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O Antônio Cláudio Medina lembrou das tanajuras,
que invadiam Calçado anunciando as chuvas de verão,
e que levavam a molecada a realizar brincadeiras fantasiosas
de helicópteros e ventiladores. É isso mesmo,
não se assustem. As tanajurópteros eram amarradas
por uma fina linha passada em volta do seu corpo, mantendo,
dessa forma, o controle da altura do vôo, qual um brinquedo
com controle remoto. Os ventiladores tanajura era a brincadeira
clássica, que consistia de fincar um pequeno palito
no traseiro da tanajura, imitando um ventilador portátil.
Os mais imaginosos transformavam o ventilador tanajura em
motor tanajura, adaptando-o para ser instalado num barco de
papel que, impulsionado pelo movimento frenético das
asas, movimentava-se numa poça d’água.
Eram
brincadeiras inusitadas e, talvez, sem maldade nenhuma, mas
que faziam a alegria da molecada. E foi relembrando dessas
e outras brincadeiras inusitadas que me veio à lembrança
de um brinquedo que, hoje, acredito, já nem exista
mais. Falo do Carrinho de Carretel que, no nosso pequeno mundo
mágico, localizado nos redondezas do Grupo Escolar
Manoel Franco, era divertimento que preenchia boa parte de
nosso tempo de criança.
O
brinquedo Carrinho de Carretel era confeccionado com 1 carretel
de madeira, já sem a linha de costura, 1 haste de aproximadamente
10cm de comprimento, confeccionada com material leve ( servia
palito de picolé ou a ponta bem fina de um galho seco
), 1 toco de vela de aproximadamente 0,5cm de espessura, com
um furo no centro, 1 elástico, de preferência
do tipo de amarrar dinheiro e, por último, 1 haste
de 1,5 a 2cm de comprimento, de material bem leve, podendo
ser a ponta mais fina de um galho seco.
A
construção do Carrinho de Carretel se dava da
seguinte forma: Na lateral de uma das abas do carretel, onde
ficaria a haste maior, era esfregado um pedaço de vela,
para que o atrito com a haste fosse o menor possível.
Passava-se o elástico por dentro do eixo do carretel
e o prendia numa extremidade, pela haste menor de 1,5 a 2cm.
Na outra extremidade do carretel era colocado o toco de vela
com o miolo vazado, por onde passava o elástico antes
de se prender na haste maior.
Para
fazer com que o carrinho andasse sozinho, era preciso segurar
o carretel com uma das mãos e com a outra girava-se
a haste maior no sentido horário, até que o
elástico ficasse totalmente torcido no interior do
eixo do carretel. Depois era só colocar o carrinho
de carretel em contato com o solo, com a haste maior virada
para trás, e o danado saía em disparada até
acabar a “corda”, ou seja, até que o elástico
distorcesse todo.
Basicamente
brincava-se de duas modalidades de Carrinho de Carretel. A
primeira modalidade era uma espécie de cross-country,
e utilizava-se um carretel maior, provavelmente de linha 10,
de madeira. A disputa era para ver quem conseguiria ultrapassar
um obstáculo mais alto ( ex; murundu de terra batida,
pedra ou mesmo uma rampa mais íngreme ). Nessa modalidade
a técnica era saber dosar as quantidades de “corda”
e vela, para que o carrinho não “patinasse”
com muita corda e nem deslizasse a haste devido ao efeito
“lubrificante” da vela. Obrigatoriamente as bordas
das abas do carretel eram dentadas. Ganhava quem conseguisse
ultrapassar o obstáculo ou chegar o maios próximo
de destino final.
A
segunda modalidade era praticada com um carretel menor, também
de madeira, e de uso mais freqüente pela costureiras
da época. Não confundir com aqueles carretéis
de linhas coloridas, mais finos e invariavelmente feitos de
material plástico. Nessa modalidade eram disputadas
as corridas de carretel, nas poucas calçadas existentes
ou nas áreas de chão batido, mas com o piso
bem plano e liso. Os carrinhos eram preparados com todo esmero
e cada parte do conjunto era escolhida depois de um rigoroso
teste de peso e formato das hastes, elasticidade do elástico,
consistência da vela e um perfeito alisamento, com vela,
da lateral da aba. Alguns ainda passavam vela em todo o elástico
para que, quando estivesse todo torcido, suas tiras não
grudassem, dificultando a distorção e, consequentemente,
fazendo com que o carrinho não ganhasse mais velocidade.
Apesar
de ser um brinquedo muito simples de fazer, para se ter um
carrinho campeão era preciso esmero na sua confecção
e uma boa técnica. Observando os outros carrinhos e
testando as “inovações tecnológicas”
que a prática impunha, o carrinho ia se aperfeiçoando.
Tinha carrinho que era quase imbatível, de tão
perfeito o seu conjunto. Ao contrário da primeira modalidade,
onde os carretéis eram maiores e as bordas de suas
abas eram obrigatoriamente dentadas, na segunda modalidade,
invariavelmente, as bordas das abas eram lisas ou, muito raramente,
se fazia uns riscos muito finos em toda a borda, para o caso
de a superfície, onde seriam disputadas as corridas,
ser muito lisa.
Ambas
as modalidades eram animadas e com disputas acirradas, mas
minha preferência era pela segunda, onde as vitórias
se davam por questão de centímetros e cada participante
se esmerava, a semana inteira, para melhorar o desempenho
do seu CARRINHO DE CARRETEL.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

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