H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
Em Louvor da Poesia



Uma tentativa de leitura crítica, a propósito da carta enviada ao poeta Manoel de Barros.

"Os poetas são como os faróis: dão chicotadas de luz à escuridão."
Míguel Torga

Além da delonga do correio em trazer-me o "Compêndio para uso dos Pássaros", de minha vez também demorei a escrever-lhe, por dois motivos: viagens e, depois, uma forte gripe de inverno.

Antes, havia recebido sua carta, a qual me deixou satisfeito em sabê-lo recuperado da saúde.

Muito obrigado pelo pequeno grande livrinho e pelo ofertório. Você chamou-me amigo, e amigos de certo, já o somos. Não será, tão só, pela empatia que sinto com os seus textos. Algo mais nos aproxima, à distância. Para abreviá-lo, à moda da casa, nada melhor do que o conceito (você diria "transnominação") de Guimarães Rosa: "amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o por que é".

Gostaria de vê-lo, no seu meio, e ao primeiro ensejo o farei, numa excursão ao Pantanal, levando comigo, poeticamente, o seu "Roteiro". Qual seria a melhor época?

Razão tem o Ivan Junqueira, quando considera "esplêndido" aquele seu livro. A propósito, não lhe mando, agora, o dele ("À sombra de Orfeu"), de crítica, porque não o achei no Rio, e o exemplar que estava em meu poder era por empréstimo. Vai em seu lugar uma xerocópia do que, nele, lhe interessa, isto é, a referência ao Compêndio, ao tratar o autor do "caso" Adélia Prado (pág. 109) cuja poesia, como a sua, é lúdica e telúrica, ao mesmo tempo, embora o chão de cada um - mineiro, o dela; pantaneiro, o seu - venha atingir em ambos, no seu apogeu, uma categoria cósmica.

Nesse sentido, se a Adélia (veja-se-lhe que coisa linda, sua poesia sem fingimento e da maior transparêncía... "feito água de mina, levantando morrinho de areia") pode ser comparada a Clarice Lispector (vide Affonso Romano de Sant'Anna, em prefácio a "Coração Disparado"): a Clarice de nossa poesia, pode-se dizer - e eu, a meu gosto, ouso asseverar - que você é o Guimarães Rosa da poesia brasileira, sem embargo de ser ele, à sua vez, o poeta de "Magma", com que se iniciou na literatura, por sinal, como toda a gente às musas dada. Aliás, você mesmo, mui significativamente, abre o Compêndio com máximas rosianas, tiradas de uma conversa entre vaqueiros: "Sabiá na muda ele escurece o gorjeio... Pássaro do mato voa torto - por causa de acostumado com as grades das arvores..."

Falta só, meu caro Manoel de Barros, para se incluir seu nome no rol dos maiores, dentre os contemporâneos, que "os donos do poder artístico-intelectual" (a denúncia é de Millôr Fernandes) o descubram.

Modéstia à parte, sou, como Pedro, um desses felizes novos Cabrais...

Sua poesia, com efeito, inaugural e personalissima, toca-me, fundo, a sensibilidade.
- "Vi um rio indo embora de andorinhas-" (Compéndio). "Rolinhas casimiras"!("Arranjos para assobio"). Sabiá- "Seu canto é o próprio sol tocado na flauta"! (Idem). Etc., etc., etc. Poesia e música/ poesia-música.

Tudo isso lembra-me, sem saudâncias, a minha infância que os anos não trazem mais... correndo atrás das asas ligeiras das borboletas azuis(Ó doce Casimiro de Abreu, pai inocente, já se disse, da ecologia brasileira) e menino e moço, à beira da cachoeira, recitando Castro Alves nas "espumas flutuantes" - minha infância, repito, aqui na fazenda onde nasci, e a que retornei, numa volta às orígens,fim de recuperar-me "nos lugares puídos de mim" (Compêndio).

