A PALAVRA NA ERA VIRTUAL


Escrever, escrever, escrever... Sem visar o literário, impondo à palavra sentidos, razão que a própria razão desconheça não é casual. Indício de que emoções explodem, ecoam e caem como matizes, nas folhas. Velhos diários! Lembranças de São José ... Interior capixaba, distante. Estávamos feitos de palavras! Ou ainda estamos?

Aqui, sufocantes sons! Decibéis não oriundos de músicas. A caminho do trabalho, sem essa de saborear o canto de passarinhos, peregrinos nas antigas catedrais buscando refúgio junto aos sinos que se calam ou, se há repicar... perde de maneira inaceitável para esse barulho aliado à pressa dos batalhadores, caracterizados em terno e gravata ou de batedores de ponto.

Assim, nem mais nem menos, surge de repente uma causa justa para eu escrever poucas linhas, um registro, não mais que isso.

Vale uma cena do trânsito; um simples acontecimento do dia: um tombo, um encontro, um desencontro, um acaso ou você: vã, sábia, santa ... Ainda nos resta a palavra! Faz tempo, já tivemos mais afinidade! Vou desfolhando revistas esparramadas na mesa e destacando fragmentos de textos inusitados.

Um universo de recados, a sós. Quero desvendar seus segredos! Engana-me! Tem o encanto de ser aquilo que nunca imagino que seja.

É um prazer encarar uma esfinge... Ficar frente a frente com o quadro da Mona Lisa e não saber o porquê do sorrir; o adolescente sabe que a coleguinha é anatomicamente diversa e isso o aproxima ao exame da provável diferença. São desafios que explicam o meu entretimento com elas e, como o pensamento bem diz: “é o maior espetáculo que o homem encena”. É mágico o que elas provocam nas pessoas!

Tudo começou quando minha potencialidade verbal cronologicamente combinava comigo, quando eu soletrava em alto e bom som, o meu primeiro conto, para aparecer, aparecer ... Ganhei um almanaque de presente! Cortesia da Casa que trazia numa forma curvilínea no alto da fachada, em letras bem grandes:
“PHARMÁCIA”. Quanta emoção! Tal qual à que se dá no ato de uma criação muito almejada na vida. Descobrir o significado dos signos! Penetrar no universo dos gráficos e captar a mensagem na simples carta enigmática da revista. O prêmio não me interessava tanto, um frasco de extrato de ovo para a rebeldia dos cachos.

Foi o ponto de partida decisivo à escolha da minha profissão, que é o mundo do intercâmbio dos saberes! Entramos na geração computadorizada, de alta tecnologia. Há meios poderosos que nos permitem visitar amigos ou parentes distantes, fazer viagens virtuais maravilhosas, por aí afora, sem precisar do calor contido nas palavras. Temos respostas precisas para todas as nossas dúvidas; fazemos pagamentos, transferências, compras no mercado ... Milhares de transações a distância, entre um piscar de olhos e outro. Navegamos ... Conhecemos praias lindas mas, não sentimos o massagear das ondas e o pôr do sol lá fora é indiferente a esse processo do desenvolvimento fabricante, além de toda a magia, de síndromes.

A palavra perdeu a abrangência. O ser humano encolheu. Louva o que lhe parece mais prático: vida eletrônica cercada de cortinas, silêncios, silêncios... Dão à palavra o significado de pedra, nos acostumamos com ela, objetiva e fria.

“Por onde tem andado seu retumbar qual tambores, sua força máxima que move e comove, seu ímã que prende, sua profundidade oceânica e seu fogo que acende a fé, a paixão, o entusiasmo e a vida? E o encarnar em nosso verbo toda a nossa alma?”

Deve voltar a brilhar! Visto que o homem, ora tão frágil em detrimento da era, vai precisar buscá-la no seu sentido maior para aquebrantar suas inquietudes porque, gotas homeopáticas somente não bastam para curar eventuais sintomas...

Ester Francisca de Assis Gomes

 



 

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