ALÔ CACHOEIRO, CALÇADO NA ESCUTA!!!



Ontem, em Calçado, era inimaginável pensar a forma e o modo com que, hoje, nos comunicamos com nossos conterrâneos que se encontram alhures. Quem não se lembra das dificuldades de comunicação que existia? Os jornais chegavam com um dia de atraso, quando as condições das estradas eram boas. Se, por um acaso, o tempo estivesse chuvoso, a notícia que chegava era requentada e suja de lama. Nos dias chuvosos, os ônibus que traziam os jornais do Rio de Janeiro e de Niterói, chegavam bem até Campos, pois a estrada era asfaltada. O problema era de Campos para frente, até chegar em Bom Jesus. Encarar os atoleiros não era nada fácil, mesmo com o artifício de vestir as rodas dos veículos com correntes de ferro, para que elas não patinassem no barro. Para chegar até Itaperuna e depois Bom Jesus, os ônibus cortavam um dobrado. Normalmente a viagem, partindo do Rio de Janeiro ou de Niterói, até Bom Jesus, durava quase o dia inteiro. Com chuva, não se tinha previsão de chegada.

Outro veículo que fazia chegar notícias em Calçado, era a empresa estatal Correios e Telégrafos. A eficiência e rapidez dos Correios na entrega das correspondências, estava diretamente ligada às condições meteorológicas, pois eram os ônibus que traziam os malotes. Já no que dizia respeito aos Telégrafos, estes sim eram muito mais rápidos na transmissão das notícias. Entretanto, como as notícias eram transmitidas em código Morse, os sinais impressos na fita eram decifrados e a palavra era escrita na folha do telegrama, em muitos casos sem a devida pontuação. Chegava telegrama com frases truncadas e até de duplo sentido, alguns causavam certo alvoroço. Era um Deus nos acuda para interpretar a notícia corretamente.

O meio mais moderno de comunicação que existia em Calçado era o Telefone de manivela, mas não pensem que em toda casa havia um. Na verdade ninguém possuía um. Havia um Posto Telefônico Público na casa da dona Aída, e era de lá que Calçado falava e o mundo ouvia, não necessariamente nesta mesma ordem e nem com esta aparente facilidade. Pode-se resumir numa palavra o que era fazer uma ligação telefônica para Calçado ou de Calçado: Tormento!

Como já bem o disse o enviado especial do Broinha.com nos Isteitis, Marshall Sheriff Piriquito, uma ligação telefônica de Calçado para algum lugar do mundo ou de algum lugar do mundo para Calçado, fazia um percurso muito doido. Originasse a ligação telefônica de que lugar fosse para Calçado, obrigatoriamente o trecho final passava por Rio de Janeiro, Campos e Cachoeiro de Itapemirim. Da mesma forma, falar de Calçado para o mundo, obrigatoriamente o trecho inicial passava por Cachoeiro de Itapemirim, Campos e Rio de Janeiro.

Quando dona Aída mandava um mensageiro na casa de alguém, para avisar de uma chamada telefônica, era um corre-corre danado e todo mundo ficava apreensivo. Não se podia prever a hora que a ligação seria completada. Quando completada, o problema era entender uma frase completa, devido aos ruídos na linha. Se, por um azar, o tempo estivesse chuvoso, ai então só mesmo rezando uma prece para o santo de devoção.

Nas noites de céu encoberto, dona Aída se descabelava para completar uma ligação que teimava em “cair” todo momento. Era comum formar certa aglomeração embaixo da janela do Posto Telefônico. A molecada ficava curiosa para saber o assunto e o bochicho quase virava uma algazarra.

Nheim, nheim, nheim, a manivela do telefone zunia pedindo linha.
- Alô Cachoeiro, aqui é Calçado. Me liga com Campos para falar com o Rio de Janeiro! Implorava dona Aída.
- Cachoeiro na escuta, Calçado. Campos apresenta-se congestionado. Assim que houver condições, faremos contato. Fique na escuta. Confirma? Educadamente Cachoeiro explicava a demora.
- Cachoeiro, Calçado na escuta. Não foi possível ouvir sua mensagem. Repita por favor! Eram os ruídos na linha que impediam dona Aída de ouvir Cachoeiro.
- Cachoeiro na escuta, Calçado. Repetindo, Campos apresenta-se congestionado. Assim que houver condições, completaremos a ligação. Fique na escuta.

A coisa quando começa assim, todos no Posto Telefônico e a molecada que ficava na escuta já sabiam, aquele contato levaria mais de hora. Fazia-se, então, de forma não prevista, aproveitando a oportunidade, uma visita à família de dona Aída. Conversa vai, conversa vem e as noticias eram colocadas em dia. Com o passar dos minutos, mais pessoas chegavam ao Posto, a sala ficava cheia e a ligação nada de completar. Finalmente a campainha da cabine telefônica toca, mexendo com os nervos de todos. Constituída de um braço de metal no formato de um martelo de duas cabeças, que fica entre duas campânulas, também de metal, a campainha tocava raivosamente, interrompendo bruscamente as conversas, criando um clima de suspense na sala.

