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Em Calçado, quando não tinha diversão,
a gente inventava uma. Entre a despedida de uma companhia
circense e a chegada de uma tourada, passava-se um bocado
de meses. Se não fossem as brincadeiras de rua e as
conversas na calçada em frente ao Grupo Escolar, no
início da noite, a monotonia reinaria absoluta.
Nas
férias escolares, pouquíssimos de nós
viajávamos para outras cidades. E quando viajávamos,
era por pouco tempo, e só nas férias de verão,
que eram mais longas. Tínhamos dois períodos
de férias, sendo as férias de verão de
prazerosos 90 dias, iniciando em dezembro e com término
no fim de fevereiro. As férias de inverno eram no mês
de julho, com retorno às aulas no início de
agosto.
Era
nas férias de julho que o bicho pegava. Sair para passear
( viajar ) era quase impossível e, para complicar,
o frio era desanimador. Quase ninguém vinha de fora
para passar as férias de meio do ano em Calçado.
O que mais se ouvia era a frase: “hoje não tem
nada para fazer”. Não dava para tomar banho no
rio e, as vezes, nem jogar uma pelada, pois uma chuva fina
e insistente teimava em deixar o campo enlameado e o clima
ainda mais frio.
Lá
em casa o quintal era grande e cheio de pés de frutas.
Tinha pé de caju, de goiaba, abacate, mamão,
laranja e banana, sem falar nos pés de milho, que eram
plantados todos os anos. Era no abacateiro e nas goiabeiras
que realizávamos boa parte de nossas brincadeiras que,
aos olhos de nossos pais, eram pura “arte de criança”.
E
foi no quintal lá de casa que um dia, nas férias
de julho, resolvemos brincar de circo. Para nós, circo
tinha que ter cobrança de ingresso, venda de suco e
balas e, logicamente, números que, de alguma forma,
lembrassem os apresentados no circo real, para servir de chamariz
para atrair o público. Havia, também, para os
mais corajosos da platéia e desde que se dispusessem
a pagar o devido valor estipulado, a possibilidade de se arriscarem
na execução dos números que seriam apresentados
pelos “profissionais circences”.
As
meninas ficavam incumbidas de vender os ingressos, as balas
e os sucos. Já nós, os meninos, tínhamos
a incumbência de bolar e executar as atrações,
bem como arranjar todos os materiais necessários para
preparar os números que seriam apresentados. Basicamente
necessitávamos de corda, pedaço de madeira,
pó de serra, panos velhos, algumas latas e um ou outro
apetrecho que se fizesse necessário, tais como prego,
martelo, etc.
O
preço dos ingressos era alguma moeda de centavos, algo
como R$ 0,25; a venda de balas e sucos era o filé mignon,
pois eram vendidos pelo dobro do valor do ingresso. Os sucos
eram, invariavelmente, de laranja, de caju ou uma bela limonada.
Quando as meninas queriam ser mais ousadas, era feito o guaraná
da roça, que consistia em misturar bicarbonato de sódio
na limonada. A limonada ficava efervescente e adquiria um
sabor(?) diferente. Era um sucesso de venda, mas não
parecia nada com guaraná!
A
bem da verdade, só quem se dispunha a pagar ingresso
era algum menino da própria rua e que não participaria
de nenhuma atração a ser exibida e, também,
que não tinha participado na montagem do espetáculo.
Ou seja, se fosse contar nos dedos das mãos, sobrava
era dedo. O certo era que os meninos queriam se exibir para
as meninas, mostrando suas habilidades e coragem na execução
das atrações prometidas. Quanto à meninas,
acho que o que elas mais gostavam era de nos ver fazendo tudo
errado, nos esborrachando no chão. Elas riam a valer.
Definida
as atrações que seriam apresentadas na manhã
de domingo, iniciava-se os preparativos. A propaganda era
feita pelas meninas, nas salas de aula. Comentavam para uma
colega, que comentava com a irmã, que falava para uma
amiga de outra sala e assim estava garantida a platéia.
Não fazíamos a menor questão que os colegas
das meninas viessem. Se só elas viessem seria melhor.
Melhor, ainda, era se elas viessem acompanhadas de outras
colegas. Nesse caso, os “artistas” se esmeravam
mais, para mostrar o quão bom e corajosos eram eles
nas suas estripulias.
Para
escolher as atrações que seriam apresentadas
no domingo, valia a experiência de anos de brincadeira
em quintais. As atrações eram, de um modo geral,
relacionadas as atrações que assistíamos
no circo de verdade. Por exemplo, se no circo do mundo real
havia trapezistas que faziam manobras arriscadas, no nosso
circo deveria ter também. Se havia o número
do trapézio, onde o trapezista pulava de um trapézio
para o outro, tínhamos que fazer algo parecido. É
bem verdade, também, que misturávamos algumas
atrações tipicamente de circo com outras tiradas
de nossa imaginação. E assim surgiam as atrações.
