhados, presos com cravos de cobre, e pesa cerca de 600 toneladas. Da outra vez, entramos nesta igreja sem problemas, pagamos uma taxa e subimos pelo elevador até o topo da torre norte, a mais baixa, ainda sem terminar, para olhar Viena, o cinzento casario, as torres, os palácios com seus telhados verdes, de cobre, azinhavrados, o Danúbio aberto em braços, lá distante. A outra torre, a do lado sul, é muito mais alta, 136 metros, sobe-se por uma escada com 343 degraus, não dá. Desta vez estranhei, colocaram um cercado no meio da igreja, para conter os turistas, cujo afluxo a cada dia cresce mais. Não gostei. Esta catedral me lembra sempre uma cena do filme Amadeus, o casamento de Mozart, ao som do Kyrie da Grande Missa em Do Menor, K427.

Lembro que no city tour, cruzamos o Canal do Danúbio. Passa bem perto do centro da cidade, com águas barrentas, o guia comentou gozador, "à direita as águas do Danúbio Azul". O rio propriamente dito fica também na área urbana, mas um pouco mais afastado do centro antigo. Um comentário. Na região onde fica Viena, o Danúbio correndo mansamente, se abre em três (ou quatro?) braços, um canal à direita, outro à esquerda e o curso principal no meio, há várias ilhas e lagoas da água represada. O braço conhecido como o Canal, é o mais estreito, fica, se não me engano, à esquerda, e é bastante longo e cruza quase que o centro. Parece que ele foi aberto artificialmente, nos tempos antigos, para facilitar a chegada dos navios à cidade, e também como obra de contenção das enchentes. Foi o que entendi do que o guia falou.

Seguimos depois para a parte nova da cidade, na direção do curso principal do Danúbio, atravessamos a ponte e fomos ver o que de novo está sendo construído. Prédios novos e modernos, inclusive o novo Centro da Administração Federal, e muitos outros edifícios, tudo moderno, inclusive um que pertence à ONU, onde ocorrem eventos importantes de repercussão mundial. Quando se ouve, "reunião em Viena, para tratar de tal ou qual assunto", é ali. Há próximo uma torre cilíndrica, moderna, que chama a atenção pela sua elegância e design arrojado, trata-se de um incinerador, onde são queimados parte do lixo da cidade, e cujo calor resultante é aproveitado na calefação dos prédios vizinhos.

Agora estamos no hotel, acabamos de chegar da rua, viemos de Metrô. Diferentemente do que fizemos sem querer, na outra viagem, desta vez carimbamos nosso bilhete, conseguimos localizar as maquinetas que ficam na entrada de acesso, sem catracas, sem avisos, assim como quase que meio disfarçadas. O guia alertou que tivéssemos muito cuidado, se alguém for pego com o bilhete não carimbado, mesmo sendo turista, e não falando a língua, a multa é grande, e não tem choro não, parece que não tem ninguém olhando, mas quando menos se espera o fiscal aparece. Havíamos ficado no centro depois de terminado o city tour, junto à catedral. Na volta, pegamos o metrô e paramos numa estação próxima do hotel, descemos e, ao sairmos na rua, vimos do outro lado, bem de frente, o prédio, a fachada com a inscrição em letra grandes, "Hotel Renaissance".

Tivemos uma companheira para correr o centro. Esta moça merece algumas considerações. Nós a encontramos no Aeroporto de Heathrow em Londres. Uma pessoa falando português é sempre bem vinda. Nos encontramos quando olhávamos o painel de horários, para ver se nosso vôo já constava dele, não constava, ainda era cedo, menos de meio dia e o vôo só sairia às três. Ela também ia embarcar com a gente, que bom, mais uma companheira de viagem, ia fazer a mesma excursão, enfrentar os mesmos problemas.

Demos uma volta pela Ringstrasse, a pé, percorrendo o mesmo itinerário feito de manhã de ônibus. Tiramos fotos no monumento de Mozart, depois no de Goethe, passamos em frente ao Hofburg (o palácio real, moradia de inverno dos imperadores), vimos de novo todos os magníficos edifícios do centro de Viena e voltamos a Santo Estevão. Quando pedi para que ela batesse uma foto nossa, e com medo dela estragar a fotografia, fui explicar como a câmera funcionava, ela me dispensou, dizendo não, não precisava, já fizera cursos de fotografia, era especialista, tinha não sei quantas câmeras, uma submarina, outra não sei o quê. Fiquei meio humilhado, de fato ela estava com duas câmeras, uma com teleobjetiva para fotos a distância, que usava para fotografar os detalhes dos prédios, que eram inacessíveis, e outra para fotos de perto.

