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Manhã de outono. Seis horas do
dia seis de abril de 1978. Sopro frio do vento. Macio perfume
exalado das flores. Tudo silêncio! Silêncio pesado
a cobrir a cidade adormecida ainda.
Montanhas silenciosas espreitam do alto o dia que acaba de
nascer. Voz nenhuma. Nem susurram, em seu baloiçar,
as árvores. Cães vadios passam cabisbaixos a
passos lentos, com presságios agourentos.
Uma voz calou-se. Morre Jair Melo! Ele deve guardar ainda,
em sua retina, esse pequeno cenário, testemunha de
suas alegrias, tristezas e de seus silêncios.
O barulho de um carro, na ladeira, faz tremer a quantos o
esperam na praça. A expectativa é geral.
É ele que acaba de chegar! Volta, para rever os amigos
e a cidade que tanto serviu e amou.
Luto de três dias. De luto os homens e a natureza calçadenses.
Sob os olhos tristes de toda a comunidade, Jair de Souza Melo
vê, de seu leito de morte, desfilarem os amigos, um
a um. Recebe as preces e o adeus de todos nós. Sereno,
está calado hoje, quem falou durante a vida, dando
testemunho do dever cumprido de maneira edificante.
Pioneiro da imprensa falada e escrita. Esteve presente em
todos os episódios do quotidiano da vida calçadense.
Às voltas com papéis, no plaque, plaque do maquinário
de impressão, conviveu com os nascimentos, casamentos,
notas oficiais, artigos políticos; sociais, religiosos
e esportivos. Reescreveu, por assim dizer, a história
de Calçado.
Manda aos ares, através da Difusora Calçadense,
além das noticias sociais, o carnaval, as músicas
de seresta, sambas e valsas dolentes, como também as
mortes.
Foi fiel à sua própria consciência, guardando
sempre os mais nobres principios de ética profissional.
E agora parte, deixando-nos tristes e um vazio imenso em nosso
meio.
Continua de luto o jornal a "Ordem"! Calada a Difusora
Calçadense. Há murmúrio de preces em
todos os corações. Em nossa alma, o canto mudo
da saudade. Ninguém consegue contestar o veredicto
inexorável da morte.
Descanse em paz, querido mestre, Jair Melo.
Nádia Teixeira de Rezende
Abril de 1978

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