H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
Serpentinas . . .



Viajando de Manaus para São Paulo entrei no avião e comecei a observar as pessoas, que é um dos meus passatempos favoritos: umas andavam seguras de si, outras nem tanto; umas com feições austeras, ou seria medo?, outras sorrindo (com um sorriso maroto daqueles que a gente tem, quando se lembra de fatos gostosos); umas falando alto ou também seria por medo?; umas bem educadas, quando muito carregavam um notebook e uma bolsa de mão, outras exageradas, levavam para dentro do avião, malas que, de nenhuma forma estariam dentro das medidas definidas pelas aviações, mas...., o que fazer? Afinal de contas, a nossa terra está se tornando uma terra sem dono, onde tudo é permitido (basta ver alguns programas de TV, repletos de babaquices e esquisitices).

Voltando à viagem: esse negócio de gente espaçosa é questão de "falta de berço" ou melhor, de falta de educação? Um dilema para se pensar.

Quando cansei de "ler" as pessoas, comecei a olhar para fora e observar as nuvens, que formavam desenhos lindos, suaves, macios, fofos. Nesta performance vislumbrei rostos, aves, árvores, flores, algodão doce, cataratas de águas, cavernas e deixei meu olhar cair na terra.

Assim, a lembrança imediata que me veio, quando vi estradas, ruas, rios foi que eram serpentinas um dia após o carnaval. Sempre gostei de carnaval e imaginando as serpentinas espalhadas pelo chão, meu sonho voou aos bailes que tanto brinquei. Que visão é esta? Carnaval em pleno outubro?

Fiquei pensando que correlação estranha eu consegui fazer: serpentinas no chão, uma, mais uma e outra mais, que se interligavam e iam se espalhando pela paisagem longínqua: as estradas levando o progresso, os rios levando saúde, as ruas levando alegrias e para completar toda esta alegoria, o sol, avermelhado ia se escondendo no horizonte para que a lua se inspirasse a aparecer e, olhando do outro lado do avião, vi a lua se espreitando, envergonhada, mas toda linda, vestida de um branco azulado, fluindo sobre nós todo o seu mistério, anunciando que acabou o dia e eu, absorta nos meus pensamentos, lembrei-me de você, que devagarinho vem me conquistando. Sou lua, és sol. Um dia a gente se encontra.


Eléia Abreu

eleia@uol.com.br