Essa intimidade com os seres e a natureza, face aos temores da destruição total pelas armas nucleares (pois: "em lugar de mil flores, mísseis". Drummond, Corpo), além da mais refinada expressão poética, consoante acentua Fábio Lucas, serve ainda de construir, com exemplos tais e a seguir transcritos, uma nítida consciência ecológica, que estamos a buscar.

- "Pássaros - eu os quero nas árvores ou voando longe de minhas mãos". (Clarice, Água Viva).

E o nosso poeta não faz por menos, com graça e simplicidade: "Todas as coisas têm serventia... Você derruba os paus/de noite os passarinhos não têm onde descansar" (Manoel de Barros, Arranjos para assobio).

Outra: "As minhocas arejam a terra, os poetas, a linguagem"("Livro de Pré-Coisas"). Essas pré-coisas de poesia...

Se o ensino, em nosso país, estivesse no rumo certo, seus livros, Manoel, seriam lidos e adotados nas escolas de 1º e 2º Graus, além do mais, para a educação do "sentimento poético", no sentido que lhe dá o saudoso mestre e ensaísta português, Jacinto do Prado Coelho, em obra antiga cujo título coincide com o aspeado acima de alunos - crianças e adolescentes "no trabalho de harmonizar a vida psíquica, fazendo colaborar a sensibilidade, a inteligência e a vontade"; e só assim, conclui o autor, o educador conseguirá "realizar com eficiência a sua missão" (pág. 22).

É, pois, a própria educação do ser poético, de que nos fala Carlos Drummond de Andrade, nos seguintes termos: ...."a escola enche o menino de matemática, de geografia, de linguagem, sem, via de regra, fazê-lo através da poesia da matemática, da geografia, da linguagem. A escola não repara em seu ser poético, não o atende em sua capacidade de viver poeticamente o conhecimento e o mundo (sic). E conclui, num apelo: "0 que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas, e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética" (Arte e Educação, ano 3, nº 15, out. 1974, pág. 16).

Hoje, mais do que nunca, a poesia é necessária. Para começar de casa, isto é, em nosso pais, chega a ser título de uma página do cachoeirense Rubem Braga, na Revista Nacional, que acompanha a edição de cada domingo do velho Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, onde, além da própria crônica poética do admirável Braga, ele divulga poetas outros, nossos e estrangeiros.

Acentue-se, ao demais - e é Ivan Junqueira quem o diz, em artigo publicado na imprensa (Alguma coisa em alta", in Jornal do Brasil de 22/09/85), "que, entre os povos literatados, a poesia constituiu sempre a primeira dentre todas as manifestações literárias". Dai, de conseguinte, a sua importância. A propósito, conta-se que o grande romancista americano William Faulkner, autor, dentre outros, de "Santuário" e "0 som e a fúria", por não saber falar francês e desejando percorrer a França, quando lá esteve, afirmava apenas: "Je suis un poéte"; e com esse ardil, à maneira de um "passaporte", todas as atenções lhe foram prestadas. Era um "poeta frustrado", como tanta gente... Não se trata de uma anedota. E a confissão é dele mesmo, a um repórter de seu país, ao regressar e se acha citada num livrinho precioso - "A Lâmpada e o Passado" (pág. 93), de Osmar Pimentel, em edição do Conselho estadual de Cultura de São Paulo.

