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Pablo Neruda escreveu uma obra muito interessante chamada
O Livro das Perguntas. Nele, em cada página deliram
questionamentos, dos mais óbvios até aos impensáveis.
Perguntar é, conclui-se, o fundamental da poesia. As
artes, em geral, são nada mais do que a eternização
da criança na fase dos por ques. É engraçado
observar, por exemplo, no ônibus, as perguntas que as
crianças desbocadas fazem aos pais no decorrer da viagem...
São dignas de ser anotadas, encadernadas e vendidas:
poesia pura. Lembro-me agora de uma célebre propaganda,
na televisão, em que o filho perguntava: "pai,
por que tudo junto escreve separado e separado escreve tudo
junto?". E saem obras-primas incríveis quando
se parte de uma interrogação.
Nós, latinos, sabemos formular uma pergunta como ninguém.
Sempre me chamou a atenção o fato de, na língua
espanhola, iniciar-se a oração interrogativa
com um ponto de interrogação "de cabeça
para baixo"; isso me soa como mais do que para sinalizar
a entonação que deve vir à frente: serve
para me lembrar que a pergunta sempre traz em si uma bipolaridade
que costuma engendrar possíveis respostas (mas não
vamos falar das respostas aqui; elas são muito sem-graça!).
Dizem que Sócrates ensinava, em sua escola peripatética,
através da "maiêutica", uma técnica
que os construtivistas tentam resgatar e que consistia em
responder à dúvida do discípulo com uma
outra pergunta, partindo da convicção de que
o aprendizado acontece em nós de dentro para fora.
Ou seja, toda pergunta que fazemos já traz em si a
resposta de que precisamos.
Em nossa língua portuguesa, nós demonstramos
isso na expressão basicamente utilizada para fazer
perguntas: com a mesma palavra nós apresentamos a pergunta
e formulamos a resposta. Usamos "por que", assim,
separado, para formular a pergunta; e "porque",
assim, junto, para dar a resposta. Pergunta e resposta estão
muito próximas, e, se olharmos bem, veremos que são
até bem parecidas. Lembro-me de uma professora que
tive no antigo segundo grau, que era muito temida por causa
das provas exigentes que aplicava. Eu nunca fui bem naquelas
provas, até o dia em que descobri o segredo: para tirar
dez, bastava compreender a pergunta, formulá-la de
formas diferentes, reescrevê-la, reescrevê-la
até que ficasse parecida com uma resposta. E sempre
dava certo!
O filósofo René Descartes (1596-1650) fez história
com sua teoria exótica da dúvida metódica.
Segundo ele, tudo deve ser colocado em dúvida, nada
está estabelecido de forma absolutamente certa e garantida.
Nem mesmo a afirmação matemática de que
dois mais dois são quatro pode ser confiável,
pois pode ser que exista "um gênio maligno, astuto
e enganador" que, brincando conosco, nos faça
considerar evidentes coisas que não o são. Se
o critério cartesiano da existência é
o famoso "penso, logo existo", a conclusão
a que chegamos com tudo isso é que "pergunto,
logo penso".
Desde o "to be or not to be? that's the question",
de William Shakeaspeare, sabemos muito bem que não
é a capacidade intelectual de dar respostas que nos
distingue dos animais, e sim, a ousadia e a arte de fazer
perguntas. Concorda?
Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@hotmail.com

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