H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
A IMPORTÂNCIA DO PROGRESSO NA EVOLUÇÃO DO ESPÍRITO



Dois espíritos, Tonho e Totonho, encontram-se conversando numa faixa do espaço compreendida entre a atmosfera e o espaço exterior, lugar para onde sempre voltavam após cada estágio evolutivo cumprido na Terra. Conversavam a respeito do progresso que, ultimamente, tem-se verificado na Terra e, conseqüentemente, os efeitos bons e ruins que advinham desse progresso. De um telão panorâmico, podiam ver qualquer território que desejassem e, por coincidência, ambos tinham estado na última encarnação em São José do Calçado. E assim se desenvolveu a conversa:

- “Olha lá, Totonho, veja o resultado do progresso!”. Tonho apontava em direção a subida para hospital São José, onde umas poucas pessoas caminhavam em direção ao cemitério. A maioria tinha ido de carro e já se encontrava velando o corpo na Capela Mortuária, já bem pertinho do campo santo local. “Tá vendo, Totonho? Você que não perdia um enterro, não acha que com essa invenção de Capela Mortuária, houve um certo desprestígio dos mortos?”. Tonho não se conformava em ver um velório que tinha tudo para ser dos grandes, sendo relegado a meros cumprimentos protocolares e conversas sem interesse dentro de um salão.

- “Sabe de uma coisa, Tonho, o corpo em que eu estava encarnado gostava de acompanhar os enterros, mas não ficava muito próximo do caixão, não. Aquelas ladeiras davam um cansaço danado, e era só a gente chegar um pouquinho mais próximo do caixão e já ofereciam a alça para ajudar a carregar. Antes de chegar na igreja, passando por aquela subida mais íngreme por entre os jardins, dava um suador danado, mas as badaladas dos sinos revigoravam as forças. Agora, da igreja até o fim da subida do hospital, parecia que o corpo do morto ganhava peso. Nesse trecho a rotatividade nas alças era grande. Mas não pense que era falta de solidariedade, era, isto sim, extinto de sobrevivência mesmo. Certa vez o corpo de Totonho teve uma tontura quando estava carregando o caixão, debaixo de um sol a pino, e quase foi na carona. Para falar a verdade, em uma de minhas últimas estadas na Terra, posterior a existência material do Totonho, de quem mantive o nome, cheguei a conhecer um sistema do carrinho tipo maca, com rodinhas, que carregava o caixão e uma coroa de flores na frente. Ficava bonito e era bem prático. Se no meu tempo terreno, quando incorporava o Totonho, já tivesse essa modalidade de transporte fúnebre, talvez eu pudesse acompanhar o morto mais de perto, sem receio de passar mal subindo as ladeiras segurando as alças do caixão.”

- “Isso lá é verdade, Totonho! Tonho, em quem eu estava incorporado na Terra, também não era chegado a carregar caixão, mesmo porque, trabalhava como vendedor de leite e vivia com as pernas inchadas de tanto subir e descer as ladeiras, e os ombros doloridos de carregar uma vestimenta bem parecida com um guardador de sapatos, daqueles que se prende atrás das portas, só que ao invés de sapatos, carregava era litros de leite. Aliás, gostei do nome Tonho e o adotei aqui em cima. Não vou mentir, segurar aquelas alças doíam um pouco os ombros. Mas eu, agora, estou lembrando dessa maca de rodinhas. Não era, também, do tempo terreno do Tonho, mas concordo que a maca com rodas mantinha o status quo de um enterro digno. Muita gente subindo as ladeiras, reencontros de conterrâneos ausentes, muita conversa, algumas piadas de salão e etc. Empurrar o carrinho do caixão nem era sacrifício e muita gente se apresentava para ajudar. Sem querer ser deselegante, carregar um caixão pela alça, e em dia de sol, era penitência elevada para os possíveis pecados cometidos. Achei a idéia da Capela Mortuária um desrespeito para com o morto.”

- “Pois é, meu caro Tonho, progresso e evolução são assuntos corriqueiros aqui em cima, como sabemos. Ouço muito esse assunto e já pude perceber que o progresso é irmão siamês do pouco esforço físico. Não adianta ficarmos aqui enaltecendo o modo dos enterros antigos. Não vê o que está ocorrendo nas grandes cidades! Tem corpo que nem mais é enterrado. Simplesmente são cremados e as cinzas são entregues para quem de direito. Já vi, daqui de cima, as cinzas serem jogadas ao mar, das alturas de um belo convés de um trans-atlântico que partia para o mar Egeu, num tour pelas ilhas gregas.”

- E não é que é mesmo, Totonho! Um dia eu vi uma cena parecida. Só que as cinzas foram guardadas num bonito recipiente de madrepérolas e colocadas no alto de uma bela estante de jacarandá, na sala de estar da casa. Meses depois, um colega evolutivo que tinha visto a cena junto comigo, disse que a empregada da casa, ao fazer a faxina, havia derrubado o recipiente de madrepérolas, espalhando cinzas na prateleira da estante. Achando que era sujeira, imediatamente pegou o aspirador de pó e aspirou tudo, recolocando o frasco de madrepérola no mesmo lugar. Até hoje não deram pela falta das cinzas. Agora eu entendo porque, após a morte, se desencarna tão rápido. Não sei o que seria sofrer mais, se ficar debaixo de sete palmos de terra ou arder em altas temperaturas. Olha..., aqui pra nós, o corpo padece na Terra!