TRIMMM, TRIMMM, TRIMMM
- Pronto! Calçado na escuta. Atende dona Aída.
- Calçado, aqui é Cachoeiro. Ligação do Rio de Janeiro.
- Cachoeiro, Calçado na escuta. Pode completar a ligação. Dona Aída, pensando que a ligação era para uma pessoa que estava aguardando um chamado do Rio de Janeiro, pede que essa pessoa entre na cabine para atender ligação.
- Alô! Quem está falando?
- É a fulana, filha de cicrana. Estou falando de Niterói. A senhora poderia avisar para minha mãe que eu volto a ligar daqui a 20 minutos? Fulana desligou o telefone.
- Dona Aída, a ligação não era para mim. Era a fulana, filha de cicrana. Pediu para a visar a mãe dela que vai ligar daqui a 20 minutos.
- Ô menino, corre lá na casa da cicrana e avisa que a fulana vai ligar em 20 minutos. Vai num pé e volta no outro! Dona Aída deu a ordem para o primeiro moleque que despontou por debaixo da janela.

Passado uns 30 minutos, a campainha do telefone toca novamente
TRIMMM, TRIMMM, TRIMMM
- Pronto! Calçado na escuta. Atende dona Aída.
- Calçado, é Cachoeiro. Ligação do Rio de Janeiro.
- Calçado na escuta, Cachoeiro. Pode ligar com Campos.
- Alô Campos, Cachoeiro na escuta. Pode completar a ligação com o Rio de Janeiro.
Neste instante, dona Aída pede que cicrana, mãe da fulana, entre na cabine nº 2, pois vai completar a ligação.

- Alô! Oi minha filha, o que houve, tudo bem? Estamos..... Caiu a ligação.
-Dona Aída, caiu a ligação. O telefone está só no chiado. Cicrana sai da cabine desanimada.
Nheim, nheim, nheim. Dona Aída tenta “pegar” a linha.
-Alô Cachoeiro, aqui é Calçado. O que houve com a ligação do Rio de Janeiro? Dona Aída perguntou por desencargo de consciência, pois já imaginava qual seria o problema.
- Alô Calçado, Cachoeiro falando. Campos está sob tempestade de chuva. Muita interferência na comunicação. Vamos tentar fazer novo contato. Fique na escuta!

A coisa ia assim nesse liga-desliga, até que as condições meteorológicas resolvessem dar uma trégua. As vezes não tinha jeito, a solução era marcar um outro dia para falar ao telefone com o resto do mundo. Era uma frustração danada. Ficava-se horas na casa de dona Aída e o que mais se ouvia era Alô Cachoeiro, Alô Campos, Alô Rio de Janeiro. Mas, apesar dos pesares, nem tudo era tempo perdido. Se não era possível falar ao telefone, era sempre muito agradável fazer uma visita à casa de dona Aída.

Mas, como na propaganda de determinado banco, o tempo passa, o tempo voa, e os meios de comunicação da nossa cidade melhoraram, numa boa. Hoje, os jornais chegam no mesmo dia, ainda na parte da manhã, mas as notícias que trazem é que chegam atrasadas. As tv’s com antenas parabólicas transmitem, via satélite, notícias fresquinhas, ao vivo e a cores. Para alívio do Jorge Feres, que não mais precisa escalar o morro para ter acesso à torre retransmissora de sinais de tv e fazer o conserto de algum aparelho ou trocar um fusível queimado.

O Posto Telefônico da dona Aída já não existe mais. Quase todas as famílias possuem um telefone em casa e muitos moradores são donos de modernos celulares que tocam músicas, tiram fotografias, enviam torpedos, filmam e fazem mil coisas. Fica até difícil falar no telefone celular. Perdemos aquele convívio com a dona Aída e sua família mas, em compensação, não temos que ouvir Alô Cachoeiro!, Alô Campos! Alô Rio de janeiro!

Agora temos até internet em Calçado. E o que é melhor, não só figuramos na rede mundial de comunicação, também fazemos parte ativa nela. O Broinha.com é o nosso Posto Telefônico moderno, e os broinhas estão igual a pinto no lixo. Uma alegria só!

Hellô Marshall Sheriff Piriquito and family!, Hellô Lurdinha and family!, Hellô Sônia and family!, Alô Fefeu, Alô Pit, Alô Edinho!, Alô Eléia!, Alô Ana Paula!, Alô Abusado!, Alô Caçapa!, Alô The Killer!, Alô JAP!, Alô Juninho!, Alô Pironga!, Alô Antônio Cláudio!, Alô Pinguço!, Alô Abuthris!, Alô Nois num Liga!, Alô Família Lima!, Alô Pedro Teixeira!, Alô João Hertesi!, Alô Edésio!, Alô Ronaldo!, Alô Bicudo!, Alô Alan!, Alô Maurinho! Alô Joel do Carioca!, Alô FCastro! Alô Jiló! ............Alô Broinhas do mundo, Calçado na escuta!

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calçadense@bol.com.br


 

 



 

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