Viagem maravilhosa a um centro de compras


    

Fui, certa vez, ao shopping center, num destes dias em que se está com febre de idéias. Tinha uma necessidade aguda de cores, sons, cheiros e todos os sinais que a beleza usurpa em suas delícias. Mais que dominado por um senso estético transcendental, estava mesmo é com desejo de toda aquela virtualidade que o shopping oferece.

No estacionamento, a falta de flanelinhas, a desconcertante coragem de deixar o carro em boas mãos. A fonte artificial da entrada era bem diferente dos chafarizes públicos: tinha transparente limpeza. As escadas não tinham pedintes, as vitrines eram tocáveis, os seguranças davam uma sutil impressão de que controlavam a luta de classes. Um dos maiores perigos que se corria lá dentro é o de prender a barra da calça na escada rolante. Não havia chiclete ou cocô de cachorro pelo chão, não havia postes depredados (escuridão não se via), não se ouvia as importunações de camelôs, os orelhões funcionavam, os chopes eram gelados, os sorvetes não derretiam, as atendentes sorriam, os banheiros cheiravam a clínica particular, os papéis para enxugar as mãos estavam lá, as músicas não ensurdeciam nem agrediam, os cafezinhos eram servidos em xícaras lavadas a vapor, não havia calor, não havia queda de energia, não havia chuva ou temporal, não havia greve, não havia arrastão, não havia manifestação popular ou protesto de tipo algum, não havia assalto ou seqüestro, não havia bêbado ou ambulante, não havia pastor ou cigana, não havia prostitutas, nem meninos de rua, nem trombadinhas, nem policiais, nem sinal vermelho, nem vestígio de dificuldade financeira. Nada disso havia no shopping center... Nem mesmo janelas para saber se chovia ou se fazia sol ou se já estava escuro.

Trata-se do simulacro de uma realidade pós-morte. Não se consegue perceber a diferença entre patrões e empregados: estão todos muito bem vestidos. O conflito social parece ser apaziguado dentro daquelas paredes. Dizem que é o "templo do capitalismo" em virtude do seu caráter sacro-econômico. De fato, sentimo-nos muito bem dentro do shopping. É como se houvesse ali uma força que nos recompensa por todo o trabalho da semana; uma força que nos provoca uma insaciável disposição de comprar, mesmo por um preço maior, como mérito do nosso esforço de avançar na escala social. Vamos até lá com a mera intenção de dar uma volta, e acabamos absorvidos pela sabedoria dos marketings, hipnotizados pela energia dos neóns.

O shopping é o lugar-comum do capitalismo contemporâneo. O que os jovens faziam antes na pracinha em frente à matriz, hoje o fazem no shopping center. O que buscavam nos centros comerciais e nos antigos cinemas, agora buscam e encontram no shopping center. Lá são realizadas as novas comemorações de aniversários, os encontros de pretendentes virtuais, as exposições de arte, os lançamentos de livros, as aparições dos artistas, as bebedeiras de sexta-feira, as despedidas de solteiro, as análises de preço e as pesquisas de opinião pública. O shopping center é a sociedade alternativa dos neoliberais. E ainda bem que não traduziram o nome da coisa: "centro de compras" não ia pegar...

É bom estar no meio daquela gente toda que se aglomera nos corredores do shopping. Ninguém se conhece, mas todos se sentem acolhidos por todos, desde que todos utilizem aparências comuns. Basta olhar para os lados, para cima ou para baixo e perceber como as pessoas bonitas parecem estar todas ali. Os feios também vão ao shopping (afinal de contas, o liberalismo econômico não vê cara nem coração...), mas ficam diluídos na belezura da geléia geral. Vê-se gordos e magros, altos e baixos, velhos e novos, negros e brancos, mas todos ao mesmo tempo parecem, num relance, clones da mesma matriz. O shopping center é um laboratório (fajuto, é bem verdade) do que seria a igualdade social.

Eu gosto de ir ao shopping center. Sinto-me vivo, sinto-me um cidadão do mundo, um incluído, um pós-moderno, um atualizado...

Depois de algumas horas - minuciosamente constatadas no cartãozinho do estacionamento - resolvi ir-me embora a fim de fazer algo de útil. Ao abrir a porta (eu sempre confundo "push" com "puxe"), dei de cara com algo que me atormentava: estamos nos trópicos! O calor se percebia nas mangas arregaçadas dos transeuntes do lado de fora, as buzinas dos automóveis e o empurra-empurra das pessoas afobadas me transportavam para um mundo do qual havia me esquecido: a realidade. Hesitei para decidir se estava mesmo preparado para o choque térmico e qualitativo. E fui para casa num ônibus mais coletivo que tudo no mundo, num daqueles em que a quantidade de habitantes por metro quadrado atropela os parâmetros. Enquanto minha pele ainda fria se misturava com os suores daqueles cidadãos que vinham de seus postos de trabalho, pus-me a pensar o quanto é perigosa e, ao mesmo tempo, maravilhosa a simples e estúpida experiência de ir passear no shopping center...

Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@hotmail.com


 

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