Comemos Sanduíches no Mac Donald, (135 ATS, para nós dois, equivalente a 9,64 dólares), em seguida rodamos ali por aquela avenida larga que fica entre Santo Estevão e a Ópera, a rua cheia de gente, um homem tocando um realejo, quando me aproximei com o gravador ele parou, talvez esperando uma moeda, um grupo de índios mexicanos dançando a dança típica e falando em alemão, fazendo demonstrações, um homem todo pintado de cinza metálico, imóvel, dando uma de estátua, só mexia para agradecer quando alguém colocava uma moeda na cesta junto a seus pés. Depois vimos várias outras estátuas vivas desse tipo, masculinas, femininas, todas mexiam quando a moeda era colocada. Uma festa o centro de Viena, nesta tarde de sábado ensolarado, dia claro e quente.

Estávamos curiosos sobre um parque que vimos do ônibus no city tour, onde existe uma estátua dourada de J. Strauss Jr. Como sabemos, são dois os Strauss, ambos famosos, o filho mais do que o pai. O pai era de origem cigana e foi quem tornou a valsa popular em Viena. O filho começou tocando com ele, na sua banda, mas depois deslanchou-se sozinho, inovou, criou músicas para se ouvir e não só para dançar, fundou a sua própria orquestra, e é o compositor de todas as valsas que conhecemos como as de Strauss.
Quando se fala em Strauss, é o filho. Não foi difícil encontrar o tal parque, olhando no mapa, vimos que seguindo por uma rua que sai nos fundos da catedral se chegava lá.

Não era longe, o nome do parque é "Stadt Park", ou Parque da Cidade. É um ambiente muito agradável, um bosque com trilhas para caminhar, tudo limpo, bem cuidado, com lagos, bancos por toda a parte, lugar ideal para descansar e relaxar, a cada passo uma estátua de um compositor famoso de Viena. Além de Strauss, vimos também a estátua de Franz Shubert, e de vários outros menos conhecidos, pelo menos por mim.

Em Viena fala-se muito, ainda hoje, nos imperadores. Pelo menos para nós turistas. Assim, vamos lá, a família dos Habsburgo. Estiveram à frente do Império, que abrangia a Áustria, a Hungria, a Boêmia, e mais outros territórios, desde 1276-78, quando assumiu Rodolfo I de Habsburgo, príncipe eleitor germânico, após vencer o exército local, e permaneceram no poder até o ano de 1918, quando o império deixou de existir, com a derrota da Alemanha e Áustria na Primeira Guerra Mundial. Entre os imperadores mais conhecidos destacou-se uma mulher, Maria Teresa. Não dá para entender, ela teve 16 filhos e comandou a Áustria durante vinte anos, num período complicado, teve mãos firmes e se fez respeitada e querida pelo povo. Entre seus filhos destacaram-se José II, que a substituiu e Maria Antonieta, a famosa e infeliz rainha de França, casada com um rei paspalhão, Luís XVI, em quem pôs chifre, e terminou, aos 38 anos, guilhotinada, logo depois do marido, durante o grande terror da Revolução Francesa. Conta-se que quando Mozart, então com seis anos, levado pelo pai, tocou na corte de Maria Teresa, no palácio de Schonbrunn, Maria Antonieta, então também uma garota, ficou encantada com ele e o pegou no colo. Entretanto, a imperatriz Maria Teresa não teve a mesma sensibilidade, não percebeu o gênio maravilhoso que estava diante dela e não lhe deu o apoio necessário, tão esperado por Leopold, o pai de Mozart. Deu-lhes apenas algum dinheiro e os despachou, e teria comentado depois, "essa gente esquisita, que anda por aí se exibindo, de porta em porta, parecem ciganos". Uma pena! O outro filho de Maria Teresa, o mais velho, quando imperador, foi um sujeito bastante interessante. Ao contrário da mãe que era voluntariosa e governava com mão forte, ele era liberal, gostava das artes e protegia os artistas, tinha grande preocupação com o bem estar da população mais pobre. E fez várias reformas nesse sentido, contrariando os interesses da nobreza. Por isso, contava com certa má vontade por parte dos mais ricos. Consta que para parecer simples e melhor identificar-se com os súditos, o imperador José II costumava andar mal vestido, às vezes com o paletó ou a calça puída, no que não era bem compreendido, na rua mesmo o povo o criticava e zombava dele, pelas costas é claro, mais uma vez confirma-se que o "o povão gosta mesmo é de luxo, quem gosta de pobreza é intelectual". Esse imperador aparece como um dos personagens do filme Amadeus. Mozart trabalhou na sua corte, mas não se deu bem, a barra era pesada, havia muitos músicos e maestros invejosos, disputando os cargos, fofoqueiros, que faziam a cabeça do imperador. Uma das grandes vitórias destes foi quando da estréia da ópera As Bodas de Fígaro, música maravilhosa, perfeita, mas longa, quatro horas de duração, o rei abriu a boca no início do Quarto Ato, e deu um bocejo, mostrando-se cansado e sonolento. A ópera foi retirada de cena alguns dias depois, após apenas nove apresentações. Hoje ela é considerada uma das mais importantes obras primas do gênio universal.

