H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
E A CARNE SE FEZ PALAVRA...




Sou da opinião de que, ao se falar de Deus, deve-se tomar mão das melhores palavras, harmonizadas num contexto fundado e preciso. Isso é mais que piedade e temor: é consciência de que se está falando do Absoluto, imensurável. Faço teologia com essa precaução, que é também a dos poetas e dos cantores, pois a palavra, seja ela escrita, declamada, cantada ou sussurrada, é nosso tesouro maior, e não pode ser jogada como qualquer carta rasa de baralho à mesa, de qualquer jeito; ela é nosso trunfo, e deve ser guardada com esmero para o momento ideal, expressa da forma mais perfeita que se puder.

Às vezes, o mal uso da palavra na frase pode fazer uma tempestade em copo d´água, ou ainda, pior, pode fazer "filtrar o mosquito e beber o camelo" (Mt 23,23).O livro polêmico de Dan Brown, O Código Da Vinci, ed. Sextante, apresenta uma interessantíssima história que mescla suspense policial com espiritualidade esotérica. O grande segredo (sem estragar a surpresa da leitura) diz respeito à pessoa de Jesus Cristo. E duas afirmações pretensamente heréticas são reveladas.

A primeira: "existem milhares de documentos contendo crônicas da vida Dele como homem mortal" (p. 251, grifo nosso). Além de não significar novidade alguma - uma vez que edições velhas e novas dos milhares de textos apócrifos dos primeiros séculos estão apodrecendo pelos sebos -, a afirmação não contém nada de estranho à fé cristã. Pelo contrário, dizer que Jesus foi algo diferente de um "homem mortal" é que consistiria num grande erro! A Segunda Carta de João afirma que "muitos impostores vieram ao mundo dizendo que Jesus Cristo não veio em carne mortal: eles são o impostor e o Anticristo" (2Jo 7). De acordo com a doutrina cristã, o que garante a redenção da humanidade é que Cristo Jesus morreu pelos nossos pecados. Errado, por exemplo, estava Basílides, que ensinava que o homem que, na verdade, morreu na cruz no lugar de Jesus foi Simão, o Cireneu.

A segunda: Jesus como "mestre e profeta totalmente humano" (p. 273). No livro, essa afirmação soa como sendo uma blasfêmia. Na verdade, porém, não vai além de reafirmar aquilo que já é a profissão de fé dos cristãos há milênios. De fato, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade "assumiu em tudo a condição humana" (cf. Fl 2, 6-11). Essa é a mais pura fé no mistério da Encarnação do Verbo. Dizer que Jesus é totalmente humano não significa negar que Ele seja divino. A doutrina cristã sempre afirmou que Cristo é "verdadeiro Deus e verdadeiro homem", e não metade Deus, metade homem. Aliás, já dizia Leonardo Boff, que alguém tão humano como Jesus só podia ser divino.

Outro dia eu estava reparando num cartaz afixado num painel de uma igrejinha. Era de uma campanha pelo dízimo. Claro que é preciso entender o contexto, tudo bem. O fato é que havia ali uma afirmação aparentemente ingênua, mas no fundo não tão fácil de engolir assim. Dizia: "Deus também é dizimista. Jesus Cristo é o dízimo de Deus à humanidade"! Mas dízimo não significa, literalmente, dez por cento? Conclusão: existe algum problema sério na forma como a palavra foi utilizada nessa campanha. Ou o dízimo perdeu sua objetividade e foi totalmente espiritualizado, ou então não compreenderam o essencial da teologia trinitária, afirmando que "Jesus é dez por cento Deus". Confesso que nenhuma das duas interpretações me soa bem. Tudo isso porque a palavra não foi respeitada dentro de seu campo de significação. De fato, para além dos limites de qualquer intenção poética, a palavra deve dizer a que veio.

O austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi um famoso filósofo da linguagem. Segundo ele, "o significado de uma palavra corresponde a seu uso em um jogo lingüístico". Quem não sabe jogar, portanto, retire seu time de campo e não volte senão depois de muito treino.


Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@hotmail.com