H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
Ashura – Dia Santo Xiita


Mando aí uma nova crônica, falando de uma experiência vivida em Teerã, onde, atualmente, moro.

Saudações conterrâneas.

Era o ano de 632 da era cristã quando morreu o Profeta Maomé, sem deixar claro quem o sucederia como líder dos muçulmanos. Alguns acreditavam que a liderança deveria ser de algum membro da família e apoiaram Ali, primo e genro do Profeta, um dos primeiros a se converter ao Islamismo. A maioria da comunidade, entretanto, escolheu Abu Bakr, o companheiro mais próximo de Maomé, como califa e líder. Ali foi preterido em duas disputas posteriores pela liderança e só veio a se tornar califa em 656. Cinco anos depois, Ali é assassinado por tropas leais ao governador da Síria, um parente distante do Profeta que se intitulou líder e dividiu a comunidade muçulmana. Os sunitas, que apoiaram a dinastia do governador da Síria, e os xiitas, que continuaram do lado dos descendentes de Ali. A separação torna-se permanente quando o filho de Ali, Hossein, é brutalmente assassinado em Karbala e Najaf, hoje território iraquiano, no ano de 680.

Na Pérsia, prevaleceram os xiitas ( Shi-at-Ali), seguidores de Ali. Por conta disso, o Irã celebra, até os dias de hoje, com grande fervor, o Ashura, maior feriado religioso do país, que vem a ser o aniversário da morte do Imã Hossein. As cidades vestem-se de negro. Procissões seguem pelas ruas e é emocionante ver a fé com que os fiéis chamam por Hossein e a ele prestam suas homenagens. À frente de cada grupo, os homens, todos de camisas pretas, revezam-se, um de cada vez, para carregar estandartes feitos de metal, decorados com penas e símbolos religiosos, que chegam a pesar quatrocentos quilos. Logo atrás do estandarte, por ordem de idade, outros homens formam duas fileiras. Cada um traz na mão um açoite com pequenas argolas. Uma bandinha, com enormes tambores e pratos de metal, entoa cânticos tristes e dá ritmo ao flagelo. Coreografados, os açoites dançam no ar e depois estalam nos ombros dos peregrinos. Meninos pequenos já participam da tradição e, com açoites menores que os dos adultos, deixam vermelhos os ombros. Mulheres-pássaros-negros seguem atrás do cortejo arrastando chadores e, em vez do peso dos estandartes, carregam filhos no colo ou batem de leve no peito.

Vez ou outra um grupo faz um discurso político e conclama o povo a seguir o exemplo do Imã Hossein, que mesmo advertido sobre o perigo que corria, seguiu para propagar as palavras do Profeta, afirmando que, mesmo se ele morresse, o Islamismo continuaria. A expressão dos rostos mostra a força que brota de dentro das pessoas. Penso na impossibilidade de qualquer país ocidental se instalar permanentemente nesta terra. Os soldados daqui não serão jamais mercenários. Serão sempre os defensores da terra, da pátria, da cultura e da religião. Derramarão o sangue, doarão a vida, como fez o Imã Hossein.

Lágrimas borbulham em meus olhos e sinto em meu corpo a dor e a fé que não me pertencem. Os grupos se sucedem. Quando se cruzam, os estandartes se curvam em cumprimento.

Penso em blocos carnavalescos, em Folia de Reis, em Procissão do Encontro, do Senhor Morto... A religiosidade e a fé. O lamento dos cantos. O martírio da carne. A dor do flagelo em vez do gozo. Ou gozo na dor? Há algo de erótico nos açoites que rodopiam e avermelham a carne. Há sensualidade nos corpos e coreografias.

Os cortejos entram nas mesquitas e voltam aos seus lugares de origem, onde as rezas continuam. Os açoites são deixados de lado. Todos se viram em direção à Meca e o flagelo é feito com as mãos, que batem pesadas nos peitos. Os corpos rodopiam. O nome de Hossein é louvado. Pedidos de bênção são feitos. A música sacra sobe pelos ares.

Uma emoção estranha chacoalha minh’alma. Junto com a massa, rezo, agradeço, enlevo-me. Imã Hossein, Imã Hossein... Penso na força que move esse povo, na fé que têm em seu Deus.

Acabada a cerimônia, um almoço é servido. Os homens em uma sala e as mulheres em outra. Sentados no chão, cobertos por tapetes, carne fresquinha de carneiro, sacrificado na véspera, arroz com açafrão e picles, são oferecidos a todos.

A casa que nos abriu suas portas pertence a senhor que, por tradição familiar, recebe os fiéis. A mulher dele e as filhas serviram-nos com especial deferência. Elas, desde o início das celebrações, fizeram oito almoços e dois jantares para mais de seiscentas pessoas de cada vez. O hábito é dividir com a vizinhança o que se come. Panelas enormes são colocadas sobre trempes de gás. Na porta da casa, a fila quase roda o quarteirão.

Vestida de negro, cabeça coberta, mergulhei nos séculos e, envolta em uma fé desconhecida, introjetei o passado de uma cultura distinta e deixei-me abraçar pelo Deus Uno, pai dos mártires: Imã Hossein, Jesus Cristo...

Sônia Bonzi