O PRIMEIRO ENCONTRO COM A MORTE


    
Plantado ao pé de uma das serras que formam o vale do Jacá, está situado o Sitio de Baixo. Casa modesta pintada de branco, cercada de bananeiras, do curral e da seva dos porcos. Bica d'água no fundo do quintal que se desliza do pequeno trecho de capoeira. É manhã, 6 horas, em dia de primavera. Manhã muito clara, céu muito azul, salpicado de montículos de nuvens branquinhas... A várzea é verde e espraia-se pela estrada, ou pequeno trilho, única via de acesso ao sitio.

Saímos, Joãozinho e eu, depois de despertados, sonolentos, por papai, que, enérgico reclamava o avançado da hora. Impaciente ele dizia:

- Vão meninos, mais depressa, não precisam tomar café. Vão mais ligeiros, porque preciso tirar o leite e voltar para o trabalho.

Preguiçosos, bocejando e espreguiçando, caminhamos com má vontade, pasto adentro.

- Ôa já, já... eram as palavras de meu irmão ao entrar no mato. Fiquei atrás, olhos abertos à paisagem da manhã, narinas sorvendo o cheiro do mato fresco. Parava para sentir a brisa e encantava-me com as teias de aranha a brilharem aos raios do sol, no pisca-pisca prateado do sereno sobre as folhas.

Os pássaros saltitavam cantando, bem-te-vis assustados davam conta de nossas presenças. Bichinhos como preás e coelhos corriam céleres.

Entramos no mato, tocando as vacas esparsas pelo pasto. Faltava uma, a Fortaleza, melhor vaca leiteira de papai. (cinco litros de leite!) Dizia mamãe entusiasmada, quando assistia às ordenhas!

Gritos, chamados pelo nome, andando de um para outro lado, nada encontramos. De repente, Joãozinho se lembra de irmos até à palhada de feijão que papai estava fazendo. Para lá nos dirigimos. Avistamos a palhada! Campo limpo, muito limpo e passamos a examiná-lo.

- Oh! Que é isso? Disse assustado o meu irmão.
- Tem uma coisa ali, vamos ver o que é Joãozinho?

Que tamanha surpresa! Estava estirada, de pernas para o alto, barriga muito grande, a coitada da Fortaleza, momento em que exclamou Joãozinho:

- Que é isso, meu Deus, a melhor vaca do papai!

Meu irmão, com mais senso prático do que eu, com seus seis anos e eu, com apenas cinco, começamos a indagar de ninguém o que teria acontecido. Ao que ele mesmo respondeu, categórico:

- Foi mordida de cobra. Já sei. Tem muita jararaca por aqui. Nesse momento, parei ao lado da vaca, e comecei a tomar conhecimento do fato:

- Joãozinho, que é morte? Você disse que ela está morta? Ele impaciente disse:

- Quando tudo fica parado. Quando a gente não anda não fala e fica sem mexer. Sabia disso por causa da morte dos bezerros.

Continuei analisando, procurando entender a morte. Tudo quieto, a vaca permanece dura, de pernas para o ar, o úbero cheio, esguinchando leite, que era a única coisa que se movia nela. Olhei instintivamente para o céu, querendo compreender a difícil presença da morte.

Silêncio, às vezes interrompido pelo pio agourento de uma coruja, ou pelo zumbido das moscas azuis que já perseguiam o cadáver. O vento soprava e o céu continuava de um azul suave, enfeitado com rendado de pedacinhos de nuvens. Mais silêncio, mais brisa que balançava as árvores. O cheiro forte de terra fresca e de flores silvestres.

Pensei, procurei sentir na pele, no ar, no céu e no verde das árvores a explicação para o segredo da morte. Senti-me feliz, serena, diante do quadro. Respirei forte e achei graça na morte, achei que morrer era bonito, calmo e misterioso; tive boa convivência com a morte, nesse ambiente de ternura, que despertou em mim um sentimento inexplicável de fé e de poesia.

Nádia Teixeira de Rezende

Extraído do livro "UMA VIDA MUITAS HISTÓRIAS" de Nádia Teixeira de Rezende

 

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