É ainda necessária - ou, pelo menos, útil - a poesia na administração pública, de todos os níveis. Certo, não seria o caso de os nossos dirigentes, políticos ou técnicos, sem prejuízo do visual ou da mídia eletrônica, cultivarem a poesia, escrevendo ou lendo os bons versos alheios, brancos ou rimados, como meio de melhorar-lhes a imaginação, ao fito de alcançarem mais longe do que os olhos vêem?... Mário Quintana, outro poeta maior, na poética de sua obra, aconselha: "Eu acho que todos deveriam fazer versos... 0 exercício da arte poética representaria como que um esforço de auto-superação" ("Caderno H", 101). Não vou ao ponto a que chegou Manoel de Barros, ao definir ("transnominar") o poeta - se bem que (vide Geir Campos, "Pequeno dicionário de arte poética"), na antigüidade, vate é titulo também outorgado ao poeta, quando se lhe atribuem dons de vaticínio - como sendo aquele "indivíduo que enxerga semente germinar e engole o céu" (no livro "Arranjos para Assobio"). Tudo, porém, vem a dar na mesma coisa.Indubitável é que com esse apuro de sensibilidade, de qualquer modo, lucraríamos todos. Com efeito, sensibilidade (do latim sensibilitate), no sentido que a emprego, é - define Aurélio Buarque de Holanda - faculdade de sentir, igual a sentimento; e a este (sentimento), num programa de rádio (li no diário literário "0 Jogo das Ilusões", do meu amigo escritor Ascendino Leite), chamou Adélia Prado, a primeira dama da poesia brasileira, de "a coisa mais fina que se conhece"(sic).

A poesia, outrossim, é necessária no campo político-social. Jorge de Lima já falava na "sua força revolucionaria". Por certo, ninguém, medianamente culto, ignora o papel que representou a poesia social de Castro Alves, em prol dos negros ao tempo da escravidão. Vale recordá-lo: "Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor deus! Se é loucura... Se é verdade / Tanto horror perante os céus... Ó mar! por que não apagas / C'o a esponja de tuas vagas / De teu manto este borrão?... Astros! noite! tempestades! Rolai das imensidades! Varrei os mares, tufão!" Ouçamos, agora, a Gonçalves Dias, figura de intelectual completo quer na poesia, quer na prosa, e até na ciência do seu tempo, à semelhança de Goethe, n'O Canto do Piaga, em defensão dos índios, contra os que, sobre escravizá-los, lhes queriam tomar as terras e as mulheres: "Oh! quem foi das entranhas das águas, / 0 marinho arcabouço arrancar? / nossas terras demanda, fareja.../ Esse monstro... - o que vem cá buscar? / Não sabeis o que o monstro procura? / Não sabeis a que vem, o que quer? / Vem matar vossos bravos guerreiros, / Vem roubar-vos a filha, a mulher!"

Nos nossos dias de Brasil pós 64, em que pese à estatura de estadista do então Presidente Castelo Branco, e no crescendo da repressão, a poesia, mesmo reprimida ou marginalizada, muito contribuiu para a abertura democrática, após longos anos de arbítrio. 0 jornal 0 Estado de São Paulo, por exemplo, com muita coragem e espírito de resistência, adotou o recurso de preencher, com apropriados textos de Camões, as páginas censuradas. Mesmo assim, em meio à chamada poesia marginal da década de 70, surgiram os nomes estelares de Adélia Prado e Armando Freitas Filho. Os mais velhos, cassados ou no exilio; e os que ficaram, vieram depois, ad perpetuam rei memoriam, a vergastar aqueles tempos do "nunca mais". Um deles, em poesia ou prosa, dos melhores, é o extraordinário Affonso Romano de Sant'Anna.

A poesia torna-se também necessária, como razão de Estado. Na modernidade internacional, é bom lembrar que Churchill e Roosevelt, notadamente o primeiro, em seus memoráveis pronunciamentos sobre a última grande guerra, jamais deixaram de citar um poeta de sua terra, e nas mensagens trocadas, bem assim quando se dirigiam a Stalin, de igual modo o faziam, chegando mesmo, o primeíro-ministro da Inglaterra, a utilizar-se de sua própria poesia naqueles momentos históricos e cruciais que a humanidade viveu - e tomara a Deus que se não repitam, porque seria a destruição total ante o poderio das armas nucleares, a ameaçarem o mundo. Entre nós, no Brasil, que também acabou por participar daquela hecatombe, e lhe sofreu os efeitos, há o exemplo do atual Presidente José Sarney, igualmente poeta que, perante a ONU, em corajoso discurso em defesa dos países em desenvolvimento, como o nosso, e às voltas com suas dívidas externas, contra o egoísmo dos ricos, citou poema de seu conterrâneo Bandeira Tribuzzi.

