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Do Colégio de Calçado, apesar das boas lembranças
que sempre disse ter, 33 anos depois já não precisava
mentir. Mesmo porque me mudei de Calçado antes do exame
de admissão. Mas nunca tive nada contra ele, pelo contrário,
sempre tive o maior orgulho pelo resto de minha vida afora. Mas
sua presença me trazia lembranças de coisas tristes
do tempo em que meus irmãos mais velhos estudavam lá.
Francisco foi o último e eu seria o próximo se não
me mudasse. Os tempos eram muito difíceis e uma família
de 12 filhos, com um pai operário e uma mãe costureira,
não podia ser exceção, morando numa cidade
pobre e com um único colégio particular disponível.
Foi preciso muito jogo de cintura do seu Zé e dona Conceição,
para dar o diploma de curso ginasial e de professora aos cinco
filhos mais velhos.
O Colégio de Calçado foi o grande trunfo do grupo
político "dos Vieira", do Dr. Pedro Vieira e
Dr. Aristides, para que a sede do município e da comarca
não fossem transferidas para o distrito de Bom Jesus do
Norte. Depois da Revolução de 30, o grupo político
dos "Lobo", do Dr. Astolpho e do Filim Tibô, com
grande liderança em São Benedito, tinha naquele
distrito seu grande foco de resistência. Além do
fato de ser ali, o terminal da estrada de ferro que fazia conexão
com a estação de Santo Eduardo, através da
estação de Ponte do Itabapoana. Assim, em 1938,
um grupo liderado pelo Dr. Pedro Vieira levou adiante a construção
do primeiro colégio de curso secundário de Calçado.
E no ano seguinte, 1939, enquanto se construía sua sede
na parte alta da cidade, ele funcionou com um curso de admissão,
no Colégio São Sebastião, um antigo estabelecimento
particular de ensino primário, localizado onde é
hoje a pracinha do Banestes. A duras penas Dr. Pedro Vieira levou
adiante sua construção, pelas dificuldades naturais
da época e, principalmente, pela oposição
que fazia ao grupo que comandava a política no município.
Mesmo assim, em março de 1939, tendo como diretora sua
esposa, a professora Mercês Garcia Vieira, o Colégio
de Calçado começou com a primeira turma de curso
ginasial. Depois, com outros cursos de segundo grau, inclusive
o magistério, transformou-se numa escola modelo e referência
de ensino particular em todo o sul capixaba.
Para o Zé de Almeida, que era primo de meu pai e que chegou
a diretor do Banco Central e presidente do Banestes, os tempos
também não eram fáceis. Depois de passar
brilhantemente no exame de admissão da primeira turma do
colégio, ficou na iminência de não poder estudar
por falta de dinheiro do pai, que era um pequeno proprietário
na serra do Jaspe. Mas para ele dona Mercês achou uma solução,
que só engrandeceu o seu currículo pelo resto da
vida. Passou todo o seu período escolar carimbando cadernetas
como chefe de disciplina. Zé de Almeida também jamais
entregou os pontos, e com o diploma do segunda grau no bolso,
fez exame para o Banco do Brasil e foi um dos primeiros colocados.
Ele tinha o sangue daqueles pioneiros das grimpas do Jaspe.
Outro conterrâneo famoso, que chegou a governador do Estado,
o Christiano Dias Lopes Filho, apesar da severidade que pautou
sua vida adulta de político, parece que não se adaptou
à disciplina draconiana do colégio. Coisas da juventude.
Dizem que ele foi expulso e teve de terminar o curso secundário
num outro colégio fora de Calçado. Outro conterrâneo
famoso, José Carlos Fonseca, que foi deputado, vice-governador
e ministro do Tribunal Superior do Trabalho, em Brasília,
deu um jeito de continuar os estudos em Cachoeiro. Depois foi
ser jornalista em Vitória onde foi cronista em vários
jornais. Luiz Borges de Mendonça, que também passou
pelo Colégio de Calçado, entrou no Banestes como
contínuo e terminou como presidente do banco. Eu é
que não dei pra nada.
Graças ao Pedro Vieira, meu pai tinha conseguido uma bolsa
de estudos que teria de ser dividida entre os cinco filhos mais
velhos. A bolsa era repassada pela prefeitura, que não
abria mão de beneficiar apenas uma pessoa de cada família.
