A CICATRIZ NA TESTA DO CAÇAPA


No tempo que ainda se fazia exame de admissão para estudar no ginásio, a turma do 4º ano do Grupo Escolar Manual Franco, da qual eu fazia parte, se preparava para enfrentar essa terrível prática educacional. Não que os métodos adotados eram terríveis, mas sim a concepção de uma prova eliminatória, onde o aluno que não alcançasse a nota mínima estipulada ( não me recordo se era 6 ou 7 ), não poderia freqüentar o 5º ano do ensino de primeiro grau. Nesse caso, teria que repetir o 4º ano e tentar passar na próxima prova de admissão, atrasando 01 ano inteiro os estudos.

Pois bem, essa era a regra, e não havendo outro jeito, tínhamos que encarar a realidade. Na parte da manhã, aulas normais do 4º ano, e na parte da tarde, aulas de reforço do que já havíamos estudado. As aulas normais do curso eram dadas no Grupo Escolar, já as de reforço para a admissão, eram ministradas fora do Grupo. Inicialmente na garagem da casa da professora Magali Bueno. Posteriormente fomos transferidos para o sótão da casa do senhor Lelê. Ambas as casas ficavam na ladeira onde residia o senhor Aymbiré.

Aliás, o sótão onde estudávamos, era o local ideal para desfocar a atenção dos alunos ao conteúdo das matérias e, conseqüentemente, criar um ambiente de muita conversa paralela e, às vezes, até os próprios professores se distraiam. No local eram guardados mantimentos da casa, bem como apetrechos de montaria de animais, sacos de milho, arroz e feijão, fardos de fumo de rolo e folhas de fumo postas para secar. Na parede dos fundos, um grande vão aberto dava vista para o quintal, cheio de árvores, pássaros e galinhas. Vez ou outra, para desespero dos professores, um passarinho fazia-nos visita e, atordoados com o alvoroço que produzíamos, perdiam, momentaneamente, o senso de direção e custavam a achar o caminho de saída. Outras vezes eram os diálogos dos vizinhos, mais especificamente dos empregados das casas que, sendo quase todos de nenhuma ou pouquíssima instrução, provocava uma verdadeira crise de risos em toda a turma. Lembro de uma vez, quando a turma estava toda em silêncio ( coisa rara!), prestando atenção no que a professora estava explicando, e ouvimos a seguinte pérola:”Ô instrupício di minino, num tá vendo qui u café tá frevendo! Praga sô, gora fica aí cum a língua ardindo. É inté bão, que aí ôce para di lembê as meleca das fuças”. Não teve jeito, a risadaria antecipou em alguns minutos o horário do recreio.

Mas, tirando algumas brincadeiras que rolavam antes e depois do turno extra de estudos, era terrível conviver com a realidade de que nossas tardes de pelada foram reduzidas para somente 2 dias – sábados e domingos. Esses pensamentos, às vezes, nos deixavam angustiados e isso se refletia na sala de aula. Tinha dias que as conversas paralelas eram tantas, que o zum-zum-zum no sótão não deixava que os alunos, que se encontravam sentados mais ao fundo da sala, ouvissem as explicações ou mesmo o que a professora estava ditando. Até o esforçado sabiá laranjeira, que produzia um fundo musical no ambiente, equilibrando sobre um galho seco de pé de mamona, se desiludia com o pouco caso da turma para com o seu canto e ficava mudo, ou batia asas e ia cantar em outra freguesia.

Foi num desses dias que o Caçapa foi premiado com uma cicatriz no meio da testa, por obra e arte de uma caneta Bic, sem tampa, desferida por uma professora que, pela insistência com que vinha solicitando a turma para falar mais baixo, e a recusa da turma em atendê-la, se viu, num momento de fúria, compelida a atirar no aluno mais falante do grupo, o objeto que estivesse mais à mão. O Caçapa teve sorte, porque poderia ter sido pior. Havia sobre a grande mesa, ao redor da qual parte da turma estudava, e bem na cabeceira, onde estava a professora, uma régua de madeira daquelas bem compridas e grossas, um grampeador e uma caixa de giz. Na hora da raiva, a professora, que tinha um braço canhoto poderoso e uma mão certeira, segurava uma gloriosa caneta Bic, escrita fina, sem tampa.

Num gesto de braço, rápido e violento, a caneta Bic foi varejada em direção ao aluno que estava no outro lado da mesa, na cabeceira oposta onde se encontrava a professora. Os alunos que se posicionavam nos lados da mesa viram, como num super slow-motion, aquele mini míssil, de ponta cônica confeccionada em aço inox, corpo em acrílico transparente, com a carga em azul, numa trajetória perfeita e sem variação de altura, girando ao redor de seu próprio eixo, passar diante de seus olhos em direção ao alvo pré-determinado.

Caçapa, que estava de perfil, conversando com um colega ao lado, sentiu, por puro instinto, que algo vinha em sua direção. Em fração de segundos, fixa os olhos arregalados num ponto do espaço onde se encontrava a professora, como que não acreditando no que estava para acontecer. O míssil, ou melhor, a caneta, acertou bem na mosca, um dedo acima do pau do nariz, num ponto eqüidistante entre um olho e outro. Um silêncio profundo invadiu o sótão, e a realçá-lo só o tilintar da Bic rolando pelo chão, com seu corpo cilíndrico facetado em sete lados e a ponta cônica em aço inox, ligeiramente manchada de vermelho. Ao encontrar com o obstáculo de um rolo de fumo, a caneta para de rolar. Finalmente a professora fora atendida, reinava silencio absoluto. Jazia num canto, junto ao fumo de rolo, uma caneta Bic, provavelmente inutilizada para a escrita, em virtude do dano causado no receptáculo da esfera de aço. Sentado na cadeira, mudo, e sentindo um pequeno filete de sangue escorrer pelos dois lados do talo do nariz, Caçapa, sempre ele, espanta o silêncio pra bem longe e irrompe num berreiro tremendo. Pronto! Terminou a aula. Bendita caneta.


GILBERTO VIEIRA DE REZENDE




 

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