A
primeira atração que seria exaustivamente treinada
na semana que antecedia o espetáculo, era o Pulo de
Pára-quedas. Consistia em subir no abacateiro até
a altura do primeiro galho mais grosso, o qual se estendia
até bem próximo de um grande galho de goiabeira.
Do alto do galho do abacateiro pulava-se para agarrar o galho
da goiabeira que, devido a sua grande resistência e
flexibilidade, envergava até quase tocar o chão,
pousando o intrépido paraquedista suavemente no solo.
A
segunda atração seria a travessia aérea
entre o pé de abacate e um segundo pé de goiaba,
que ficava distante uns 10m do abacateiro. Essa atração
dava trabalho para ser montada. Tínhamos que subir
até o galho do abacateiro, onde era executado o salto
de pára-quedas, e de lá amarrávamos uma
corda no galho de cima. Do abacateiro levávamos a outra
ponta da corda até o tronco da goiabeira, na altura
dos primeiros galhos. Antes, porém, de amarrar a corda,
ela era passada por dentro de um tubo de ferro de uns 40cm.
Partindo do galho do abacateiro, segurando pelo tubo que deslizava
pela corda, chegava-se até a goiabeira, numa travessia
aérea bem rápida.
A
terceira e última atração do programa
era tipicamente circense. Fazer malabarismos no trapézio,
que tinha suas cordas presas num galho bem alto do pé
de caju. Além de balançar o mais alto possível,
o intrépido trapezista deveria soltar as mãos
das cordas e, para culminar, no final da apresentação
o trapezista soltaria as mãos das cordas e jogaria
o corpo para trás, ficando preso pelos pés.
Se tudo corresse bem, era só esperar pelos aplausos
das meninas e a garantia que o feito seria comentado durante
toda a semana. Se tudo corresse bem....
Tudo
pronto e todas as atrações ensaiadas exaustivamente.
Chegou o domingo. As meninas fizeram tudo direitinho. Confeccionaram
os ingressos, preparam os sucos e arranjaram as balas para
serem vendidas. Não apareceu quase nenhum menino de
outra rua que não fosse a nossa, ao contrário
do que aconteceu com as meninas, que vieram em grande número.
A presença de tantas meninas fez com que os “artistas”
ficassem ainda mais empolgados. Foi, então, anunciada
a primeira atração.
Os
meninos mais magrinhos eram escalados para serem os paraquedistas.
Assim, Saragaia, Lúcio Catita ( irmão da Lecy
Maria ), César Goiaba e Bastião Bueno faziam
fila para subir no abacateiro e despencar em direção
ao galho da goiabeira. A medida que cada paraquedista subia
e se preparava para pular, o baterista oficial, munido de
um balde, que fazia as vezes de um tarol, e de dois pedaços
de madeira, tentava recriar o clima de suspense, como no circo.
Antes,
porém, é bom que se faça um registro
de que não víamos com bons olhos a presença
de adultos nessas nossas brincadeiras. Sem falar nas repetidas
vezes que eles pediam para que nós tivéssemos
cuidado e que aquilo era perigoso, o que nós rebatíamos
com toda nossa autoridade de criança experiente, a
presença dos adultos dava um azar danado. Era só
aparecer um para ver o espetáculo, que dava alguma
coisa errada.
Apesar
de tombo do César Goiaba, que não conseguiu
segurar com firmeza o galho da goiabeira, a apresentação
dos demais paraquedistas foi perfeita. A platéia gostou
tanto, que muitos se arriscaram a também subir no abacateiro
e pular em direção ao galho da goiabeira. Um
sucesso, apesar do galho da goiabeira nunca mais ter voltado
para a posição original, ficando envergado pelo
resto de sua existência. O galho também ficou
estéril, pois nunca mais nasceu goiaba, só umas
folhas aqui e outras acolá.
O
anúncio da segunda atração daquela manhã
de domingo, veio acompanhado de uma observação
de um adulto que acabara de chegar no quintal. Veio avisar
que na parte da tarde estava confirmada a pelada no campinho
atrás do Grupo. Avisou e acabou ficando para ver o
que estávamos fazendo. Mau presságio...
O
Saragaia já se encontrava subindo no abacateiro e o
baterista do balde aumentando as freqüências das
batidas, criando um clima. Já no alto do galho, Saragaia
desamarra o pano que impedia que o tubo de ferro deslizasse
pela corda e se prepara para iniciar a travessia aérea
entre o abacateiro e a goiabeira. De última hora, Saragaia
resolve inovar e ousar. Faria a descida virado de costas.
O baterista já se encontrava com cãimbras nas
mãos e nada do Saragaia resolver descer. Finalmente
despenca lá do alto do galho do abacateiro. No início
ganhava grande velocidade, mas a medida que a corda criava
uma “barriga” e o atrito do tubo de ferro com
a corda aumentava, a velocidade diminuía. Já
quase chegando no troco da goiabeira, aconteceu um imprevisto.
