Dos cavalos do seu Macedo



Segundo meu pai, que viveu a maior parte de sua vida na primeira metade do século XX, quando ainda não havia estradas no interior do estado, o burro era a montaria ideal para se andar nas regiões montanhosas do sul do Espírito Santo, onde eram muitas as serras, os vales, os precipícios, os buracos disfarçados, os barrancos traiçoeiros, e tantos outros entraves aos deslocamentos.

Segundo ainda ele, parece que os burros tinham sensibilidade. Mesmo nas caminhadas noturnas, raramente eram levados a algum desastre. Antes de firmar a pata, eles testavam o terreno e só depois davam o passo definitivo. Já os cavalos, eram irresponsáveis. Ai de quem se aventurasse a empreender uma viagem noturna, em noite sem lua, ou com tempo ruim, montado em um pangaré qualquer. Certamente terminava no fundo de um buraco, com pernas quebradas, do cavalo e do cavaleiro.

O certo, quem já viveu na roça sabe, é que, um híbrido, cria do cruzamento de égua com jumento, o burro herdou muitas características do pai. Ao contrário do cavalo, que obedece cegamente ao cavaleiro, o burro só é dócil até certo ponto. Quando não quer, certas coisas ele não faz, nem matando-o. Por isso, eles eram pouco usados como montaria, e muito usados nas tropas para buscar café‚ nos altos dos morros, atravessando as trilhas mais perigosas.

Quanto aos jumentos, muito comuns no nordeste, onde são conhecidos como jegues, ou burricos, em nossa região eram raros e somente utilizados como reprodutores, pois não se adaptavam aos serviços das fazendas de café.

Mas, deixando de lado os muares, por enquanto, vamos a outro assunto.
Recentemente, relendo um folheto, "Uma Mensagem a Garcia", que trata de um célebre artigo de Elbert Hubbard, publicado no início do século XX, na revista americana "Philistine", lembrei-me de uma conversa que tive com um amigo.

Esse amigo, como eu, também vivia envolvido na árdua tarefa de chefiar homens, lutando para conseguir deles um melhor desempenho.

No célebre artigo, Hubbard faz uma apologia a um herói anônimo, .àquelas pessoas trabalhadoras e cheias de expedientes que, ao receberem uma tarefa, partem para executá-la o mais rápido possível, com boa vontade, cheias de entusiasmo, sem questionamentos, sem perguntas, sem colocarem nenhum obstáculo. E, na maior parte das vezes, somente retornam ao chefe com o problema resolvido, com a missão cumprida.

Estas pessoas, segundo o articulista, são as que fazem as coisas andar, são as molas mestras do mundo. São elas que, às vezes no anonimato, recebendo remuneração abaixo da merecida, resolvem a maior parte dos problemas e são, de fato, os grandes responsáveis pelo sucesso da maioria dos empreendimentos.

Para tais pessoas, esses empregados, esses funcionários, o chefe, quando inteligente e correto, deveria dedicar todo carinho, dar todas as regalias. Para os indolentes e os incompetentes, somente deveria ser concedido o que manda a Lei, e se possível, nem isso.

O meu amigo, na época, a propósito desse tema, contou-me um caso de seu velho pai, o seu Macedo, homem simples, de poucas letras, que vivia no interior do Rio Grande do Norte.

Ele e o pai estavam picando cana para dar aos cavalos, dois bonitos alazões, gordos, lustrosos, bem tratados, quando o burrico, o jegue nordestino que trouxera o molho de cana da roça, tentou abocanhar um pedaço. Seu Macedo levantou-se e, de pronto, deu um chute no focinho do jegue, espantando-o.

O rapaz protestou:

- Papai, que injustiça! O pobre do bicho está suado, trouxe a cana de longe, às costas, e o senhor não deixa que ele coma nem um pedacinho? Olhe só para os cavalos, estão gordos, frescos, bonitos, fogosos!

Ao que seu Macedo retrucou:

- Meu filho, aprenda uma coisa. Estás vendo aquela cerca e aquele córrego?

- Se eu montar num desses cavalos e quiser, eles pulam a cerca, saltam o córrego, se estrepam, morrem, mas fazem o que eu quero. Já este jegue danado, você viu o trabalhão que nos deu para trazer um simples molho de cana! Lerdo, pesado, difícil, não posso contar com ele para quase nada, principalmente nos momentos mais importantes. Por isso, não merece a cana, que coma apenas capim!

Estive pensando depois, meditando sobre o caso, e concluí que, no meu caminho, pela vida afora, tenho encontrado alguns cavalos marchadores, velozes, excelentes, capaz de saltarem cercas e córregos; e alguns burros bons de cela; mas também muitos jegues ruins de serviço.

Muitas pessoas que me lembram mais o burrico nordestino. Que, entretanto, infelizmente, como nem sempre valem os juízos de seu Macedo, às vezes costumam receber ótimas rações.


Vila Velha, agosto de 2004
H. Teixeira de Siqueira

 


 

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