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Não vou generalizar afirmando que todos os caciques
da Aldeia Global assumem o poder por tempo efêmero,
o que seria, no mínimo, uma injustiça para com
algumas tribos, cujos caciques são tão eternos
quanto a delonga de seus discursos. Já para outros
caciques, cujo espaço temporal que exercem o poder
é relativamente curto, os reflexos de suas decisões
se prolongam por uma eternidade, devido o poderio de sua tribo.
Existem, ainda, caciques que, sabendo que o tempo é
curto e o poder de sua tribo, pequeno, tratam logo de comprar
umas Demoselles para se locomoverem mais rápido entre
uma aldeia e outra, levando os companheiros guerreiros a antigas
tribos, nas quais, outrora, traçaram mil planos.
Vivemos
na Aldeia Global e somos da tribo Brasil, dos bravos guerreiros
tupiniquins. Atualmente quem representa nossa tribo é
o cacique Lula, também conhecido como Companheiro Lula.
Da mesma forma, quem atualmente representa a tribo EUA, dos
guerreiros ianques, é o cacique Bush. Independentemente
de quem seja o cacique da hora da tribo americana, ele é
mais conhecido pela alcunha de Tio Sam.
E
assim, nessa Aldeia Global em que todos vivemos, temos todos
os tipos de Caciques. Numa amplitude que vai do antropófago
escalpelador ao bonachão boa gente, passando pelos
caciques que são reis mas não mandam nada, pelos
que deveriam mandar mas não têm coragem de fazê-lo
e pelos que têm tanto poder que, por isso, se acham
no direito de mandar em todas as outras tribos.
Para
fazer uma visita a uma tribo dessas que têm tanto poder,
não é nada fácil. Primeiro, e ai manda
a boa regra de educação, há a necessidade
de um contato preliminar, para que a tribo visitada não
seja pega de surpresa ou, até mesmo, para que nós
não venhamos a dar com a cara na porta da oca palaciana,
pois existe, sempre, a possibilidade de o cacique estar reunido
com seus chefes guerreiros tramando uma nova guerra ou mesmo
discutindo os rumos da que está em andamento.
Feito
o primeiro contato com a tribo poderosa, no caso a tribo EUA,
percebe-se que as ordens de seus chefes guerreiros são
cumpridas com extremo rigor pelos seus guerreiros ianques.
Situações constrangedores e inusitadas se sucedem.
Não existe a menor boa vontade, por parte da tribo
EUA, em receber visitantes de outras tribos. A princípio
o melhor negócio seria não visitá-los,
ou só visitá-los em último caso, quando
a visita for por uma boa causa própria. Nesse caso,
submete-se às pagelanças de praxe, engole-se
sapos e, com a tenacidade de quem sabe o que quer, segue-se
em frente, pois atrás a fila só cresce, infelizmente!
Há
uns meses atrás, uma guerreira tupiniquím precisou
pedir permissão ao Tio Sam para uma ida até
a tribo EUA, pois estava para ir a América trabalhar,
aproveitando o período de suas férias escolares.
Como toda tribo poderosa e, agora também, apavorada,
os chefes guerreiros do Tio Sam já se encontram com
todas as perguntas engatilhadas: O que ela pretende fazer
lá, quanto tempo pretende ficar, se tem dinheiro suficiente
para se manter ou emprego certo e, até mesmo, se irá
ganhar o suficiente para sobreviver. Além, é
claro, de exigir que a visita fosse marcada formalmente e
que apresentasse o cartão de visita (passaporte) devidamente
carimbado pelos seus chefes guerreiros instalados numa das
ocas existentes na tribo Brasil.
Para
carimbar o passaporte era necessário, primeiramente,
marcar uma entrevista em uma das ocas consulares da tribo
EUA aqui no Brasil. A taba de Vitória não tem
instalada uma oca consular americana, ficando a mais próxima
na taba do Rio de Janeiro. A entrevista foi marcada para uma
segunda-feira, dia 08/11/04, às 09:00hs, com as seguintes
recomendações: Trazer contrato de trabalho assinado,
contra-cheque e extrato bancário dos 3 últimos
meses, cartão de visita ( passaporte ), cópia
da última declaração do imposto de renda,
foto 5x5 com fundo branco e preencher as fichas nºs 156,
157 e 158, sem deixar nenhum campo em branco.
Para
marcar o dia da entrevista foi até fácil. Com
a ajuda do sistema de comunicação em redes de
computadores, uma revolução tecnológica
inventada pelos guerreiros do Tio Sam, que veio a substituir
o velho sistema de mensagens, via sinais de fumaça,
que todas as tribos utilizavam, e acessando o "site"
da oca consular americana na taba do Rio de Janeiro, marca-se
a entrevista.
