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Numa casa da rua onde eu morava, em minha pequenina Calçado,
havia um tuberculoso que era músico e se enquadrava no
perfil de poetas e boêmios que justificavam a doença
naquela época dos meus idos da infância. Era magro
e comprido feito um pedaço de bambu. Tinha feições
finas e longos cabelos negros. Mesmo por baixo da palidez de sua
pele, dava para ver que tinha sido um rapaz bonito antes da doença.
E eram raras as vezes em que eu passava por sua casa e ele não
estivesse tocando flauta, aproveitando a claridade da janela para
ler as partituras dependuradas num cavalete.
Diziam
que seu caso tinha se agravado depois que os pais de sua namorada,
que era de "boa família", fez com que ela fosse
estudar no Rio de Janeiro, para que se afastasse dele, que além
de não ser um "bom partido", era boêmio
e também tinha contraído a tal "doença",
uma epidemia que dizimou gerações inteiras de jovens
da primeira metade do Século XX. Numa conspiração
própria da sociedade da época, até as cartas
dela, endereçadas a ele, eram interceptadas para que não
tivessem respostas e, com o tempo, se esquecesse do pobre rapaz.
Foram meses de separação, sem que um tivesse qualquer
notícia do outro. Ela escrevendo longas e apaixonadas cartas
e ele, tocando sua flauta em silêncio, em casa ou sentado
nos bancos da praça, que era cercada de casarões
antigos. Depois, veio a vida boêmia, sempre solicitado para
tocar em serenatas de amigos, que aos poucos lhe tirava o sopro
que ainda o mantinha vivo. As noites de lua cheia foram testemunhas
silenciosas de sua longa e triste caminhada em direção
ao fim melancólico que a doença destinava aos que
a contraísse.
Todos
assistiram em silêncio aqueles meses de sua resignada espera,
ouvindo as mentiras que lhes contavam da tal moça vivendo
na capital. Alguns até arriscavam hipóteses da moça
já ter se casado com outro. Dele nunca se ouviu uma única
reclamação pela ausência da namorada e, apesar
da doença, mantinha sempre um sorriso misterioso nos lábios
e nos olhos fundos de poeta. Era uma felicidade que ninguém
conseguia entender, uma renúncia e um segredo só
dele. Ou só "deles" ... quem sabe? Enquanto isso,
apenas os efeitos da tuberculose sobre seu corpo denunciavam seu
caminho sem volta.
Algumas pessoas ainda se lembram do início daquela dolorida
história de amor, que povoou o imaginário das ruas
e praças de minha pequenina cidade e que, nos primeiros
meses, foi até tolerada pela família dela com uma
certa benevolência. A moça, além de bonita,
transbordava simpatia. Qualquer ambiente que freqüentasse,
fosse nos bailes oficiais da cidade ou nas domingueiras e saraus
dos velhos casarões, onde se respirava o romantismo das
noites ainda sem a tirania das televisões, sua presença
era sempre bem recebida e aclamada pelos pretendentes.
E
foi num desses saraus que se conheceram, no grupo de músicos
e artistas que animavam a festa, entremeada de números
teatrais e um animado baile no fim da noite. Ela, declamando poemas
de amor e ele fazendo um leve acompanhamento de flauta, num acasalamento
perfeito e harmonioso. Viraram um par constante desses encontros,
nos bailes e nas apresentações artísticas.
E aos pouco se apaixonaram, como duas almas gêmeas que se
completavam na poesia, na música e na vida real. Foi então
que veio a proibição da família dela, por
motivos nunca explicados.
A casa onde esse músico morava era caminho obrigatório
para o sítio de um tio aonde eu ia todas os dias pegar
o leite para o café da manhã de minha família.
Como eu nunca tive pressa em chegar a lugar nenhum, além
de vir me distraindo em olhar os passarinhos nas árvores,
na volta parava sempre em frente a sua casa quando já estava
ensaiando. E aos poucos aquela parada obrigatória se tornou
uma rotina, talvez mais para ele, tão solitário
ficava em casa, do que para mim. E sem saber me tornei seu público
silencioso e cativo de todos os dias.
E com o tempo o pobre músico passou a tocar cada vez mais
baixo seu pequeno instrumento, como se a força de seu sopro
estivesse acabando aos poucos. Também foi ficando mais
e mais silencioso e triste, como se ficasse cada vez mais remota
a possibilidade de rever a moça. Dava para sentir isso
nas vezes em que eu o assistia tocando sua flauta, com o olhar
perdido no nada e como se nem ouvisse seus próprios acordes.
Nunca soube o seu nome ou o nome de seus pais. Sabia apenas que
era "tuberculoso", o que me aconselhava manter distância
até de sua casa.
Depois
ele sumiu e nunca mais o vi na janela, nem ouvi os acordes de
sua flauta. Nem me lembro ter visto seu enterro. A tal moça,
por um mistério do destino, também contraiu a doença
no Rio de Janeiro, onde era grande o foco de tuberculose. Dela
eu assisti o enterro, saindo de um casarão da praça
onde morava sua família. Sabendo em segredo da história
deles, senti pena dos dois, e na minha fantasia, leitor cativo
das histórias de grandes amores, parecia ouvir o som de
sua flauta acompanhando o cortejo atravessando a praça
a caminho do cemitério. Coisas de criança ... tenho
certeza.
Pedro
Teixeira
pedroteixeira.online@bol.com.br

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