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Outro dia ouvi um conferencista explicando a distinção
entre "motivos" e "motivações".
Segundo ele, motivos são argumentos racionais que recebemos
de fora para fazer algo; motivações são
os impulsos emocionais que produzimos em nós mesmos
para fazer esse mesmo algo. Não basta ter um bom motivo
para se casar, por exemplo; é preciso haver uma grande
motivação, que, neste caso, podemos chamar de
amor.
Comecei a fazer, ali mesmo, durante a palestra, um exame particular
da maneira como ando levando a vida, executando minhas atividades,
dando andamento em minha história. E fui descobrindo
algumas coisas interessantes. Por exemplo, descobri que eu
costumava gastar mais tempo com as coisas bonitinhas, para
as quais eu tinha apenas motivos suficientes, do que com aquelas
(nem tão belas assim) feitas com motivação.
Meu dia-a-dia estava mais saturado de bons motivos do que
de verdadeiras motivações.
O mundo está cheio de pessoas erradas no lugar errado,
no momento errado de suas vidas, fazendo coisas que nunca
deveriam ter começado a fazer. Só isso explica
a desordem em que tudo parece submerso. Isso porque essas
pessoas, por um determinado "motivo", foram jogadas
pelas circunstâncias da vida a situações
que nunca desejaram para si. Um bom salário pode ser
para mim um bom motivo, mas, sem motivação,
o trabalho me cansa demais, me envelhece mais depressa, e
faz de mim uma pessoa sempre insatisfeita com o resultado
final.
Motivos não têm o poder de fazer alguém
feliz. Não adianta debruçar-me nas bancas de
auto-ajuda da melhor livraria da cidade, se busco ali apenas
motivos superficiais para me convencer de algo que não
engulo na verdade. Não basta fazer terapia: mais dia,
menos dia, o analista, sendo franco, vai me receitar nada
mais do que boas risadas em família.
Não basta tomar um banho de loja: comprar nunca resolveu
e nunca resolverá o problema de ninguém (isso,
no máximo, desviará minha preocupação
do buraco na alma para o rombo na conta bancária).
O que me salvará são as motivações
que pulsam em mim, naturalmente, e a sensibilidade de deixá-las
pulsar quando e quanto quiserem.
Fiz, então, uma espécie de teste para mim mesmo:
eu acordo disposto a cumprir o que escolhi para mim, ou a
vontade de dormir me soa como mais importante do que meu papel
neste mundo? Quando alguém me pergunta, num momento
de lazer, sobre as coisas que faço, sinto-me orgulhoso
por fazê-las (pelo menos satisfeito pela forma como
as faço), ou as repudio como incompatíveis com
qualquer descontração e procuro logo mudar de
assunto para não me estressar? Enfim, tenho conseguido
dar àquilo que faço a minha cara de satisfação,
ou, no final das contas, eu é que tenho ficado com
a cara de tédio das coisas que tenho feito?
As respostas ainda não vieram, estão sendo processadas
aqui, num compartimento interno, entre o contentamento da
escolha certa e o medo de chegar a conclusões que me
desinstalam
Julinao Ribeiro
julianorial@hotmail.com


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