E o que fazer dos outros quatro? Sônia, a mais velha foi
na frente, matriculando-se em 1944 e o Agostinho entrou na base
do fiado (que só Deus sabe a que preço), quando
chegou sua vez. A Delane ficou aguardando a vaga, que parecia
nunca chegar, por três longos anos. Não havia como
fiar para dois. Felizmente a Sônia era boa aluna e não
repetiu nenhum ano. Mas foi um sufoco para a Delane, esperar tanto
tempo sem estudar, principalmente numa cidade sem nenhum opção
de lazer, pois nem rádio se tinha na época. Mas
o pior era o vexame para uma mocinha tão bonita ficar sem
estudar.
Ao terminar o primário no Grupo Escolar Manoel Franco,
ela foi para Bom Jesus cursar a quinta série para não
perder tempo e enquanto aguardava a vaga. Depois voltou para Calçado
e continuou esperando a vez, que finalmente chegou. Dona Mercês
mandou avisar a minha mãe e no final do ano de 1949, lá
foi ela prestar o exame de admissão ao ginásio.
Dona Mercês deve ter tido um pouco de remorso, quando ela
foi a primeira colocada da turma daquele ano, só não
tirando dez em uma única matéria, em que perdeu
meio ponto por uma distração qualquer. Estava ali
uma aluna fora de série, o que continuou sendo por todo
os 6 anos em que estudou no colégio, e que perdera 3 anos
de sua vida escolar.
Também a Terezinha, irmã de minha mãe, e
tia Nilda, irmã de meu pai, por dois anos ficaram lá
em casa enquanto cursavam o Normal. Pena que elas, tão
logo terminaram o curso, voltaram para casa e não tiveram
tempo de tirar uma "foto oficial" nem participar do
baile de formatura. Outra que também ficou morando uns
tempos lá em casa, enquanto terminava o curso, foi a Guiomar,
cujos pais moravam em Santo Eduardo. Dela eu só me lembro
do fato de ser baixinha e bem morena. A casa da dona Conceição
até parecia um internato, o que lhe dava o maior prazer
do mundo, principalmente quando se tratava de sobrinhos e de irmãos.
E assim ela continuou acolhendo-os, mesmo depois de já
estar morando no Rio de Janeiro.
Mas minha irmã Maria também precisava estudar. E
como? Meu pai não abria mão de suas convicções,
que nem sempre agradavam ao grupo político local. Em 1950,
por exemplo, ele era um dos poucos getulistas da cidade. Não
duvido que teria sido o único se preciso fosse. Toda a
oligarquia, que por 15 anos engolira o velho ditador e seus simpatizantes
em Calçado, estava armada até os dentes. Getúlio
venceu as eleições e ele ganhou a única aposta
que fez na vida: 20 mil cruzeiros de vários anti-getulistas
contra nada dele. O velho ditador ganhou em todos os municípios
brasileiros e só perdeu em Calçado. E aquele grupo
de apostadores perdeu com a maior satisfação do
mundo. Não tinha jeito, acho que o velho Zé ocupava
o dobro do espaço a que tinha direito.
Sua admiração pelo velho ditador não tinha
limites e quando foi inaugurada a Siderúrgica de Volta
Redonda, a CSN, ele escreveu-lhe uma carta e junto mandou uma
foto da família. O portador foi o Agostinho, que acabou
não tendo oportunidade de entregar-lhe e o assunto caiu
no esquecimento. Por coincidência, esse irmão passou
uma boa parte de sua vida trabalhando no departamento jurídico
daquela siderúrgica, de onde se aposentou recentemente.
Dessa foto eu me lembro, pois foi a primeira que tirei na vida,
com todos os irmãos nos degraus da porta de nossa velha
casa na rua Nova.