- “E como padece, Tonho! Mas o espírito também não escapa do sofrimento. Me lembro de uma fase minha na Terra, quando puxava lenha para as residências e as padarias. Naquele tempo quase todas as residências possuíam fogão à lenha. Fogão à gás era uma raridade. Eu acordava bem cedo, madrugada ainda, cangava as juntas de bois e ia lá para os lados do Jaspe apanhar lenha, e só voltava já no final da tarde. As ruas eram de chão batido e não havia problema no trânsito com as carros de bois. Depois – olha o tal do progresso ai!, cobriram as ruas com paralelepípedos e comecei a pagar meus pecados na Terra. As ferraduras que calçavam os pés dos bois, para proteger o casco, passaram a ser um tormento, pois os bois viviam escorregando nos paralelepípedos. Os estrumes, que antes se misturavam com a terra, passaram a ornamentar as pedras do arruamento. E para piorar a situação, os próprios moradores passaram a criticar a sujeira e o cheiro deixados em frente às suas casas. Então passei a puxar lenha de madrugada. Passaram, então, a reclamar que o carro de boi cantava muito alto e estava atrapalhando o sono. O que eu podia mais fazer? Só trocando a posição das juntas de bois, passando os bois guia e contra-guia para trás do carro não adiantava, pois naquelas ladeiras íngremes, enfeitadas com os paralelepípedos, se não apertasse bastante a haste do freio junto às rodas ( daí vinha a cantoria ), o carro desembestava ladeira abaixo, e com os bois juntos. Troquei, então, os rodões de madeira por um eixo de automóvel e dois pneus em cada extremidade. Achei que tivesse resolvido o problema, mas o progresso foi mais rápido. As padarias passaram a usar forno a gás e nas residências já quase não se via mais fogão à lenha. Joguei minha última cartada, passei a puxar arroz e milho para a serem beneficiados na máquina do senhor Alciro, lá na Vala. Não demorou muito e ninguém mais queria saber de mandar pilar arroz e moer milho. Desisti. No hotel que minha esposa gerenciava, passamos a cobrar diária só com café da manhã”.

-“Nem me lembre desses assuntos de trabalho, Totonho. A minha sina foi parecida com a sua. Todo dia, bem cedinho, carregava meus litros de leite para ser entregues na cidade. Tinha freguês certo. Um belo dia começou um convercê de que o leite poderia estar contaminado com a tal da brucelose. Comecei a perder freguês. Veio, então, a Cooperativa e despachou a “vaquinha” para a cidade, vendendo leite pasteurizado e geladinho e na quantidade que o freguês desejasse. Meu negócio ficou inviabilizado. Passei a produzir queijo e, na época das goiabas, também fazia goiabada cascão. Meu negócio caiu no gosto do povo, freguesia cativa e estava tudo caminhando bem. Mas o progresso foi implacável! A Cooperativa passou a produzir queijo minas, queijo prato, requeijão e manteiga. A industria, por sua vez, passou a produzir doce de leite, goiabada, bananada e etc. Não agüentei a concorrência. Vendi as vacas, arrendei meu sítio, aluguei uma casinha na cidade e morri por lá mesmo”.

-“Vou falar uma coisa pra você, Tonho. Eu acredito que, pela rapidez que as coisas estão acontecendo na Terra, as reencarnações se darão de forma mais lenta e em menor número. Acho, até, que no futuro, os desencarnados serão eternos aposentados”.

- “Por que você acha isso, Totonho?”

- “Veja você que lá na Terra estão mapeando todos os genes do corpo humano para, entre outras coisas, evitar futuras doenças. Também estão fazendo pesquisas com células-tronco, que recriam qualquer órgão que venha a apresentar problemas de funcionamento. Isto tudo vai levar, inevitavelmente, ao prolongamento da estada na Terra. E esse prolongamento fará com que o espírito encarnado passe mais tempo evoluindo e, com isso, haverá menor número de reencarnações e essas reencarnações serão, sempre, mais tranqüilas, pois a passagem na Terra será mais amena. Percebeu a dimensão da coisa, Tonho?”.

- “Não tinha pensado nessa evolução toda. Mas, agora, juntando alguns fatos, vejo que tem razão. Numa conversa que tive algum tempo atrás, numa roda de espírito mais evoluídos, ouvi alguém dizendo que conhecia espíritos mais novos e que estavam no mesmo patamar evolutivo que ele, que já tinha feito diversas reencarnações. Agora, pensando no que você disse, talvez esse espírito mais velho não tenha percebido que, como as pessoas morriam mais cedo na Terra, havia, naturalmente, mais reencarnações, pois o tempo era curto para que o aprendizado fosse bem assimilado. Com as pessoas vivendo mais tempo e em melhores condições, melhor e mais bem preparado fica o espírito, não necessitando de muitas outras voltas à Terra. Vou pensar mais nesse assunto, Totonho.”

- “Pois eu já pensei bem nisso, Tonho. Estou até me preparando para daqui mais umas 3 reencarnações, ser um eterno aposentado, ficando por conta só de tirar algumas dúvidas dos espíritos aprendizes e companheiros.

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br