H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
política eletro-eletrônica




Aperte os cintos e compre roupas íntimas novas: vem aí mais uma edição do programa Big Brother Brasil, para nos lembrar que estamos mesmo na era dos reality shows! Não faça nada antes de observar se existe uma câmera por perto! Cuidado!

Se há uma frase que me faz desistir de entrar numa loja é aquela indiscreta: “sorria, você está sendo filmado!”. Quando eu entro, dali em diante deixo de ser eu e assumo uma máscara qualquer. Não sou capaz de estar livre depois de saber das malditas câmeras. Quem é que continua limpando o nariz ou tirando cravos no espelho do elevador depois que colocaram a danada da espiã eletrônica?

Há um problema pós-moderno nessa necessidade multimidiática de “shows-realidade”. Antigamente, programa íntimo significava uma noite num bordel. Hoje em dia pode ser apenas umas horas diante da TV. Quanto mais se mostra o dia-a-dia de grupos de pessoas diferentes nos meios de comunicação, mais se percebe o quanto temos necessidade de relações íntimas, sem mera coincidência, na nossa própria vida.

O fato de esses formatos norte-americanos usarem a palavra “realidade” nos remete a um problema filosófico que os cientistas da comunicação não conseguem resolver. Se o símbolo do programa é a lente de uma câmera, como é que ele pode ser chamado show de ‘realidade’? A primeira revolução comunicacional das últimas décadas se deu quando o antônimo de real deixou de ser o irreal e passou a ser o virtual. Agora, com esses arquétipos televisivos, vem a segunda revolução: o real e o virtual se arranham mas deixam de se contradizer e se põem debaixo do mesmo edredom.

O que nos interessa se a mocinha sofre de bulimia ou se o cabeleireiro terá que voltar para o seu país de origem? O que acrescenta em nossa vida se a loira malhou demais ou se o estoque de camisinhas da casa se esgotou? Interessa e muito! Mais, talvez, que a quantidade de vítimas do maremoto asiático ou que os números do último indicativo econômico. Há uma inversão de tamanhos na relevância nacional: ter que comer olho de cabra parece mais doloroso que ser bombardeado por tanques de guerra; assistir a corpos molhados dançando o dia todo é mais urgente que ouvir falar de homens-bomba; o relacionamento do fortão com a patricinha é mais importante que o do Executivo com o Legislativo. Não se trata aqui de fazer uma crítica moralista à nossa sociedade e muito menos de protestar por uma censura a determinados programas televisionados. A questão é saber como fazer política num mundo em que a seriedade da vida está em baixa!


Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@hotmail.com