Até o Cosmo, afirmou Gagarin, o primeiro astronauta, está à espera do seu poeta. 0 nosso Cassiano Ricardo (pena que a morte lhe tivesse cortado o itinerário) o teria ensaiado num de seus poemas "visuais", se bem me recordo, ao celebrar o feito do mesmo herói que deu a volta ao globo terrestre, descobrindo que "a terra é azul". Depois o homem foi à Lua, tirou fotografias de Marte e outros planetas, e o mesmo atual Estado tecnológico, que tudo promoveu, está, agora, em fase da "estratégia do medo"...
Num mundo assim, quem se aventuraria a ser o tal poeta?

Insisto, enfim, na necessidade da poesia para a própria vida, no seu cotidiano, o qual, ainda no dizer poético de Adélia Prado, é "a coisa mais rica que há no mundo", fundindo-se, assim, trabalho (ação) e sonho, ou ideal. Dessa atitude/altitude, o homem representativo, tantos anos decorridos, ainda é Goethe, o genial autor de "Fausto" e outras obras, afora suas pesquisas e teorias científicas, e que de "Poesia e Vida" intitulou suas Memórias. 0 nosso Monteiro Lobato - que foi intelectual, empresário, editor, fazendeiro e sempre escritor - teve, à sua maneira, essa capacidade, a que aliou, com muito espírito e arte, a seriedade e o lúdico. Daí, na mesma linha de princípios e considerações, a afirmativa de Julián Marías, em consonância com seu mestre Ortega y Gasset, de que - "a vida é faina poética". Poesia e vida, pois, ao invés de se atritarem, harmonizam-se e se completam, tornando-nos a vida cada vez mais bela. Um autor alemão, contemporâneo de Goethe, segundo Emerson, deixou este pensamento: "Escolhi, na vida, o lado poético". E curioso é notar que esse pensamento (lê-se em Cassiano Nunes, "Atualidade de Monteiro Lobato", págs. 161/162) não era de um poeta, tal como, ao depois, se veio a saber - sim,de um botânico.

Pode-se, deste modo, ser um bom profissional, em qualquer atividade e, ao mesmo tempo, amador ou amante,sinônimos, da literatura, em especial da poesia, sem sair da realidade. Os juizes do Rio de Janeiro não fizeram entrelaçar, à técnica do Direito, a doçura da poesia, através de "A Toga e a Lira"? Nosso fraterno companheiro de danças - Renato Pacheco, que nunca se aposentou do magistério e das letras capixabas, em tréguas (como eu)com as lides forenses, de sua vez volta à poesia em "Cantos", de inspiração poundiana, e na pele do "Fernão Ferreiro", chega, um dia, na pracinha de São José do Calçado e declama "a incriada Declaração Universal dos Direitos do Homem" (Canto 42). Caro Fernão, neste pequeno nordeste sem SUDENE (vide Christiano Dias Lopes Filho), além de rezas pedindo... temos o cargo que você procura - o de "carcereiro da chuva" (Canto 41), que por aqui cai tão pouca, e já que os bancos não dispõem de verba para financiamento da irrigação...

Ao demais, para o ato de criar, inclusive nessa forma literária primeira, pouco importa a faixa etária em que se encontre: idade, mais do que o aspecto biológico, diz se que é um estado de espírito da pessoa. Um exemplo. Walt Whitman, a seu tempo e aos setenta anos, se não me falha a memória, compôs um de seus mais belos poemas. Outro exemplo foi Goethe, que até ultrapassou, de muito, essa faixa. Entre nós, um, graças a Deus, vivo e santo de minha particular devoção - é o juiz Eliezer Rosa, amigo como irmão, cultor do processo civil e o seu poeta, que acaba de nos dar, dentre outras obras, "A Voz da Toga".

