H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
Vovó Clementina

(Reminiscência da infância em Calçado)


Meu pai sempre dizia que os escritores só devem escrever sobre coisas que entendem e da forma mais simples possível. Diz também que escrever complicado é muito mais fácil. É só escrever uma frase do jeito que sabe, pegar o dicionário e substituir as palavras por outras mais complicadas. “Aí a gente fica “erudito” e o dito pelo não dito”, terminava ele em tom de brincadeira, mas fazendo cara de sério. Acho que se conseguir escrever histórias como a vovó Clementina conta as suas, já me darei por satisfeito. Aquilo sim é que é saber contar uma história. Ela não era minha avó, apenas uma velhinha que pedia esmolas nos dias de festa na cidade e que mamãe deixava ficar morando lá em casa.

De todas as pessoas que mamãe acolhia, Vovó Clementina era a mais animada. Ninguém sabia de onde vinha nem para onde viajava depois de ir embora. Dava a impressão de estar constantemente de passagem, mas às vezes ficava semanas morando lá em casa, quase sempre coincidindo com o nascimento de algum irmão. E aí ela não era apenas mais uma velhinha contadeira de histórias, mas uma ajudante de primeira. Será que ela era um anjo ou coisa parecida que vinha ajudar minha mãe naqueles dias tão difíceis ? Meu avô, Papai Chiquinho, também chegava sempre no dia seguinte ao nascimento e pegava um pouco da canja de galinha do resguardo, que era uma comida especial para as mães que tinham nenéns.

Mal ela chegava, arriava a trouxinha misteriosa e arranjava um cantinho para dormir. De noite, a gente se reunia à sua volta e ouvia histórias até à hora de ir deitar em nossas próprias camas. Seu repertório parecia não ter fim e, a cada ano, se renovava apesar dos personagens serem quase sempre os mesmos, o que me deu uma boa idéia para quando começasse a escrever minhas próprias histórias. O que não era novidade, pois meu escritor favorito, Monteiro Lobato, já fazia isso com o seu “Sítio do Picapau-Amarelo”. Mas sua trouxa era o que me dava maior curiosidade, talvez porque nunca deixava ninguém mexer nela. Sempre desconfiei que ela fosse uma fada madrinha e era ali que guardava suas poções mágicas e as varinhas de condão.

Vovó Clementina tinha preferência pelas histórias românticas, com príncipes encantados, ciganos de olhos verdes e princesas aprisionadas nas torres de castelos. Seus olhinhos apertados e a voz de falsete aos poucos nos transportavam para a Idade Média com seus reis, rainhas, plebeus, aldeias e carruagens. Às vezes assustava, fingindo ser uma feiticeira malvada prestes a cometer uma maldade com alguns personagens, mas logo se transformava em um príncipe vindo em socorro deles. Em suas histórias sempre havia um príncipe apaixonado ou uma princesa abandonada.

Assim ela seguia, contando suas histórias entremeadas de canções e muito suspense. Acho que era um dom natural, herdado de gerações e gerações de contadeiras de histórias. Um dia, sem querer ou por ser muito curioso, descobri o mistério de sua trouxinha. Estava de partida e na hora da arrumação espalhou sobre a esteira todas as bugigangas que estavam dentro dela. E ao invés de poções mágicas e varinhas de condão, o que apareceu foram velhos retratos com molduras encardidas e santinhos de sua devoção. Na certa, lembranças de filhos, netos e de meninos como nós, também ouvintes de suas histórias, que encontrava nas festas religiosas de outros lugares distantes.

E assim se foi para sempre o mistério e, por coincidência, a própria Vovó Clementina, com suas histórias e encantamentos. Nunca mais voltou a minha cidade. Sumiu tão misteriosamente como quando havia aparecido pela primeira vez lá em casa. Assim como faziam os heróis de suas histórias. Nunca soube de sua morte, simplesmente desapareceu. Hoje acho que viver é isso. Os anos e as pessoas passam e a gente não pode fazer nada para impedir. Como suas águas, meu bom ribeirão, que vêm de mansinho lá do alto da serra, passam debaixo da ponte e somem na curva onde aquele ingazeiro preguiçoso debruça no pôr-do-sol.

Pedro Teixiera