H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
CONSPIRAÇÃO DE BROINHAS – Uma Ficção de Natal


Apesar de pequena e pacata, Calçado sempre abrigou pessoas que, de alguma forma, viviam conspirando para que a pacatez da cidade não transformasse a vida de seus cidadãos uma monotonia estressante. Dessa forma, muita dessas pessoas se confundiam com seus próprios personagens e a cidade ganhava vida, que renovava as estórias, que contava suas lendas e acabavam virando histórias.

E assim a nossa Calçado veio, ao longo dos anos, dando abrigo e acolhendo esses personagens que tanto conspiraram e ainda conspiraram, fazendo estória, para manter viva a história de seu povo.

Certa feita, reunidos no Bar do Cabrito ( Tião Machado ), num belo sobrado dos anos 20, localizado no início da subida para os Correios, na Praça Governador Bley, encontravam-se Neném Pirrinha, Bigúia, Badi, Procópio, Cascuda, o jovem Lineu e o cachorro Thor, um legítimo Pastor Belga, de pêlo preto retinto, mensageiro da Difusora Calçadense. A reunião foi a pedido do Cabrito e, por ser sigilosa, seria realizada na parte superior do sobrado, onde ficariam instalados num canto pouco iluminado, longe das mesas de sinuca, nos fundos do salão.

A pedido do Cabrito, Cachola sobe a escadaria de madeira, que dá acesso ao salão de sinuca, para avisar que a reunião começaria um pouco atrasada, pois se encontravam no balcão do bar uns paus d’água chatos, que estavam já na quinta saideira e nada de sair. Procópio ameaçou protestar quanto aos adjetivos dados aos pinguços, mas, advertido pelo Neném Pirrinha, que tratou de refrescar-lhe a memória sobre os recentes acontecimentos nas biroscas do Buraco Quente, botou a viola no saco e nada mais falou. O jovem Lineu, para desanuviar o ambiente, diz ao Cachola que é para o Cabrito não se preocupar com o atraso, pois ele tinha todo o tempo do mundo e não constava na sua agenda nenhum compromisso para o dia seguinte. Cachola não deixou barato. Disse para o jovem Lineu que apostava uma caixa de cerveja como não constava nenhum compromisso na agende dele para os próximos anos. O jovem Lineu desconversou e começou a puxar assunto com a Cascuda.

Em poucos minutos começaria a reunião que, na verdade, era uma grande conspiração. Plagiando um filme de ficção científica, Cabrito iniciaria a reunião lendo o seguinte texto:

Estamos na era terrestre, fim dos anos 60. Uma onda de liberdade e liberalidade
toma conta do mundo. Conspiradores de diversas partes da Terra agitam a
população, pedindo Paz e Amor. Os focos desses agitadores estão
na Inglaterra, na localidade de Liverpool e nos Estados
Unidos, numa fazenda próxima de Nova York..
Agora na pequena e pacata Calçado,
um grupo se organiza para uma
nova conspiração. Tem
inicio a Conspiração
Broinha...

Se o Cabrito demorasse um pouco mais para iniciar a reunião, uma grande confusão, que já se anunciava, poria todo o plano, no seu nascedouro, por água a baixo. O jovem Lineu insistia em puxar conversa com a Cascuda que, segurando uma pedra em cada mão, aguardava, nervosa, o momento para quando o Lineu pronunciasse o nome de seu personagem, e ai lançar a primeira pedra. Esperto, Lineu só a chamava de Casca e, as vezes, Casquinha, o que a irritava e a deixava sem desculpa para agir.

Neném Pirrinha se via às voltas com o cachorro Thor, que insistia em trançar por entre suas pernas, farejando o cheiro de um terrível inimigo. Neném Pirrinha era dono de um enorme cachorro Pastor Alemão que, um dia, teve a ousadia de avançar sobre as coxas do Reco, um ponta esquerda do Americano, cujo chute tinha a potência de uns 10 megatons. Cada farejada mais profunda fazia o Thor rosnar mais ameaçador. Ao Neném Pirrinha, suando frio, restava torcer para começar logo a reunião.

