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A estação do verão estava iniciando e
com ela as pancadas de chuva forte, porém, passageiras.
Nos jardins, em frente ao Grupo Escolar, a cobertura vegetal
dos canteiros era de capim amendoim e, na parte central, arranjos
de roseiras e outras plantas de flores muito coloridas, davam
o retoque final.
Na
escadaria de acesso ao platô, onde se erguia o Grupo
Escolar, e nas próprias paredes do educandário,
era possível avistar vários rastros de fios
brilhantes. Que coisa interessante! De dia, refletiam a luz
solar em todo o seu espectro de cor e, à noite, brilhavam
à luz da lua. Pareciam fios de cabo ótico, onde
a sílica deu lugar a um muco gosmento.
Olhando
com mais atenção ao rastro brilhante deixado
nas calçadas e paredes, percebia-se que eles iniciavam
sob a cobertura vegetal de capim amendoim. Abrindo, com as
mãos, uma clareira por entre as folhas arredondadas
do capim, encontrava-se os construtores dos fios brilhantes.
Eram Lesmas e Caramujos que habitavam aquele submundo dos
canteiros floridos dos jardins. Seres de hábitos noturnos,
que detestam a luz do sol e, á noite, saem para acasalar
e para procurar novos locais para se alimentar. Vivem fugindo
de seus predadores naturais - os pássaros e as formigas,
bem como dos predadores eventuais – os pescadores de
rio.
A
Lesma e o Caramujo são aparentados, pois ambos pertencem
ao filo Mollusca ( são moluscos ). Entretanto, sexualmente
falando, têm lá suas diferenças em pequenos
detalhes, visto que as Lesmas são hermafroditas e os
Caramujos são monóicos e apresentam a fecundação
interna e cruzada onde, após cruzamento, ambos ficam
fecundados ( Dicionário Aurélio ).
Numa
noite qualquer dessas de verão, uma certa Lesma Lerda
ficou perdidamente apaixonada por um Caramujo de Jardim. Amor
à primeira vista e de verão, tinha tudo para
ser somente uma aventura passageira. Mas, como dizem, o amor
não tem lógica, é pura emoção.
Depois de vários encontros fogosos e mucosos sob o
capim amendoim, a Lesma Lerda resolveu que era chegada a hora
de encarar a realidade do submundo da zoologia e ter uma conversa
séria com o Caramujo de Jardim. Era a tal da intuição
feminina se fazendo presente até nesses pequenos seres!
A
princípio o Caramujo de Jardim ficou meio reticente
em assumir a relação, afinal, além do
parentesco, a Lesma Lerda era hermafrodita e punha ovos, não
sendo bem vista pela família dele. A Lesma não
deixou por menos e, irritada com aquela observação,
disse que aquilo era uma tremenda canastrice do Caramujo e,
além do mais, se alguém tinha alguma coisa a
perder ali, era ela. Todos naquele submundo sabiam que a família
do Caramujo era hospedeira predileta do Esquistossoma e que,
portanto, o risco de pegar esquistossomose era ela quem corria.
Ademais, se na hora do bem bom, pode, por que na hora do vamos
ver, não dá? Qual é, Caramujo?
Sem
pó para o café, o Caramujo até que tentou
contornar a situação, dizendo que a Lesma Lerda
havia entendido errado. Mas a Lesma era lerda só para
se locomover, nas atitudes era rápida no gatilho. Sem
dar tempo ao Caramujo para tentar contornar a situação,
ela veio com nova argumentação. Mostrou, sem
dar tempo do Caramujo se recolher para dentro do caracol,
as vantagens de juntarem seus mucos. Casa pronta eles já
teriam e nada se comparava à possibilidade de, a cada
parada no caminho sob o capim amendoim, uma transa dentro
do caracol. Essa possibilidade balançou os alicerces
do caracol do caramujo.
Esperta,
e já se sentindo a dona daquele fazedor de caminho
brilhante, a Lesma Lerda lança o argumento definitivo.
A sobrevivência da espécie está diretamente
ligada a melhoria genética dos seres e ai residia a
argumentação da Lesma Lerda. Se ela era hermafrodita
( tinha os dois sexos ) e ele, o Caramujo, na transa também
se fecundava, o filhote que ela colocaria no mundo teria características
dos dois, bem como o filhote que ele pariria carregaria as
características de ambos. Sem contar que, por parte
dela, os filhotes seriam em maior número, pois seriam
gerados em ovos e os que vingassem, estariam mais preparados
para a vida.