Outro Habsburgo do qual se fala muito foi o Imperador Francisco José I, devido ao seu longo período de reinado. Subiu ao trono em 1848, com apenas 18 anos, e governou até 1916. Ele se casou com a linda princesa Elizabeth de Baviera, a famosa "Sissi", cuja história de amor inspirou operetas e filmes. Foi no reinado desse rei que ocorreu a demolição das antigas muralhas da cidade, construindo-se em seu lugar o anel rodoviário que delimita o centro antigo, e ocorreu também a remodelação desse centro, com a construção da maior parte dos edifícios que hoje vemos .Uma curiosidade, esse imperador foi contemporâneo do nosso D. Pedro II, nasceu em 1830 e faleceu em 1916, portanto, com 86 anos de idade. Já a rainha, a Sissi, viveu menos, nasceu em 1837 e morreu em 1898, aos 61 anos.

À noite decidimos ir a um opcional, "Noite Vienense", 55 dólares por pessoa, um concerto com músicas de Mozart e Strauss e um jantar .

Continuando ...

Agora são cinco e pouco da manhã do dia seguinte, cinco e trinta e pouco, estou aqui no banheiro trancado para fazer meu relatório sem incomodar a Mariazinha. Ontem fizemos nosso programa noturno. Fiquei logo aborrecido no princípio. Quem acompanhou a programação foi o encarregado dos negócios da Operadora SATO em Viena, parece que o guia escalado havia faltado. Ele estava reclamando, sem paciência, meio nervoso.
Era um sujeito alourado, altura mediana, tínhamos tido contatos durante o dia, foi ele quem nos recebeu ao chegarmos. Não sei se foi engano mesmo, ou ele quis me dar um golpe, fácil enrolar um calçadense enrolado, turista com grana sobrando, vinte, cinqüenta dólares a mais ou a menos não faz diferença. Mas no meu casso a grana não sobrava e era mesquinho, enjoado com esse negócio de dinheiro, ainda mais dólares valorizados, trago contadinhos e conferidos. Desci com o dinheiro separado, trocado para pagar, parte em moeda austríaca e parte em dólares. Tinha feito as contas com muito cuidado no quarto, conferido e reconferido. Mas na hora o sujeito me enrolou, perguntou se eu tinha deixado dinheiro austríaco para o almoço do dia seguinte, que não era necessário, nosso almoço já seria na Hungria, com dinheiro de lá. E eu tinha. Tive de mexer no dinheiro separado, misturei com o outro, botei Schilling e tirei dólares, tentei fazer conta, não consegui, era um monte de gente pagando, uma confusão, não havia troco, e ele fez umas contas esquisitas, separou parte do meu dinheiro e disse que correspondia a parte de uma pessoa e o resto para a outra, faltava tanto, dei-lhe uma nota de cinqüenta e ele me devolveu o troco. Percebi que tinha algo errado, fui para a condução e conferi, realmente estava faltando no meu dinheiro, não sei se vinte ou quarenta dólares, difícil constatar na hora, depois eu veria, mas fiquei inquieto, era a minha palavra contra a dele. No trajeto não deu para me aproximar, havia pressa, estávamos atrasados, e ele ia explicando a programação. Mas quando o ônibus parou e descemos, corri e o alcancei, e disse-lhe o meu problema, pedi que conferisse o dinheiro dele, devia estar sobrando, talvez quarenta, ou vinte? Notei que ele não gostou, mas respondeu-me que ia ver. Na manhã seguinte, na saída para a Hungria, me daria a resposta.

Entrei chateado na Sala de Concertos. Que maçada! Logo agora, ir para um programa desses aborrecido, precisava dar um jeito, relaxar, parar de pensar. Sentamos bem na frente, meio de lado. A maior parte dos homens estava de paletó e gravata. Eu não, apenas de manga comprida, ou com meu casaco caqui? Não estou bem certo, mas sei que estava diferente. Mariazinha chamou-me a atenção. Havia parece apenas dois rapazes, bem jovens, vestidos como eu. Azar! Lembrei que depois íamos para uma taberna, e lá não é ambiente para paletó, acho que eu é quem estava certo.