No outro lado da mesa, uma Bigúia nervosa ameaça ir embora, já que não era de seu feitio deixar seus clientes esperando. Mesmo porque, na Biquinha, após certa hora, o movimento só não caia a zero por conta do Caçapa, que levava um cabrito para pastar no morro do hospítal e na manhã do outro dia ia buscá-lo. Cascuda também estava preocupada com o adiantado da hora. Certamente, quando acabasse a reunião, não faltaria um engraçadinho escondido atrás de uma janela de babinela a chamar-lhe – CASCUUUUUDA!

Procópio, por sua vez, já com as mãos trêmulas, não cansava de perguntar se a reunião ia ser a seco. Como ninguém respondeu, achou que todos também faziam a mesma pergunta. Se encheu de moral e ameaçou descer as escada e pegar uma garrafa de água que passarinho não bebe. Bastou um olhar mais reprovador do Neném Pirrinha, um servidor da justiça, para, novamente o Procópio baixar a crista e ir direto para o banheiro.

Badi, que até aquele momento nada tinha falado, continuou calado, mas com a entrada do Procópio no banheiro, esticou o olho gordo e a sua expressão ficou menos carrancuda. Um certo brilho irradiou de suas córneas. O Procópio que se cuidasse!

Finalmente o Cabrito subiu a escadaria do sobrado para iniciar a reunião, que até aquele momento só ele sabia tratar-se de uma Conspiração. Mas por pouco toda a redondeza não fica sabendo da reunião. O jovem Lineu, inadivertidamente, saudou o anfitrião:
- Até que enfim, Cabrito...
- Cabrito é a p.q.p que tá lá na zona, seu f.d.p! Gritou o Cabrito, cortando a frase do jovem Lineu e se encaminhando para sentar à mesa da reunião.

O jovem Lineu ria do esculacho do Cabrito. Dessa vez foi Bigúia quem quis protestar com as palavras de baixo calão proferidas pelo Cabrito. Também não entendeu a referência feita ao bairro. De novo Neném Pirrinha intervém e pedem que todos fiquem quietos para ouvir, do anfitrião, as explicações a respeito do que se tratava aquela reunião.

Cabrito começa explicando que não estavam ali para uma reunião. Na realidade era uma conspiração que seria tramada contra seu cunhado Crissaff. Procópio interrompeu perguntando o que era conspiração. Cabrito, depois de despejar mais um monte de impropérios, explica que conspiração era o mesmo que conluio, trama. Procópio finge que entendeu, balançando a cabeça. Cabrito prossegue na explanação. Diz que o plano é simples, porém, de execução pesada. E explicar melhor.

O negócio é o seguinte. Temos que raptar o Crissaff na véspera do Natal e levá-lo para um local seguro e é por isso que reuni vocês aqui. Novamente Procópio, para desespero do Cabrito, pede mais esclarecimentos.
- O que seria raptar o Crissaff?
- É roubar, surrupiar, arrebatar, seu energúmeno! Explodiu o Cabrito.
- Agora entendi e desentendi. Vamos levar o Crissaff para outra casa, até ai tudo bem. Mas, e se o delegado Jaconias descobri? Por mim, tudo bem. Já estou acostumado! Agora, não entendi por que tem que levar meu energúmeno junto. Aliás, o que é energúmeno?

Cabrito partiu para cima do Procópio, e se não fosse o jovem Lineu, teriam partido para as vias de fato. Neném Pirrinha deu novo esculacho no Procópio e pediu para que ele, de agora em diante, só ouvisse e deixasse as perguntas para o final. Cascuda e Bigúia riam de tudo e resolveram pegar o Procópio para Cristo.

Cabrito recomeçou a explicar o plano. O primeiro passo seria convencer o Crissaff a participar de uma pescaria noturna, coisa que não seria difícil e disso todos concordavam. Para essa tarefa foram escalados Neném Pirrinha e o jovem Lineu. Caso os argumentos apresentados pelo Pirrinha não fossem convincentes, entraria o jovem Lineu contando uma estória de pescaria no local e da abundância de peixe. E como prova irrefutável da existência de peixe naquele trecho do rio, podia perguntar para o Germano Tatagiba, que confirmaria tudo.