Como
a tribo do Tio Sam não faz a menor questão em
receber bem e, por influência de guerreiros excêntricos
que usam cabelos em cachos e um estranho chapéu, vindos
de outras tribos e que dão muito valor a uma especiaria
verde largamente utilizada no escambo global, a entrevista
marcada só é realizada se, antes, for paga uma
taxa de U$$ 100 ou R$ 300,00. O pagamento da taxa só
poderá ser efetuado na rede de um banco da tribo, o
Citibank, um divertimento que os tais guerreiros excêntricos
apreciam muito brincar ( Eles até criaram um jogo -
Banco Imobiliário. Quem ainda não brincou ?).
É para uma dessas agências que deve-se dirigir,
levando o número do cartão de visita (passaporte)
para efetuar o pagamento da taxa, pois, por medida de segurança
- eles estão ficando paranóicos com relação
a segurança - , não se pode emitir um boleto
bancário eletrônico para pagamento via Internet.
A
taba de Vitória não tem, ainda, o prazer de
possuir uma agência do Citi. Então, o jeito é
ir até a taba do Rio ou solicitar alguém que
pague a taxa no Rio ou contratar um guerreiro despachante,
que faz o serviço por módicos R$ 80,00, elevando
o valor da taxa para R$ 380,00, ou seja, um pouquinho mais
de 2 salários mínimos que os bravos guerreiros
tupiniquins recebem após um mês de trabalho.
No
dia e hora marcados para a entrevista, a guerreira tupiniquim
chega na oca consular americana, localizada na taba do Rio
de Janeiro, e o auditório já se encontrava lotado.
Fala ao guerreiro postado na portaria da oca que a entrevista
estava marcada para às 09:00hs, e recebe como resposta
que o horário marcado era só para controle da
oca consular e que o atendimento é feito por ordem
de chegada.
Entra-se
na oca ianque. O velho ditado que diz que índio quer
apito, se não der o pau vai comer, ainda está
valendo, mas só para índio EUA. Para o índio
tupiniquim, o negócio da hora é entrar na fila
ao menor som de um apito. É fila para verificar se
as fichas estão preenchidas corretamente, fila para
tirar a impressão digital e fila para a entrevista.
Na entrevista, caso a solicitação de visita
seja aceita ( visto no passaporte ), entra-se numa nova fila
para efetuar uma nova cobrança, dessa vez uma taxa
de U$$ 40 ou R$ 120,00 que, acredita-se, deva ser de agradecimento
pelo Tio Sam ter aceito o pedido de visita à sua tribo
Como a oca da guerreira tupiniquim não fica na taba
do Rio de Janeiro, aproveita-se a mesma fila para efetuar
o pagamento de R$ 38,00, para cobrir despesas com o envio,
via Sedex, do cartão de visita (passaporte), já
com o visto devidamente autorizado e endereçado para
a oca, na taba de Vitória, onde chegará num
prazo de 5 dias úteis.
A
entrada na oca consular americana foi às 08:30hs e
a saída se deu às 14:00hs. Por uma magnanimidade
dos guerreiros do Tio Sam, foi concedido o visto no passaporte
e a guerreira tupiniquim saiu da oca consular com um misto
de alegria, tristeza, raiva e pesar. Sentia alegria pela "concessão"
do visto; sentia cansaço pela demora no atendimento;
sentia ridicularizada pela forma de como são aplicados
critérios subjetivos para aceite ou não do pedido
de visita; sentia impotente pela obrigação de
mostrar documentos que quebram seu sigilo bancário
e fiscal, um direito garantido pela constituição
de sua tribo. Por fim, sentia um profundo pesar pelo Tio Sam
e pelos chefes guerreiros da tribo EUA, que, pelo poderio
que tem - e põe poderio nisso, ainda se acham no direito
de interferir nos assuntos internos de todas as tribos globais,
atiçando a ira de tribos menos submissas e, em conseqüência,
submetendo seu povo a ter medo da própria sombra e
a viver na ilusão de que o que é bom para a
tribo americana é, necessariamente, bom para todas
as tribos.
Ah,
Brasil! No dia em que teus filhos guerreiros não mais
necessitarem de suprir suas deficiências nas tribos
dos outros, aí terás um povo a chamá-lo
de impávido colosso e verás que teus filhos
guerreiros não fogem à luta e nem temem o futuro,
que espelha a tua própria grandeza. Sê gentil
para com teus filhos guerreiros, pois és Tribo amada,
Brasil.
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br


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