Mas, e agora, como enfrentar aqueles que distribuíam bolsas,
para não deixar uma filha sem estudar? Se ele não
podia resolver a questão, dona Conceição
foi a bola da vez. Colocou seu vestido de seda cor de rosa, jogou
o velho xale nos ombros, o que lhe aumentava a majestade, e foi
até à casa da dona Mercês. Fazer a velha costureira
deixar a máquina singer, em hora de expediente, era uma
honra imperial para quem recebesse a visita. Não se sabe
o que conversaram, mas ela saiu do velho prédio de dois
andares caiado com pó de pedra, ainda mais séria
do que quando entrou. Voltou para as costuras e quando meu pai
lhe perguntou o que tinha ido fazer na casa da diretora, ela apenas
travou a máquina, abaixou os óculos e respondeu:
"nossa filha Maria vai estudar no ano que vem!" ...
E voltou ao trabalho.
Finalmente as duas primeiras formaturas: da Sônia, no curso
normal e do Agostinho, que terminava o curso ginasial. O que no
final da década de l940 significaria hoje, ter dois filhos
diplomados por uma universidade da Inglaterra. A Sônia era
a alegria premiada de dona Conceição. O Agostinho,
apesar da alegria, lhe trazia uma certa tristeza no olhar. Há
muito ele vinha falando em ir embora de Calçado, para trabalhar
e continuar os estudos no Rio de Janeiro. "Papai Pedro",
meu avô que morava em Bom Jesus do Itabapoana, já
resolvera se mudar com os filhos e as filhas solteiras para o
Rio. Tio Totônio já estava lá com toda a filharada,
o que, pelo menos, melhorava a situação, já
que ele não estaria sozinho numa terra desconhecida.
Mas a hora era de alegria e mamãe acabou deixando o problema
do Agostinho para pensar depois. E como alegria, às vezes,
é a ante-sala da tristeza, não deu outra coisa.
Costurar não era problema, mas e o tecido e os aviamentos
para fazer o vestido de formatura da Sônia? Com tantas bocas
para comer, não sobrava o suficiente para comprar um botão.
O terno do Agostinho já estava resolvido, pois papai tinha
feito um trato com o alfaiate Pedro Mendonça, para que
ele fiasse o tecido e o corte por algum tempo. Mas, e a Sônia?
Silenciado o sorriso da vitória, lá se foi o sonho
de dona Conceição de ver a filha vestida de princesa
por uma noite, a filha mais velha reinando entre os escombros
de tantos sofrimentos. E que ela sabia, estavam apenas começando.
Restava o diploma, que lhe dava o direito de disputar uma vaga
de professora municipal e amenizar a sorte dos irmãos menores.
Mas, existiam naqueles tempos alguns homens que traziam mercadorias,
sob encomenda, da capital para o interior. Eram chamados de agentes
ou coisa assim, e viviam em pensões aguardando os pedidos.
Não tinham residência na cidade, mas se relacionavam
bem com as outras pessoas. Não eram como os mascates libaneses,
que percorriam as vilas e arraiais com seus burricos entulhados
de bugigangas. Até hoje não entendi porque eram
sempre solitários ou solteirões. Será que
eram mesmo, ou tinham famílias em outras cidades? E quando
passavam com seus jalecos brancos, por causa da poeira das estradas
e da fuligem das locomotivas, era porque estavam a caminho da
estação de trem de Bom Jesus do Norte, por onde
se chegava ao Rio de Janeiro.
Amador era um deles, moreno fechado e alto como um poste de luz
elétrica. Pelo menos ele era assim nas minhas lembranças.
Diziam também - os mais fofoqueiros - que era filho do
Padre Mello com uma negra de Bom Jesus. O fato é que não
se sabe como ele tomou conhecimento do drama da Sônia e,
um dia, apareceu lá em casa dizendo que lhe daria os tecidos
e os aviamentos de presente. E a alegria foi tão grande
que, na empolgação do momento, minha irmã
se esqueceu de dar as medidas dos tecidos de que precisava. Pobre
Sônia, sofreu quase um mês esperando a chegada dos
tecidos e rezando para que tudo desse certo. E tudo deu certo...
Amador, que nunca mais eu soube dele, foi seu anjo da guarda de
plantão e ela nem sabia. E a Sônia e o Agostinho
foram para o baile de formatura tão sonhado.