De se assinalar ainda, se bem que um pouco fora da poesia, o exemplo, recente, de Eugênio Gudin, engenheiro, professor, administrador de empresas, economista em que é mestre consagrado, jornalista de estilo agradável (quase um escritor literário), a comemorar, para estímulo e alegria de todos, o seu centenário de nascimento! Já se reparou, ao propósito, em regra geral, que as artes e as ciências, quando cultivadas com amor e bom-humor, levam os homens, genericamente falando, às idades mais avançadas e sem perda da lucidez?

Daí, permita-se-me, para o meu gosto, de formação entre clássica e moderna, e o otimismo moderado que mantenho diante da vida, a ressalva de que poesia não se faz com rabugice ou tristeza - e nem mesmo a prosa. Não foi sem razão que D. Francisco Manuel de Melo, nas suas Cartas Familiares, deixou dito que a tinta da melancolia, inda que preta, não é boa para se escrever.

0 nosso outro Manoel (repare-se que escrevi com o), o meu prezado Manoel de Barros,retornando ao binômio poesia-realidade, é exemplo vivo dessa ideal conciliação; cultiva a terra, com seus pássaros e bichos e a poesia. Por isso, fica até mais criativo, pois que se dedica à arte, sem oposição à vida (e é de um ludismo encantador).
Fácil de concluir-se, assim, que é basicamente essencial ler. A leitura - critica ou não, mas sempre bem feita - começa por propiciar-nos "uma forma de felicidade", conforme da sua experiência, por olhos de outrem (viveu cego durante longos anos), nota Jorge Luis Borges. E prossegue o mesmo saudoso escritor argentino: "Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é, sem dúvida, o livro. Os demais são extensões o corpo... 0 livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Pelo visto, nenhum preconceito deve haver contra o livro, até porque - mais uma vez nos ensina Carlos Drummond de Andrade - "a vida recolhida nos livros volta mais vida".
E em se tratando do livro, não se pode deixar de aludir a Montaigne, autor de um único livro - Ensaios, uma espécie de retalho de outros, anteriormente escritos na antigüidade, porém com tal sabedoria que a sua leitura constitui, e para sempre, a melhor fonte para se conhecer a vida. Um autor nosso, mineiro e humanista é quem nos chama a atenção para isso, conclamando-nos, os homens na idade do siso, à leitura constante daquele ilustre francês, talvez seu mestre maior. Refiro-me a Eduardo Frieiro("Torre de Papel", intróito), outro falecido desta vida presente e que, ainda, traz à colação mais um clássico, do período quinhentista da literatura portuguesa, por certo da mesma família espiritual de Miguel de Montaigne - D. Frei Amador de Arraiz, no sentido de que se deviam inscrever, à entrada de cada biblioteca, que"todos os bocados do mundo perdem o sabor, se uma vez se gostam os do espírito". Bem entendido, isto é, nem só à letra (penso nos mais moços), não seria, em verdade, uma boa sugestão para as bibliotecas e seus habitantes?

Mas, agora, basta de digressões em louvor, prosaico, da poesia. Está visto e demonstrado, tanto quanto me é possível, que, sem desfazimento dos demais, seus contemporâneos (citados ou omitidos), poesia é com Manoel de Barros, lá do Pantanal de Mato Grosso do Sul, onde é também fazendeiro, ou poeta-fazendeiro (e dou muita ênfase a esse traço de união), com pouso na cidade-capital de Campo Grande.

Aí fica, certo ou errado, caríssimo amigo, o que pude entender de suas produções poéticas. Sem qualquer autoridade de crítico ou poeta, que não sou. Puro impressionismo, em estado bruto, de um pequeno atual fazendeiro "café com leite" e apenas, no plano intelectual, consumidor literário, valendo-me de alheios recheios e ora (licença lhe peço) a transformar, creio que sem descaracterizá-la, a carta motivadora, neste ligeiro e despretensioso ensaio de divulgação cultural. Isto, após de haver sido (perdoe-me, é o meu pobre "curriculum" que lhe devo), ao longo dos anos, advogado, professor, juiz etc., tudo isso, porém, em tom menor. Maior só o abraço, enorme e cordial, que lhe mando, e uma vez mais, obrigado por existir!

Pedro Borges de Rezende.