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Num desses cochilos que damos antes de acordar totalmente, sonhei
com meu irmão Sebastião, de quem gostava muito e
era companheiro das sessões dos cinemas Santa Alice e Real,
no Rio de Janeiro, logo que lá chegamos. E tínhamos
também um hábito em comum: o de fazer xixi na cama,
mesmo já bem grandinhos. Papai dizia que era medo de alguma
coisa ou preguiça para levantar da cama, e que ele também
teve esse mesmo hábito em sua infância na fazenda
da serra do Sacramento. "Não se preocupe não,
Conceição, quando a gente menos esperar, esse medo,
ou essa preguiça, passam. É como vomitar quando
se anda de ônibus pela primeira vez: tudo de fundo psicológico".
Meu irmão Sebastião sonhava muito, desde muito cedo
e foi uma das pessoas mais decentes que eu conheci nesse mundo
de Deus. E disso são testemunhas todos os meus irmãos
e amigos que deixou por aqui. Por coincidência, tínhamos
três filmes em comum, dos quais falávamos sempre.
O "Verão de 42", sobre dois jovens adolescentes
na década de 40, "Dois destinos", sobre dois
irmãos (um deles com câncer terminal e o outro jornalista,
que sempre o visitava no hospital), e um outro filme de ficção
científica, de que não me lembro mais o nome, em
que as pessoas que iam morrer tinham o direito de assistir numa
tela de cinema tudo aquilo que gostavam em vida. Eram os nossos
filmes favoritos, que vimos juntos várias vezes.
Quando o visitei pela última vez, na véspera de
sua morte, já passava da meia-noite. Eu morava numa quitinete
no aterro do Flamengo e, não sei por quê, à
meia-noite me deu uma agonia em querer visitá-lo que não
conseguia controlar. Quando dei por mim, já estava num
ônibus a caminho da casa de saúde onde ele estava
internado, num bairro distante da zona norte. Naquela hora da
noite quase não circulavam ônibus e me lembro de
ter embarcado em uns três, até chegar ao local. E
nem passou pela minha cabeça que deveria ser proibido entrar
na casa de saúde àquela hora. Até hoje nunca
entendi direito aquela minha atitude, aquela minha estranha compulsão
em chegar até ele.
Mesmo assim, bati na porta e uma enfermeira me atendeu sonolenta.
Era uma noite muito fria e nem a gola do agasalho levantada me
aquecia. Estava doido para entrar logo no prédio. E só
me lembro de ter dito a ela que queria ver o doente tal, no quarto
tal, nada mais. Não atinava para o que estava acontecendo
e agia como se estivesse em transe. Ao que ela me respondeu, "pois
não doutor", abrindo a porta e me apontando a direção.
Não me importei com o "doutor", achando que fosse
apenas uma forma cordial de tratar os familiares dos pacientes.
Já tinha estado lá outras vezes e logo encontrei
seu quarto, quase nos fundos da casa de saúde.
Ele estava acordado e ficou satisfeito com a visita. E assim ficamos
conversando, sentados numa ante-sala do quarto. Depois, a Vânia,
sua esposa, acordou assustada por eu estar ali tão tarde
e, principalmente, por ele ter se levantado da cama, levando todos
aqueles tubos amarrados num cabide. "E o meu irmão
não pode me visitar na hora em que ele quiser? Não
se preocupe, eu estou bem". Foi tudo o que ele disse e ela
voltou a dormir no quarto, na cama de acompanhante. Depois de
muita conversa, ele sentiu-se cansado e me pediu para ajudá-lo
a voltar para sua cama. O tempo todo falamos do livro que estava
escrevendo sobre nossa infância em Calçado, "Debruçado
na ponte do ribeirão", que era seu assunto preferido,
e que, em muitas coisas me ajudou com suas reminiscências.
Dava para ver o brilho em seus olhos.
E já acomodado, sedado pelos remédios, segurou minha
mão e pediu que eu continuasse a falar do livro, mesmo
que começasse a dormir. E assim fiz por mais algum tempo,
até que ele adormeceu de vez, aparentando estar em paz
e sem dor. Olhando para seu rosto adormecido, só então
me dei conta da coincidência de gostarmos, principalmente,
daqueles três filmes. É claro, os dois adolescentes
da década de 40 éramos nós. O irmão
com câncer do outro filme, era ele e eu, o irmão
jornalista que o visitava no hospital. Só faltava a tal
tela do último filme, em que os doentes assistiam a tudo
que gostavam em vida. Mas acredito que ele, de olhos fechados
e ainda sem dormir, assistia ao último filme de sua vida,
criando as imagens para aquilo que eu ia falando. Ou quem sabe,
pensasse apenas naqueles três filmes de que tanto gostava.
Já estava de saída, quando entrou no quarto o médico
de plantão naquela noite e a tal enfermeira que me abriu
a porta. Mesmo tentando falar baixo, a voz dele era de intimidação
para mim e, principalmente, para a pobre da enfermeira. A mim,
por ter quebrado a segurança da casa de saúde, e
a ela, por ter permitido minha entrada com tanta facilidade e
sem a sua permissão. "Um absurdo", gritava ele
já no corredor, ameaçando chamar a polícia.
Foi um custo convencê-lo de que era irmão do paciente
e a me deixar ir embora. A pobre da enfermeira, quase aos prantos,
só se defendia dizendo que me confundiu com um médico
conhecido. Tenho certeza de que não estava vestido de branco
naquela noite, mas de qualquer maneira, alguma coisa - ou alguém
- me ajudou a visitar meu irmão pela última vez.
Pedro
Teixeira
pedroteixeira.online@bol.com.br

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