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No final dos anos setenta, Calçado ganhou sua primeira
piscina. Era e ainda é uma piscina imponente, semi-olímpica,
com seus 25x12m e profundidade variável, completamente
preenchida por um volume de mais de meio milhão de
litros de água com uma tonalidade ligeiramente azulada.
Uma jóia a ornamentar o pátio do Ginásio
de Calçado.
Eu
não sei como funciona hoje, aliás, depois das
fotos que vi no Broinha, imagino que esteja a pleno vapor.
Mas, após sua inauguração e durante vários
anos, foi utilizada para a prática de educação
física dos alunos do Ginásio, nos dias de semana.
Nos finais de semana era aberta ao público, mas só
podia freqüentar quem estivesse com o exame médico
em dia.
Eu
acredito que quem freqüentou a piscina nos seus primeiros
anos de funcionamento, deva ter muitas lembranças daquele
período de deslumbramento que ela nos proporcionou.
Hoje pode parecer certo exagero falar assim de uma simples
piscina, mas para aquele tempo, de simples ela não
tinha nada. Ela era completinha da silva xavier, pois possuía
iluminação subaquática, para possibilitar
banhos noturnos, tinha três trampolins de diferentes
alturas, raias e pedestais para competição de
natação, além de uma arquibancada de
concreto, que se estendia por todo seu comprimento de 25m
e mais uns 8 a 10 degraus de altura.
A
piscina foi um acontecimento tão mercante em Calçado,
que nos primeiros anos de funcionamento, quando chegava o
período das férias de verão, nem tínhamos
mais aquela expectativa de viajarmos para a praia. É
claro que não deixamos de gostar do mar, mas se não
fosse possível veranear na praia, a piscina nos bastava.
Nos finais de semana podia o clima estar quente ou mesmo o
dia se apresentar nublado, era na piscina que ficávamos
o dia inteiro.
Nas
aulas de educação física, muitos alunos
e alunas optaram pela aula de natação, deixando
de lado, pelo menos na educação física,
as disputadas aulas de voleibol, de basquete e de futebol
de salão, as mais praticadas até então.
E era nas aulas de natação que aconteciam fatos
hilários. Uma vez, uma turma de alunos de uma série
superior a minha, estava se preparando para iniciar a aula
de natação. Dentre os alunos havia um que se
encontrava reticente em cair n’água, pois não
sabia nadar. Era o João, filho do barbeiro Cardozinho,
mas todos o tratavam de My Jonny.
Os
colegas de My Jonny insistiam para que caísse n’água
e explicavam que a parte rasa da piscina só tinha 1,10m
de profundidade, que não haveria perigo algum. João
estava irremovível de seu propósito de não
cair na piscina, até que um dos seus colegas, percebendo
uma pequena distração, empurra-o para dentro
d’água. P’ra que!!! My Jonny dava braçadas
para tudo quanto era direção, intercaladas com
rápidos afundamentos. Todos pensavam que ele estivesse
brincando, até que perceberam que My Jonny já
estava de olhos arregalados e sem fôlego. Pularam na
piscina e o retiraram já quase sem forças. Foi
nessa hora que todos viram que, de tão apavorado, My
Jonny encolhera as pernas ao cair nas águas da piscina,
e por isso não conseguia “tomar pé”,
submergindo a todo o instante. Apesar do susto que todos levaram,
o fato foi comentado por semanas e My Jonny foi alvo das gozações
por longo tempo.
Nos
finais de semana a piscina se transformava no local onde todas
as gerações se encontravam. Era uma algazarra
danada, com criança chorando, mãe gritando,
Padre Amando dando pito em todo mundo, gente escorregando
na prancha do trampolim e se estatelando na água, o
pessoal da arquibancada gritando para quem mergulhou e a entrada
na água não foi das mais convencionais e etc.
Enfim, era uma bagunça gostosa e alegre. Claro que
não era só bagunça, afinal, Calçado
sempre teve belas meninas e moças, e na piscina elas
se apresentavam ainda mais belas. Então era prazer,
também.
O
Padre Amando era uma espécie de fiscal da piscina.
Ninguém podia correr em volta da piscina e nem pular
a corda que delimitava a borda do deck. Também não
podia deixar de lavar os pés nos recipientes instalados
nas bordas e não esquecer de passar pelo chuveiro antes
de entrar na piscina. Brincar de jogar água nos outros
ou espalhar água para fora da piscina, então,
nem pensar, era pito na certa. E não era uma repreensão
qualquer, todos na piscina ouviam o pito e, para piorar a
situação do infeliz advertido, todos que ficavam
na arquibancada ainda incentivavam o padre a esculachar mais.
O Padre Amando não podia imaginar o que estavam aprontando
para ele.