O
Caramujo de Jardim ficou tão empolgado com a conversa,
principalmente com a parte sexuada da conversa, que deixou
o caracol de lado para refrescar a cabeça. Refeito
da empolgação, pensou com seu muco: - Essa Lesma
andou lendo a biografia do Charles Darwin. Convencido pelas
explicações e argumentos da Lesma Lerda, o Caramujo
de Jardim topou assumir o compromisso.
Passados
alguns dias, a Lesma Lerda e o Caramujo de Jardim só
eram vistos andando juntos e, vez ou outra, o que se via era
só o caracol balançando. Estavam felizes, mas
sabiam que mais dias menos dias teriam que enfrentar a realidade
da morte. A vida era curta para a sua espécie. E se
estavam de acordo em perpetuar a espécie e melhorá-la
geneticamente, a hora havia chegado.
Na
verdade, a decisão de acasalamento havia sido tomada
na madrugada do dia anterior quando, distraídos nas
brincadeiras de namorados apaixonados, não perceberam
uma mão, eficiente e ligeira, abrindo sulcos no capim
amendoim a procura de iscas para a pescaria. Não fosse
uma pequena brita, que escondia e protegia o casal, as mãos
ágeis do Paulo do Lêle os teria pego. Foi um
sufoco danado, Escaparam por um triz!
Após
o susto, no início da noite do dia seguinte, a Lesma
Lerda e o Caramujo de Jardim trataram de colocar em prática
a perpetuação da espécie. Entraram no
caracol e trocaram juras de amor eterno. Não saíram
mais do caracol até o dia seguinte, no finalzinho da
tarde. Já quase noite, saíram do caracol e foram
a procura de alimentação. Mataram a fome e foram
procurar um local bem seguro para ela depositar os ovos e
ele parir seu filhote.
Nem
deu tempo de curtir as crias. Naquele corre-corre de vida
curta, reproduzir era a tarefa principal e única. Mas
a maternidade e, no caso, também a paternidade, sempre
deixam laços afetivos entre a cria e o criador. A despedida
das crias doeu mais que a dor do parto, mas era esse o rumo
inexorável da vida. A Lesma Lerda e o Caramujo de Jardim
partiram, então, para deixar o submundo dos jardins
e escalar a quase secular parede da frente do Grupo Escolar
Manoel Franco. Estavam tristes, mas resignados com as exigências
que a vida lhes impunha. Acreditavam que tinham tomado a decisão
certa, pois deram o primeiro passo para que uma nova espécie
viesse ao mundo, com mais resistência e com grande poder
de reprodução. Essa crença era que deixava
o casal mais aliviado, pois acreditavam que tinham cumprido
o seu dever.
Passaram
toda a noite escalando a parede do Grupo Escolar. Já
quase de manhã, chegaram ao topo. Uma brisa fraca soprava
no sentido morro onde ficava instalada a antiga torre de televisão
– Pedra do Jaspe. Trataram de entrar no caracol e esqueceram
da vida.
08:00hs
da manhã. A molecada já de pé, começava
a bater bola na rampa de acesso ao Grupo Escolar. O dia estava
bonito, céu azul e de poucas nuvens. Vez ou outra uma
brisa soprava suave. Os raios de sol faziam refletir o rastro
deixado pela Lesma Lerda e o Caramujo de Jardim, na parede
do Grupo. De repente, um sopro de vento mais forte faz com
que o caracol se desprenda da borda da parede e caia na calçada.
A bola, que mal chutada por um moleque pereba, tinha batido
no meio-fio e subido as alturas, desce ziguezagueando, cheia
de efeito, e cai justamente sobre o caracol, pondo fim ao
casal Lesma Lerda & Caramujo de Jardim.
Mas
nada nesse mundo acontece atoa. Por isso não fiquemos
com pena do casal de molusco, pois, na verdade, o que aconteceu
com eles os livrou de uma dor muito maior. O Zé Gomes
estava aplicando, no jardim, um lesmicida novo e de alta eficiência.
O começo da aplicação estava sendo realizada
no capim amendoim, junto à rampa de acesso ao Grupo
Escolar, abortando o crescimento de nova espécie de
molusco.
A
evolução das espécies não é
uma coisa que se dá do dia para a noite. Leva séculos
e, as vezes, milênios. Vejam só quanta dificuldade
surgem no caminho. Em Calçado até acabaram com
o capim amendoim, dificultando mais ainda a vida das Lesmas
e dos Caramujos. Mas são as dificuldades que levam
as espécies a ficarem mais resistentes. Já deve
ter Caramujo de Jardim usando caracol com pára-quedas
e Lesmas pondo ovos impermeáveis e mais resistentes!
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

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