Convencido o Crissaff de participar da pescaria, entraria a segunda parte do plano. O caminho a ser percorrido até o local da pescaria compreendia: descer o restante da ladeira da dona Dulce, seguir na contra-mão até a Casa do Arroz e do Fubá, curvar à esquerda e entrar na Rua Nova. Percorrer toda a rua e, antes de entrar na ponte do Jazim, curvar à esquerda, na rua do Matadouro, seguindo até encontrar o meio da ladeira da Rua Quinze. Desceriam a ladeira até a altura de um dos armazéns de classificação de café do Salim Sá, na esquina com a ladeira da Biquinha. Nesse ponto se daria a mudança de rota da pescaria. Ao invés de continuar a descer a ladeira da Rua Quinze, o caminho a ser seguido era curvar à esquerda e subir a ladeira da Biquinha até a entrada para o bairro que dá nome à ladeira. Nesse ponto curva-se à direita e inicia uma descida para o centro do bairro, passando pela famosa bica e indo em direção à casa da Bigúia.

Bigúia esboçou um sorriso maroto com a perspectiva daquele monte de homem na sua casa mas, pelo que aconteceu nas intervenções do Procópio, guardou para si o que pensava daquilo tudo. Mas que as perspectivas eram as melhores possíveis, isso eram!

Cabrito continuou a explicação do plano. Já casa da Bigúia, o Crissaff seria colocado dentro do fundo falso da cama. Só sairia dali após concordar em realizar a conspiração tramada pelo Cabrito. A cama da Bigúia era ampla e cabia, sempre, mais de duas pessoas em seu leito. O fundo falso devia ser para alguma fantasia mais ousada. Na vigia da cama e da casa, ficaria o Thor, garantindo total segurança contra possíveis intrusos.

- Agora quem não entendeu nada, fui eu. Que que a Bigúia vai querer com um homem debaixo de sua cama? Se ainda fosse em cima! Cascuda deixou escapar seu pensamento, com um certo sorriso no canto da boca.
- Olha aqui Casc........, interrompeu Bigúia a sua fala.
- Pode chamá-la de Casca, Bigúia. Ela não liga. O jovem Lineu queria mais era botar fogo no circo.
- Vamos parar com essa discussão! Ordenou Cabrito, pondo ordem naquela zona.

Lineu, então, pergunta o que o Badi estava fazendo na reunião, além de ficar de rabo de olho para o Procópio. Cabrito explica que, devido ao problema que tinha nas pernas, primeiro o Badi iria levá-lo até a casa da Bigúia, na sua carroça. Depois retornaria até a farmácia do “seu” Cruz e pegaria o Crissaff, o jovem Lineu e o Neném Pirrinha. Na passagem pela rua do Matadouro, pegaria a Cascuda nas proximidades da dona Éta e de lá iriam todos para a Biquinha, na casa da Bigúia.

Agora foi a vez do Badi perguntar.
- Mas o senhor Crissaff não vai desconfiar de nada quando a dona Cascuda subir na minha carroç....?
Antes que terminasse a frase, levou uma pedrada na testa, na altura do supercílio esquerdo.
- Só não jogo a segunda pedra porque você me chamou de dona, seu f.d.p. Falou, brava, dona Cascuda.

Calma, gente. Eu explico. Cabrito tentou acalmar os ânimos
- Badi, levanta e vai ao banheiro limpar esse sangueiro que está descendo pelo seu rosto.

Continuando a explicação. O Crissaff mexe com todo mundo, mas com a Casc.....Desculpe dona.....como é mesmo que fala, Lineu?
- Casca, Cabrito. Aliás, dona Casca. Corrigiu a tempo, o jovem Lineu.
- Obrigado. Mas eu já falei que cabrito é a p.q.p, seu f.d.p.

Cabrito retomou a explicação do plano. A Casc...., é.... a dona Casca vai ter um papel importante na conspiração. Ela vai ajudar a segurar os sacos que o Crissaff vai distribuir. Mas não adianta fazer mais pergunta. Deixa eu acabar de explicar o plano. Mas o Procópio, de novo, resolve pedir explicações, interrompendo o Cabrito.
- Olha aqui ô Cab.....”seu” Machado. Se eu estou nessa confusão só para distrair o Badi, pode me incluir fora dessa. Tô muito sóbrio para encarar essa parada.
- Que nada, Procópio. Não é nada disso que você está pensando. Você vai convencer o João Pimentel a emprestar o Boi Pintadinho para uma apresentação na praça e animar a festa. Explicou o Cabrito.

