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A
gente aprende na escola que deve falar corretamente a língua
portuguesa, que é um idioma muito rico e bonito e coisa
e tal. Mas se o povo fala errado, muitas vezes é porque
está falando algum dialeto regional.
Como
é bonito ouvir uma conversa de povo da roça, conversa
cantada, sílabas trocadas. O falar errado muitas vezes
é poético. O falar corretamente, muitas vezes pode
parecer incompreensível.
Para
ilustrar esta crônica, ouso pedir licença para tomar
emprestados estes versos do poeta nordestino Patativa do Assaré:
"
O POETA DA ROÇA
Sou fio das mata, cantô da mão grossa,
Trabáio na roça, de inverno e de estio.
A minha chupana é tapada de barro,
Só fumo cigarro de páia de mío.
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestré, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola,
Cantando, pachola, à percura de amô.
Não tenho sabença, pois nunca estudei,
Apenas eu sei o meu nome assiná.
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre,
E o fio do pobre não pode estudá.
Meu verso rastêro, singelo e sem graça,
Não entra na praça, no rico salão,
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão.
Só canto o buliço da vida apertada,
Da lida pesada, das roça e dos eito.
E às vez, recordando a feliz mocidade,
Canto uma sodade que mora em meu peito.
Eu canto o cabôco com suas caçada,
Nas noite assombrada que tudo apavora,
Por dentro da mata, com tanta corage
Topando as visage chamada caipora.
Eu canto o vaquêro vestido de côro,
Brigando com o tôro no mato fechado,
Que pega na ponta do brabo novio,
Ganhando lugio do dono do gado.
Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.
E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade,
Cantando as verdade das coisa do Norte."
Que
coisa linda, não? Bem diferente de versos como os de Fernando
Pessoa, Drumond, Manuel Bandeira, entre outros, e nem por isso
menos poético. Certamente compreensível por todos,
embora com palavras atrofiadas, amputadas, modificadas por terem
sido escritas como se fala. Muitas vezes falamos dessa maneira
considerada errada, mas sabemos exatamente como se escreve corretamente.
Admiro
muito o Maurício de Souza, criador de personagens como
a Mônica , o Cebolinha, o Cascão, o Bidu, entre outros
tantos, mas o personagem criado por ele que mais admiro é
o Chico Bento, pelas istórias vividas por ele, pelo ambiente
de roça, pela bicharada que o cerca e, principalmente,
pelo falar errado.
A
lingua portuguesa é tão rica, que podemos falar
certo, errado, cantado, declamado, gritado, sussurrado, que será
entendida. Acho que isso não ocorre em outros idiomas.
Fico pensando em que lingua poderíamos falar palavras diferentes
querendo dizer a mesma coisa? Exemplos:
Causdiquê
ocê num foi trabaiá antonti? Traduzindo: Porque você
não foi trabalhar anteontem? Acho que nem precisava traduzir...
Mas
na cidade grande também se fala errado. E também
se compreende tudo que se fala de certo e de errado. Eu mesmo
junto de minha família, gosto de falar do jeito do povo
da roça, que além de gostoso, é engraçado.
Mas
eu não estou aqui fazendo apologia aos erros de concordância
nem à má gramática. Estudantes: aprendam
a falar e escrever corretamente, pois se quiseram falar errado
um dia, que seja uma opção, como acontece comigo.
Vô
terminano pur aqui, qui sinão vô cumeçar a
contar istórias da carochinha, mais isso eu vô deixá
pru meu amigo Fefeu contá, qui ele sabi mais qui eu.
Aliás
ele fala tanto erradamente, quanto corretamente com aquelas palavras
de difícil entendimento.
Vai
Fefeu, a bola é sua.
Niteroi,
agosto de 2004.
Antonio Claudio Medina de Almeida
amedina@nitnet.com.br

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