H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
UMA MENSAGEM NADA CONVENCIONAL



Sempre quis escrever uma mensagem para fim de ano; dessas do tipo Receita de Ano Novo de Carlos Drummond de Andrade: “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”... Uma mensagem que conseguisse transmitir os meus palpites mais assertivos sobre uma possível auto-ajuda politicamente correta, sem intenções de arrefecer a tragédia do cotidiano com um drama alienado de palavras adocicadas; uma mensagem que fosse capaz de enumerar, de forma sucinta e clara, as coisas mais importantes que as pessoas em geral gostariam de ouvir ao final de um ano.

Gostaria que fosse uma crônica, ou um poema, ou um conto, qualquer coisa que não parecesse em nada com aquelas mensagens self-service veiculadas por e-mails, essas que encaminhamos – sem ao menos terminar de ler – para todas as pessoas registradas como nossos contatos. E isso porque uma mensagem de fim de ano não pode ser produção em série. Ela deve ser na medida certa, de forma que cada um que a tocar com os olhos sinta que ela nasceu não de uma planilha fria de windows, mas de uma alma aquecida por qualquer sentimento autêntico.

Tentei algumas vezes compor a tal mensagem de fim de ano, com listas de coisas imprescindíveis de se lembrar. Tentei harmonizar versos que bem poderiam ser usados num exame de consciência com sugestões práticas de como compensar no próximo ano o que não deu certo no que termina. Tentei anestesiar, ao longo dos parágrafos, a culpa de nossa futilidade no ano que passou, tornando-a melodiosa e emocionante, dando um jeitinho de fazer passar por singeleza das pequenas coisas o que, na verdade, foi ocupação com coisas pequenas. Tentei, enfim, adaptar a fracassada tática da dieta da segunda-feira àquilo que pareceria uma programação poética do que começar a fazer de novo no ano que se inicia; coisas que seriam anotadas na agenda ao dia primeiro de janeiro e que, irremediavelmente, seriam esquecidas até, no máximo, o carnaval, e seriam empurradas com uma barriga tão grande quanto a de Papai Noel.

O texto que sempre desejei escrever ainda não ficou pronto. Na verdade, eu espero que ele nunca venha a ser escrito de fato. Espero que ele sirva, em minha memória, somente para lembrar que: fim de ano nunca será esse tempo mágico de renovação de nada; réveillon não é mais propício à mudança da minha vida que qualquer outro dia do ano; os pulinhos no mar (a não ser para comemorar), a roupa branca (a não ser para lembrar a paz), o mapa astral, as previsões do charlatão, a cidra servida em taças de champagne, os fogos de artifício (o nome já diz, tão artificial), a contagem regressiva (ainda mais relativa no horário de verão)... tudo isso não passa de símbolos do que devo trazer de real em meu interior.

A novidade é uma criação humana para burlar a rotina e alimentar a esperança num futuro melhor. O calendário jamais conseguirá efetuar uma mudança em si mesmo. O fim do ano não é um tempo de tudo ou nada, mas uma grande continuação. A solução de nossos problemas não está na irrupção de algo novo miraculosamente caído do céu, mas no “eterno retorno”, para lembrar Nietzsche... na afirmação de que “não há nada de novo debaixo do céu”, para lembrar o Eclesiastes. E isso não com o pessimismo da desesperança, mas com a coragem de dar novo significado às coisas que perduram.


Juliano Ribeiro Almeida
julianorial@hotmail.com