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Desde criança, ele era fascinado por cinema; Luiz assistia
aos velhos filmes em p&b do Cine São José
curtindo as emoções das imagens projetadas na
tela e sonhando com os calorosos beijos das atrizes, principalmente
o da famosa atriz espanhola Sarita Montiel, no filme La Violetera,
uma produção itálico/espanhola de 1958.
Agora,
com 15 anos, e em plena adolescência, ele já
começava a viver as emoções e os perigos
que o rito de passagem para a fase adulta impunha aos jovens
da época, causando preocupações aos pais
em relação ao futuro do filhos.
O
pai de Luiz era um homem bom, honesto e muito enérgico
com os filhos. E, percebendo que se ele continuasse a morar
em Calçado não daria boa coisa na vida, dizia:
-
Calçado está ficando pequeno para você,
bebedeira com amigos, jogo de sinuca e malandragem não
vão levá-lo a lugar nenhum. Decidiu então
que deveria mandá-lo para Vitória.
-Luiz,
você irá trabalhar durante o dia e estudar a
noite, assim aprenderá valorizar os estudos e o trabalho,
dizia seu pai.
Muito
contrariado, mas incapaz de contestar as ordens do pai, ele
foi embora para Vitória. Na capital, morava em companhia
de duas irmãs mais velhas e de uma prima, que na época
faziam faculdade.
Os
conflitos tornaram-se inevitáveis. Além das
dificuldades naturais em conviver com as irmãs mais
velhas, Luiz era um adolescente muito sem capricho e com um
chulé insuportável. Certa vez, uma de sua irmãs
perdeu a paciência com a “catinga” que exalava
daqueles pés, e, numa crise histérica, avançou
sobre ele espalhando “polvilho anticéptico”
por todo o seu corpo, enquanto aos berros o agredia com um
velho chinelo havaianas.
Era
o início dos anos setenta. As grandes indústrias
ainda não haviam se instalado no estado e Vitória
era uma cidade pequena e provinciana. Seus habitantes viviam
de forma tranqüila, sem a violência que hoje tanto
incomoda a cidade.
Andar
pelas ruas e passear pelo Parque Moscoso, mesmo à noite,
era um hábito comum aos moradores da cidade. O centro
conservava um glamour todo especial, principalmente a rua
7 de Setembro, onde as damas da alta sociedade faziam compras
nas inúmeras lojas e butiques e os intelectuais conspiravam
contra a ditadura militar no tradicional Britz Bar.
Aos
domingos, o programa favorito dos moradores da capital era
ir ao cinema após os cultos religiosos e a missa na
Catedral Metropolitana.
Os
cinemas de Vitória, em sua maioria, ficavam espalhados
ao longo da Avenida Jerônimo Monteiro. Iniciando com
o Vitórinha, passando pelo luxuoso Cine Teatro Glória,
com seu estilo neoclássico e terminando no Cine Juparanã,
que possuía vários lustres de cristal proporcionando
um belo visual noturno, quando contrastado com a fraca iluminação
da avenida Jerônimo Monteiro.
Luiz,
apesar da saudade dos amigos e de um amor de adolescência
que havia deixado em Calçado, até que não
desgostava de Vitória, principalmente pelo fato de
poder freqüentar os cinemas. Eles eram modernos, luxuosos
e passavam filmes novos, coloridos e em “cinemascope”.
Tecnologias que não existiam no cine São José.
Seguindo
as tradições dos moradores de Vitória,
Luiz, as irmãs e a prima, também freqüentavam
o cinema aos domingos.
Antes
de sair para assistir a um filme, Luiz tinha a obrigação
de descer até a padaria para comprar o pão para
o lanche e o café da manhã seguinte. Muito preguiçoso,
realizava essa tarefa com uma tremenda má vontade.
Não entendia a lógica imposta pelas irmãs.
Na sua concepção era desperdício de tempo
descer e subir a ladeira onde moravam por duas vezes. Ficava
irritado com as irmãs por nunca concordarem com o seu
argumento de descer, comprar o pão, ir ao cinema e
depois voltar para casa.
O
Cine Teatro Glória, que havia sido fechado pra reforma,
estava reabrindo com o lançamento do filme “O
jovem Rebelde”, a história do escritor espanhol
Miguel de Cervantes.
Exatamente
nesse dia, após muita discussão, Luiz contesta
a ordem das irmãs e resolve levar a sacola de pão
para o cinema.
A
sala de espera do Glória tinha um piso retangular,
de granito preto com mármore branco ao centro, e as
paredes de vidro recebiam uma luz indireta, dando a impressão
de amplidão no ambiente. Era muito bonita e bem decorada.
Naquele domingo especial por ser a reinauguração
do cinema, o saguão estava lotado de mulheres e homens
elegantes da sociedade capixaba que ansiosos aguardavam a
abertura da sala de projeção, inclusive com
a presença da calçadense Alacir Araújo
Silva, carinhosamente chamada de Noquinha pelos seus conterrâneos.
Luiz,
sem a menor cerimônia, também estava lá,
ao lado das irmãs e da prima, carregando a sacola de
pão, o que destoava radicalmente daquele ambiente cheio
de glamour.
As
três moças, inconformadas e irritadas com a situação,
repreendiam-no em voz baixa a todo o momento, por aquela atitude
impensada de levar uma sacola de pão para um ambiente
tão refinado como aquele e expondo-as ao ridículo.
Aquela falação chata das irmãs mais velhas
foi irritando Luiz. A cada vez que elas reclamavam, mais ele
se irritava. Até que em um determinado momento ele
se sentiu possuído por um ódio incontrolável,
o que o fez levantar bem acima dos seus 1,87 metros, a sacola
de pão, para que todos os presentes a vissem. Aos gritos
dizia:
-
Vocês sabem o que é isto? Isto é pão.
Por acaso é proibido trazer pão para o cinema?
E repetia:
-
Alguém pode me dizer se é proibido trazer pão
para o cinema?
Todos
os olhares se voltaram para a direção dos gritos.
Um silêncio momentâneo fez-se sentir no ambiente.
Os presentes olharam rapidamente para aquela cena e em seguida
retornaram as conversas, demonstrando que não haviam
entendido o que aconteceu.
As
três moças, sem saber como reagir àquela
situação inesperada, calaram-se, e “calmamente”
esperaram o início do filme.
Oscar
Rezende
roscar@uol.com.br

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