E no grande baile do Colégio de Calçado daquele
ano, alunos e alunas circulavam no grande salão na noite
da formatura. Dona Mercês, com toda a sua majestade, ao
lado do Dr. Pedro Vieira em traje de gala. Como séquito,
os professores e funcionários do colégio. Parecia
a nobreza em dia de festa. No salão, dançavam os
súditos. Eram os rapazes, com seus ternos cheirando à
oficina alfaiate, e as moças, reluzindo no brilho dos tafetás
e das saias godê, cuidadosamente armadas sobre a abundância
das anáguas engomadas. Todos rodopiando e se revezando
de pares, ao som das melodias que vinham da orquestra montada
no palco. Depois, o clímax da festa, com a dança
dos formandos e seus padrinhos, ao som das valsas de Strauss.
Tudo era encantamento enquanto a festa durasse. Todos eram príncipes
e princesas, pelo menos por uma noite.
Lá embaixo, na rua Nova, dona Conceição de
vez em quando travava a máquina e ouvia o som da festa,
que vinha pelo silêncio da noite através da janela
aberta. Meu pai com seu velho e surrado terno cinza escuro, fazia
as honras da família na formatura dos dois filhos. O passado
de neto do coronel Sebastião José de Almeida e do
José Venâncio de Almeida Ramos, o antigo dono dos
mil alqueires da Serra do Sacramento, aprumava sua cabeça
como um esteio de cabiúna. A vida apertada pelos doze filhos
para criar jamais abateu seu orgulho. Pelo contrário, sempre
autodidata, logo desmontou uma velha geladeira que Pedro Vieira
lhe dera e já era um mestre em refrigeração,
profissão que teve no Rio de Janeiro até um ano
antes de sua morte.
E eu, deitado na penumbra de uma cama ao lado da máquina,
observava as coisas ao meu redor, tentando entender os mistérios
da vida. Também escutava curioso os sons do baile da formatura.
Mas dava para ver que ela não se sentia, necessariamente,
uma gata borralheira. Isto jamais estaria lhe passando pela cabeça.
Ela se sentia, sim, como a rainha mãe ou a abelha mestra,
ciosa de suas responsabilidades. Ou, quem sabe, saboreando a vitória
do dever cumprido e sonhando com a formatura dos outros filhos?
O problema do Agostinho, que já ensaiava as asas para vôos
bem mais altos que as pobres montanhas de Calçado, ficaria
para o dia seguinte. Por enquanto, era preciso sobreviver. E os
anjos sabiam disso.
Ah, dona Conceição, dona Conceição,
sempre costurando sonhos enquanto costurava roupas e sacos de
café. Em cada travada da máquina, quando apoiava
o queixo numa das mãos, seus pensamentos voavam longe.
Era quando seus olhos vagavam sem timoneiro por um mundo de sonhos,
a que esperava chegar um dia, rodeada pelos filhos doutores e
professores. Quem sabe? Quem garantia não ser dado a ela
também o direito de ver seus sonhos realizados? Eu senti
bem de perto essas recaídas no meio de um monte de costuras
ainda por terminar. Mas ela logo retomava o fôlego e voltava
à superfície ainda mais vitaminada. Eu também
sonhei seus sonhos e fantasias, tentando enganar a fome e sobreviver
em meio a tanta miséria. E só a vi sucumbir aos
revertérios da vida, nos ciúmes que sentia pelo
velho Zé, que ocupava o dobro do espaço a que tinha
direito.
De noite, encerrado o estafante trabalho diário, cercada
na cama pelos filhos menores como uma galinha choca, enchia minha
cabeça de esperança de dias melhores. Se faltava
o pão, daria-se um jeito, dizia ela. E aí contava
a história da moça da roça, com uma jarra
de leite para vender na cidade. Com o dinheiro da venda, pretendia
comprar uma dúzia de ovos, que chocados se reverteriam
numa ninhada de pintos, até formar um grande galinheiro.
E com parte da venda dessas galinhas, compraria uma porquinha,
tiraria suas crias, engordaria e venderia algumas para comprar
uma vaquinha. E assim por diante, até formar uma grande
fazenda. Ela só não contava o resto da fábula,
que falava do leite derramado e a volta da pobre moça ao
miserê. Esse detalhe guardava só para ela. Grande
dona Conceição! ...
Pedro
Teixeira
pedroteixeira.online@bol.com.br

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