A corda arrebentou. Saragaia foi jogado ao encontro do tronco
da goiabeira, bateu de costas e caiu no chão. A turma
do socorro agiu rapidamente, mas Saragaia ficou sem fala e
fazia força para puxar algum ar. Depois de muito sacolejo,
copo d’água e alguns abanos para melhorar a ventilação,
aos poucos Saragaia foi recuperando o fôlego e conseguiu
falar alguma coisa. Estava branco que nem vela, e nas costas
uma marca meio avermelhada pela pancada.
Alguém
disse que podíamos acabar com a brincadeira, mas o
Caçapa, que era o trapezista da última atração,
fazia questão de executar seu número. Não
seria justo que depois de uma semana treinando, não
fosse dada ao Caçapa a possibilidade de mostrar sua
habilidade. Foi, então, anunciada a última atração.
E rufaram as baterias...
Caçapa
parecia uma libélula albina solta no ar. Quanto mais
altura atingia o trapézio, mais balançava as
pernas, soltava as mãos das cordas e fazia mil contorcionismo.
O espetáculo ia de vento em polpa e já estava
próximo do fim, para alívio do Renato Abusado.
Abusado não podia ver nem a montagem de Roda Gigante
nos parques, que já ficava enjoado, e agora vendo o
Caçapa balançando todo aquele tempo, já
estava deixando seu estômago embrulhado.
Para
o Gran Finale, Caçapa tinha reservado uma ousadia.
Ao seu sinal, o baterista entraria em ação e
num crescente de suspense, já no ponto mais alto que
o trapézio atingiria, soltaria as mãos das cordas
e jogaria o corpo para trás e cairia, ficando preso
nas cordas, pelos pés. A essa altura a platéia
já teria roído todas as unhas e, para aliviar
a tensão com o final da apresentação,
romperiam em aplausos. Esse era o script, mas alguma coisa
saiu errada.
Bem
que o Caçapa, ao se encarapitar no trapézio,
sentiu as cordas um pouco úmidas e escorregadias, mas,
pensou, devia ser o clima frio e úmido do mês
de julho. Nem deu atenção para aquele detalhe.
Sob o balanço, o chão foi forrado com uma camada
bem fofa de pó de serra para, no caso muito improvável
de queda, o chão não parecer tão duro.
Como, naquele tempo, a serraria do Dedé serrava até
“brejaúba”, pó de serra não
era problema, tinha em grande quantidade. Resolvemos, então,
que seria melhor forrar o chão sob o trapézio
com mais algumas camadas de pó de serra. Não
que tivéssemos medo de que alguma coisa pudesse sair
errado, mas era por pura preguiça de jogar o resto
da forração na lixeira da rua. Santa preguiça...
Ninguém
viu quando, no sábado, véspera do espetáculo,
o Piriquito resolveu, por conta própria, incrementar
a apresentação do Caçapa. Após
o último treino do Caçapa, Piriquito saiu de
fininho e foi até o abacateiro e pegou um abacate verde.
Partiu-o ao meio, retirou o caroço e com uma das bandas
do abacate na mão, foi até o cajueiro, onde
estava pendurado o trapézio. Raspou a parte mais branca
da fruta e, com as mãos, lambuzou as cordas até
a altura onde as mãos do trapezista alcançavam.
Até hoje o Piriquito não “desculpou”
o Caçapa por mais essa maldade. Também não
sei o por que do Piriquito ter resolvido passar as férias
de julho em Calçado. Isso só ele pode explicar,
mas eu acredito que já foi de caso pensado.
Caçapa
era todo sorriso em cima daquele trapézio. Estava chegando
ao final de sua apoteótica apresentação
e já podia ouvir os aplausos da platéia. Depois
era só correr para os abraços. Nem bem acabou
seu pensamento e o trapézio já se encontrava
no ponto mais alto. Como combinado e o seu sinal, o baterista
capricha nos acordes e vai num crescente e de repente silencia.
Caçapa se joga de corpo e alma para trás e desce
junto com o acento do trapézio. Ao mesmo tempo, abre
as pernas para que elas se prendam nas cordas e ele fique
dependurado de ponta-cabeça. Mas o unto de abacate
que o Piriquito passou nas cordas, impediu que as pernas se
prendessem e o Caçapa foi direto ao chão. Por
sorte havíamos reforçado a camada de pó
de serra, por isso o Caçapa só sofreu algumas
luxações em todas as partes do corpo, principalmente
nos braços e na cabeça, e uma pequena entorse
no pescoço, que só foi melhorar depois de uns
15 dias, já na primeira semana de aula.
Não
é superstição, mas que adulto vendo criança
brincar, da azar, isso dá. Depois do fiasco do Caçapa,
a primeira coisa que ouvimos foi minha mãe gritar lá
do alto da escada: “ Éhhhh Carlinhos, deixa o
Crissaff ficar sabendo que você anda brincando de trapézio.
Isso é um perígo, menino!”. E o Caçapa,
todo estropiado, teve que ouvir mais essa.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

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