O programa constaria de duas partes, primeiro Mozart, um intervalo, e depois Strauss. O conjunto era formado de seis elementos, todos jovens, quatro moças e dois rapazes. Uma moça era o primeiro violino, uma outra o segundo, a terceira tocava flauta e a quarta piano. Os rapazes, um tocava viola e o outro violoncelo. Além deles havia dois casais, não tão jovens, até meio coroas, um de cantores e outro de dançarinos, que entravam em cena dependendo do que estava sendo tocado. Iniciaram com a abertura de "A Flauta Mágica", linda, seguida do início de "As Bodas de Fígaro", que começa com Fígaro medindo o quarto e o dueto com Suzana. O par de cantores entrou em cena, cantando as árias do trecho. Seguindo, foi tocada uma pequena serenata, a peça mais popular de Mozart, "Eine Kleine Nachtmusik", maravilhosa!!. Mariazinha ficou impressionada com a moça do Primeiro Violino, magrinha, cabelos cacheados, mais para bonita sem ser linda, era quem comandava, quem dava as partidas, antes de começar cada música, ela parava e todos ficavam de olho, então contava e dava a partida. Acho que no tempo de Mozart, era esse o papel dele no conjunto. Tocaram outra parte de "A Flauta Mágica", quando Papageno encontra-se com Papagena, tocaram ..., tudo música conhecida ..., um trecho de "Così fan tutte", onde, se não me engano, os dançarinos participaram. Deixe-me ver se me lembro mais, ... Ah! uma parte, o segundo movimento, o lento, do Concerto para Piano n. 21, KV 467, lindíssimo. Nesta altura eu já não era mais eu, virara anjo, estava leve, sem peso, flutuando, pluma suspensa no ar, me esquecera completamente dos dólares. Mozart costuma fazer isto com a gente.

Houve um intervalo de quinze minutos e a segunda parte foi músicas de Strauss, o filho. Pensei que ia mudar de conjunto, mas não, os jovens saíram e regressaram de novo. Foi também mais um tempo agradabilíssimo, tocaram várias valsas, a maioria conhecidas, aliás, todas praticamente conhecidas, familiares, não sou capaz de nomeá-las, mas eram todas conhecidas, conhecidíssimas, lembro-me de "O Danúbio Azul" e dos "Contos dos Bosques de Viena".

Saindo de lá, fomos para uma taberna, para jantar. Ainda estávamos no inicio da excursão, gente desconhecida, o grupo ainda não se comunicava direito. A condução rodou, rodou, e parou numa taberna típica vienense, num bairro fora do centro.

Sentamos numa mesa junto com a doutora Nelma, a tal nossa companheira, agradável, boa de papo, uma pessoa muito entrosada, simpática, e útil nessas circunstâncias.

Sentaram também conosco mais três brasileiros que já haviam feito contatos com ela. Era um casal de velhos, acompanhados pelo filho. Ficamos sabendo que o homem tinha oitenta anos e a mulher setenta e sete. Ele parecia velho mesmo, mas a velha enganava, se dissesse que tinha menos a gente acreditava. Achei ela meio assanhadinha, gostava de contar piadas e, como costumam fazer alguns brasileiros no exterior, queria mostrar-se descontraída, puxar um canto, "Cidade Maravilhosa", "Óh! Minas Gerais, etc.", uma antipatia, mas felizmente não houve receptibilidade. O nome dela era Stela. O rapaz, depois fiquei sabendo, tinha trinta e nove anos, e escrevia crônicas. No princípio, achei esse pessoal meio esquisito, mas depois fui gostando, se revelaram muito animados. O jovem estava acompanhando os pais numa viagem para comemorar as Bodas de Ouro. O velho, uma graça, bem humorado, falava brincando, um intelectual, professor aposentado de Inglês, todavia continuava estudando, fazendo novos cursos, se atualizando, disse que andava estudando Alemão, Francês, Espanhol, etc., gostava de línguas. Era primo e amigo de Chico Anízio, e falava no Ceará, no Crato, em Maranguape. Trabalhava com computador e tinha um livro recém publicado "Informática na Terceira Idade". Impressionante para uma pessoa assim idosa! A velha também disse que escreveu ou estava escrevendo um livro sobre piadas. Não acreditei muito. Ela era prosa, contou uma piada picante sobre dois velhos, disse que a esposa reclamou para o marido, "mas meu bem, você não me procura mais", ao que o velho respondeu-lhe "mas também você não se esconde".


Li no cardápio que tinha entre outras coisas carne de "cerdo", imaginei que fosse um tipo de gamo, servo, e comi meio desconfiado, pensando "esse pessoal daqui come coisas diferentes", comi e gostei. Depois fui saber que cerdo em espanhol era porco, vivendo e aprendendo. A comida foi boa, a noite agradável, além do "cerdo", comi galinha, batata e uma salsicha deliciosa que fazem por aqui e bebi duas caneconas de vinho. De sobremesa torta de maçã. Mais o quê? Fomos para o hotel tranqüilos, sem problemas, o hotel era muito agradável. Estou aqui, tenho que acertar minhas contas e minhas confusões, porque vamos sair cedo, arrumar as malas. Mariazinha tomou comprimido e por enquanto ainda dorme.


Vila Velha, setembro de 2004

João Hertesi

 


 

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