H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
As Tanajuras



Outro dia andava pela rua ao sair do trabalho e, como tenho hábito de andar olhando para baixo (aqui no Rio a gente tem que olhar bem onde pisa), me deparei com um inseto morto no chão. Olhei bem para ele e pensei:

- Será que é... não pode ser... mas é uma tanajura, sim. Minha Nossa, há quantos anos eu não via uma tanajura!!!

Procurei em volta e não encontrei mais nenhuma. E comecei a fazer uma viagem no tempo que me levou de volta a bons momentos de minha infância, em Calçado, naturalmente, pois em Campos, onde passei grande parte de minha infância e juventude, raríssimas vezes me deparei com uma infestação de tanajuras. Mas em Calçado, onde passava férias escolares, me lembro de ter visto muitas tanajuras em muitos momentos diferentes.

Acho que aquelas tanajuras apareciam no verão, pois era quando eu estava em Calçado e era muito agradável para mim, enquanto criança, conviver com aquele turbilhão de tanajuras, que certamente infernizavam a vida dos adultos e não sei dizer se faziam algum mal às lavouras, enfim, se causavam algum dano ao município. Mesmo porque a uma criança isso não interessa nem um pouco.

Mas as tanajuras viravam diversão para a garotada. Uns amarravam linhas em suas bundinhas (se é que posso chamá-las assim) e as transformavam em helicópteros ou aviões com controle remoto, outros enfiavam um palito nas tais bundinhas (no bom sentido, se é que isso é possível) e as transformavam em mini-cataventos, visto que as tanajuras não paravam de bater as asinhas a não ser quando morriam, após servirem de brinquedos para a garotada, que, ao perceber que o brinquedo parava de funcionar, ia em busca de outras tanajuras para mais uma sessão de terror para as coitadinhas. O tipo de brinquedo em que elas se transformavam dependia diretamente da criatividade de cada criança. E como eram criativas! Era muita maldade junta, mas maldade em criança não contava, mesmo porque não havia nenhum orgão governamental que protegesse as tanajuras, como o IBAMA.

Mas não eram só as crianças que gostavam, alguns adultos também. Haviam adultos que viam as tanajuras como iguarias e, pasmem, comiam as bundinhas das tanajuras (favor não interpretar com malícia). Me vem à lembrança um sujeito que sucedeu o pai do Tiquinho e do Solimar no trabalho do “Correio”, que comia aquelas protuberâncias das tanajuras e depois cuspia fora as casquinhas (que nojo!!!) e muita gente o acompanhava para experimentar. Eu jamais faria isso com as pobrezinhas. Era um camarada que tinha pintado os cabelos de loiro porque sua mulher havia dado à luz um bebezinho com os cabelinhos clarinhos. Engraçado como alguns fatos ficam em nossa memória, não?

Até hoje não consigo definir se aquelas maldades praticadas com as tanajuras eram maiores nas crianças ou nos adultos. E não serei eu a julgar.

Niteroi, 08/12/2004.
Antonio Claudio Medina de Almeida