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Como
toda a cidade do interior, São José do Calçado,
minha terra, onde não haveria explicação
alguma que satisfizesse a população, em passar
um Natal sem a missa do Galo.
Missa do Galo mesmo! - Àquela que começasse
às 24 horas, com a Igreja muito bem preparada pelo
Joaquim Silvino, com um presépio à lá
Padre Francisco Maria Robier, sinos muito bem repicados, com
missa solene, turíbio incensado, coroinhas uniformizados,
coro muito bem ensaiado pela professora Myrtes Garcia e participado
da Helvécia, da Aldair Junger, da minha irmã
Ilma, entre outras, com a liturgia também muito bem
organizada pelas Filhas de Maria, sob as orientações
da Eponina e da Conceição, irmã do Carioca.
Enfim, tais requisitos de uma missa de Natal deviam ser observados
por todo o Brasil afora, mas nós calçadenses,
não abríamos mãos deles. Poderia até
que de outras formas, o Natal acontecesse em todas as demais
cidades brasileiras, mas não abríamos mãos
do nosso Natal, com a nossa gente e com as nossas peculiaridades.
Por isto que naquele 24 de dezembro da década de 40,
estávamos sofridos. Não tínhamos Padre
e o Padre Afonso Mayer, de Apiacá, que cobria as nossas
emergências, avisou: não poderia comparecer.
E se não tinha Padre, não tinha missa! É
claro!.
Fato inédito! A nostalgia tomou conta: Igreja fechada,
lamentos por toda à parte e as exclamações
eram uma só! E agora, perguntavam?
Nem as ceias tradicionais que preparavam para após
a missa do Galo, melhoravam o humor do Calçadense.
Cidade centenária, eminentemente católica, era
tido como impossível tal acontecimento:
Eu, na qualidade de coroinha, também lamentava e achava
até que o meu pai, o seu Cajuca farmacêutico,
deixasse que o galo velho que ganhou do irmão Sr. Avelino
Araújo para a ceia do Natal ficasse para o almoço
do dia 25. Afinal, para nós calçadense, tão
reverente à data, Natal sem missa, não a era
Natal.
Mas o torpor que acompanhou os Calçadenses por toda
a semana teve fim às 16 horas do dia 24 daquele dezembro.
Não é que àquela hora, sentado à
frente da minha a casa, localizada à frente da antiga
casa paroquial, o que vejo: Passando pela lateral da nossa
Igreja e caminhando em direção à casa
paroquial, vinha um Padre diferente: Diferente porque trajava
uma batina cinza, como os padres da Congregação
“Santa Terezinha”, do Padre Júlio Maria,
lá de Manhumirim – Minas Gerais.
E como a da.Rita Silvino, zeladora da casa, demorou a abrir
a porta para o visitante, é claro, fui o primeiro a
fazer contacto com o novo Padre, quando fui informado que
estava ele com a missão do Sr. Bispo para realizar
a Santa Missa do Galo, tendo no ato recebido a incumbência
de, imediatamente, tocar os sinos em aviso antecipado que
teríamos a nossa missa do Galo.
Talvez que nem com tanta pressa, nem com tanta alegria e nem
com tanto descuido, subi àquela íngreme e tradicional
escada da torre da nossa Igreja matriz, para repicar os nossos
sinos e avisar para todo Calçado: Teremos enfim a nossa
missa de Natal..
E a noticia correu célere por toda a cidade, alegrando
a Da, Nini Garcia, o Sr; Múlcio Alencar, a família
do Tião Melo, a do Sr.Ênis Teixeira, a do Sr.
Alípio Dias Ferreira, a da dona Bela, do Sr. José
Feres, e também pelo meio rural, já que aproximando
o horário, começou a passar pela minha casa
o pessoal do Córrego da Areia, os Silvinos, a família
do Sr. João Fernandes de Almeida, a do Nico Camargo,
a do Sr. Messias e irmão, a do Manezinho Pedro; o pessoal
do Jaspe, a família do Sr. Mamede, a do Sr.Domingos,
a dos Abreu, a família do Sr.Aymbiré; o pessoal
do bandeira, a família do Pedro Evaristo, a do Pedro
Baréli, a do Iote, as dos Teixeira de Almeida e muitas
outras.que se juntaram também às famílias
do Córrego do Jacá, da Bem Posta, do Goiabal,etc.
E às 24 horas, com a Igreja superlotada, o Padre recém-chegado
deu início a Santa Missa, solene, participada, tendo
proferido uma homilia - sermão naquela época
- que deslumbrou os participantes que, ainda enlevados pelo
brilhantismo do rito cerimonial, satisfez a sua ansiedade
com a realização, que de fato extrapolou o corriqueiro
das anteriores, e quanto mais a exigência foi reprimida
mais a participação do sacerdote foi enaltecida
e mesmo venerada, num misto de alegria, devoção
e porque não, agradecimento, afinal o Natal não
passou com a Igreja fechada e sem o culto ao menino Deus.
E antes do término da Santa Missa, por decisão
do Padre, a oferta ficou para o final e ela deveria ser partilhada
por todos com o beijo na imagem do menino Jesus, exposta à
frente do altar.E chuveu espórtula, o que não
era para menos!....
E às três horas da manhã, a missa terminou
e tal tempo prolongado, no lugar de tornar os fieis entediados
ou cançados, o que se via nos seus semblantes era a
alegria e a felicidade de participar daquela missa que não
aconteceria.
Após o raiar do dia, muitas pessoas procuraram o Padre
de batina cinza para abraça-lo, só que não
o encontraram, sem que alguém desse qualquer explicação,
soube-se que o Padre viajou, levando com ele as ofertas da
missa e tudo o mais de valor que a Igreja possuía.
Dias depois a noticia de sua prisão em Niterói,
correu por toda a cidade. Todavia entendemos que o calçadense
o perdoou, afinal a fé foi proclamada e o sacrilégio
abençoado.
José
Cabral de Melo
Publicado no JORNAL DO VALE, em 25 de dezembro de 2004

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