Agora é que todos os presentes não estavam entendendo mais nada. Boi Pintadinho? Festa? Cabrito, então, resolve explicar como surgiu a idéia de raptar o Crissaff e qual seria o propósito. Explica que andou sondando os donos de bares da cidade para que, no mês de dezembro, na véspera do Natal, Papai Noel distribuísse sacolas de presentes cheias de comida, para dar às pessoas mais necessitadas da cidade. Seriam distribuídos os salgados da dona Eni, esposa do Crissaff, os biscoitos de polvilho da Dulce, minha esposa, as frutas coloridas de galinha ( ovo cozido ), vendidas no bar do Tiãozinho e que tanto agradavam ao Jiló, os lambaris e outros peixes fritos, vendidos no bar do Barelli, as linguiças de porco do bar do Jamil e, enfim, os pedaços fritos de frango, choriços, coxinhas da galinha e enroladinhos de salsicha vendidos nos outros bares. Todos toparam. A resistência ficou por conta do Crissaff, que não admitia se vestir de Papai Noel, de jeito nenhum.

Portanto esse era o plano. O Crissaff seria convidado a fazer uma pescaria junto com o Neném Pirrinha e o Lineu. No caminho pegariam uma carona na carroça do Badi até a entrada da ladeira da Biquinha. Antes, porém, dariam uma carona a Cascuda, quando estivessem passando próximo ao trecho do rio Calçado conhecido como dona Éta. A desculpa para desviar a carroça até a Biquinha, era para o Crissaff ver o cabrito que o Caçapa deixava amarrado no pasto. Já dentro da Biquinha e passando em frente a casa da Bigúia, entraria em ação a própria Bigúia, chamando o Crissaff para dentro de casa para tomar um cafezinho. Nesse momento entrariam em ação o Badi e o jovem Lineu, agarrando o Crissaff e colocando-o dentro do fundo falso da cama da Bigúia.

Com o Crissaff preso no fundo falso da cama, Cabrito entraria em cena para convencê-lo a se vestir de Papai Noel, subir na carroça do Badi e distribuir, nos bairros carentes da cidade, as sacolas de alimento doadas pelos donos de bares.

Ninguém percebeu, mas quando o Cabrito acabou de explicar como seria o plano, os horas tinham passado e o sol já estava raiando. De repente, um pouco mais cedo que de costume, entra no ar a Difusora Calçadense, com “seu” Jair Mello chamando o Thor. Num piscar de olhos, Thor salta por sobre a mesa e desce a escadaria do sobrado num pulo só. Atravessa toda a praça, passa de raspão pelo “seu” Ciminho, que acabava de chegar de um jogo de baralho em Bom Jesus. Encontra com o Paulinho Sofia, que comprava leite de Zé Carlos Tico-Tico, ou seria o Zé Carlos Canjiquinha? Não importa. Entra na casa que nem um foguete, dispensando a Laudicéia de ir procurá-lo.

Às 10:00hs daquele mesmo dia, num furo de notícias, Jair Mello noticia pela Difussora Calçadense, que o Papai Noel daquele ano seria o Crissaff e distribuiria sacolas cheias de salgadinhos às famílias carentes da cidade. E terminava convocando as pessoas:

- Você vai perder esta festa? DUU-VIII-DÓÓ.

Cabrito não acreditava no que estava ouvindo. Quem seria o f.d.p que contou para o Jair Mello? Ao final da transmissão da Difusora Calçadense, como sempre acontecia, o microfone ficava ligado e nessas condições todos na cidade tomavam conhecimento do que se passava dentro da Difusora. Foi como o Cabrito ficou sabendo quem tinha sido o delator. O microfone captou o seguinte diálogo:

- Obrigado meu fiel mensageiro, pela notícia
- Au, Au, Au, Au.......

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br