A
regra que mais incomodava era mesmo a de não poder
espalhar água fora da piscina. Estávamos acostumados
a brincar nos nossos banhos de rio onde, quando não
ficávamos jogando barro um no outro, estávamos
saltando ou mergulhando nas águas do rio, lá
do alto de um barranco. Era água para todos os lados.
Os peixes, coitados, nem se atreviam a passar nos trechos
onde estávamos brincando. Por isso, trecho onde havia
banho de rio, pescador passava a léguas de distância.
Num
fim de semana de verão, encontrava-se a piscina superlotada.
Parecia que a população de Calçado tinha
combinado de se encontrar lá. Haviam filas nos três
trampolins, as bordas da piscina se encontravam todas ocupadas
e dentro d’água, na parte rasa, não cabia
mais ninguém. Na parte mais profunda, onde se praticava
salto do trampolim, só uma área imaginária
para os saltos ficava vazia, sob pena de a cabeça do
mergulhador encontrar a sola dos pés do primeiro que
acabara de pular.
De
repente alguém passa pelo portão e causa um
reboliço só. Era o Crissaff. Já que nós
atrapalhávamos sua pescaria, tomando banho no rio,
ele resolveu que iria perturbar nossa brincadeira, tomando
banho na piscina. Foi uma festa ver o Crissaff com aquele
corpanzil todo, vestido numa peça única ( por
favor, ele estava só de calção! ). Padre
Amando deve ter achado aquilo uma maledicência, mas
fazer o que. Ele é que não iria se meter naquela
questão. Suponho que foi isso que deve ter pensando
o padre.
Passado
o alvoroço daquela entrada triunfal do Crissaff na
piscina, o ambiente voltou ao normal, ou seja, criança
correndo, caindo e chorando, mãe gritando para as crianças
não irem para a parte funda da piscina, o pessoal da
arquibancada zoando quem pulasse mal do trampolim, o Padre
Amando espinafrando com todos, e assim o banho da parte da
manhã já estava chegando ao fim.
No
primeiro degrau da arquibancada, próximo à parede
de divisa da Escola de Aplicação, um grupo formado,
entre outros, por Sebastião (Tião) Carioca,
Lineu e Chicão, conversavam animadamente. Padre Amando,
que conhecia até a alma dos habitantes da cidade, estava
sentado sobre uma cadeira, junto à mesa com sombrinha,
localizada junto à cerca que dava para a quadra, na
lateral da piscina. Olhava para o grupo que estava às
gargalhadas e, contemplativo, fumando seu cigarro, pensava
com os botões de sua batina, pressentindo alguma coisa.
Ou, talvez, tenha recebido algum sinal das alturas e, como
religioso, se resignou e aceitou os desígnios do céu.
Parecia que estava rezando, pedindo o perdão para aquelas
almas brincalhonas.
Lineu
chega perto do Crissaff, que estava sentado na borda da piscina,
na parte mais funda, junto ao trampolim, e pergunta se ele
teria coragem de pular do trampolim. Crissaff arma um sorriso
maroto e diz para o Lineu que se ele mergulhasse, teria que
ficar no fundo, pois, certamente, ele perderia o calção.
Lineu, então, aproveitando a brecha, mexeu com os brios
do Crissaff, afirmando que ele não conseguiria nem
pular em pé do trampolim menor, que ficava próximo
à lateral da piscina. Crissaff manda o Lineu à
m... e diz que só não iria pular porque o trampolim
não agüentaria o seu peso. Lineu rebate que ele
estava era com medo, pois o trampolim envergava mas não
quebrava. Eu vou te provar quem é medroso...Crissaff
levantou da borda da piscina e foi direto para o trampolim.
Subiu e pulou...
Eu
não sei por que essa notícia não saiu
na Ordem, mas Calçado, naquele domingo ensolarado,
com sol de quase meio-dia, conheceu a sua tsunami. Crissaff,
ao cair na água da piscina, vindo das alturas do trampolim,
criou um cogumelo aguático que desabou sobre o Padre
Amando. Do colarinho da batina preta até o dedão
do pé, a água lavou e ensopou tudo. Do cigarro
só sobrou o maço, encharcado e repousando dentro
de uma poça d’água.
-“Senhor
Crissaff, não pode espalhar água da piscna.
Tenha mais cuidado”. Educadamente Padre Amando fez sua
advertência. Sacudiu a batina e se dirigiu para a Casa
Paroquial. Trocou a batina e se encaminhou até a igreja,
indo direto para a sacristia. “Meu Pai, perdoai essas
almas, pois sabes que todos eles têm espírito
brincalhão. Mas aqui na Terra, pode deixar, vou à
forra nas aulas de francês lá do Ginásio”.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br

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