Vivia numa nuvem macia, numa determinada dimensão, entre
tantos outros, um anjo, que passava os dias a voar e a observar
quem precisaria de sua proteção. E assim os dias
se passavam e quando aparecia alguma emergência, lá
estava ele a postos. Enquanto não precisavam de sua ajuda,
ele ficava na nuvenzinha de prontidão.
Conviviam,
naquela dimensão, outros seres mágicos como as bruxas,
que utilizavam seus dons, segundo consta, para o mal. E então
uma bruxinha que vivia a voar em sua vassoura a fazer travessuras,
na busca de alguém a cometer suas maldades.
Eis
que um dia, a tal bruxinha resolveu assustar pessoas sem ser identificada.
Instalou um controle remoto em sua vassoura e, escondida, começou
a fazer evoluções no ar com a vassoura vazia. Ninguém
entendia o que estava acontecendo, mas muito assustadas, as pessoas
corriam para suas casas.
Foi
então que a bruxinha resolveu evoluir com o controle remoto
e passou a levar a vassoura vazia até bem alto. Até
que a vassoura, passando por uma determinada nuvem, deu uma pancada
no anjo que lá estava distraído e... isso mesmo!
Ele caiu da nuvem e foi despencando até se espatifar numa
moita bem à frente de onde a bruxinha estava escondida.
Quando ela foi verificar o que tinha acontecido, deu de cara com
aquele anjo que, irradiando uma luz azul, a olhava incrédulo
e sem saber porque estava ali. Ele tentou voar, mas suas asas
não o obedeciam e ele não sabia porque, pois não
estavam quebradas.
A
bruxinha ficou em estado de choque, pois nunca havia se deparado
com um anjo. Estava agradavelmente bloqueada com a beleza que
nele enxergava e por mais que tentasse fazer qualquer maldade
naquele momento não conseguia. Nem utilizar suas forças
do mal para tentar ajudá-lo foi possível. Seus olhos
não se separavam do olhar dele, um magnetismo instantâneo
se fez naquele momento, que anulou as forças de ambos.
Como na física, a explicação é que
as forças de sinais contrários se atraem. E se apaixonaram
instantaneamente e irreversivelmente. E como suas forças
foram anuladas pelo magnetismo impregnado em ambos, tornaram-se
humanos.
E
ao se tornarem humanos, necessitavam ficar juntos , pois não
sabiam viver como humanos. Passaram a sentir dor, alegria, amor,
entre outros tantos sentimentos bons e ruins que são característicos
do ser humano. Mas o mais importante de todos eles era o amor
que sentiam um pelo outro e que irradiavam para as outras pessoas.
A
vida não era fácil para eles, tiveram que aprender
a trabalhar, conseguir trabalho. Sentiram na própria pele
o que viver na terra, como precisariam da ajuda dos anjos e como
as maldades afetariam suas vidas. Descobriram todos aqueles problemas
sócio-econômicos por que os humanos passam, encontraram
a riqueza mal distribuída, a deficiência dos governos
em não proporcionar à população de
forma equilibrada a saúde, o transporte, a habitação
e a educação, porque alguns resolveram que mereciam
mais que outros. E assim conheceram a pobreza, a miséria.
Descobriram
que as pessoas se diferenciam sob diversos aspectos, como cor,
religião, poder, riqueza, pobreza. Enfim, , descobriram
a duras penas, que nem todos são iguais perante a lei.
Que os ricos ficam cada vez mais ricos, em detrimento da qualidade
de vida dos pobres, cada vez pior.
Ainda
descobriram que não adianta dar poderes aos pobres para
que eles se ajudem, pois, ao tomar o poder, se esquecem da pobreza
para pensar apenas em riqueza. Se utilizam deles, os pobres, para
enriquecerem. Ou alguém já viu algum poderoso ficar
rico tirando dos ricos? E querem mais, sempre mais. Nunca estão
satisfeitos. É a lei do “primeiro eu”.
E
então o Anjo e a Bruxinha foram obrigados a se separar
temporariamente, pois o trabalho dele ficava longe de onde ela
estava e passaram a se ver pouco, isolados pela distância
Mas nem por isso desistiram um do outro.
O
tempo foi passando e não conseguiram se aproximar o suficiente
para viverem juntos a vida humana na qual se viram envolvidos.
Muita dificuldade apareceu em suas vidas, mas já conseguem
se comunicar por telefone, por e-mail, vez por outra se encontram
em viagens rápidas, mas em seguida volta a distância
e a saudade profunda que sentem um do outro.
E
foram a conhecer o mundo dos humanos, escolas, livros, cinemas,
amigos, viagens, músicas. E foi na música que ela,
a bruxinha, mandou a maior declaração de amor para
o seu anjo. Reuniu todas as suas forças e mentalizou na
sua cantora preferida que mandou a seguinte música para
o anjo:
A
minha sorte grande
foi você cair do céu
minha paixão verdadeira
Viver a emoção,
ganhar teu coração
pra ser feliz a vida inteira
É lindo teu sorriso,
brilho dos teus olhos
meu ANJO QUERUBIM
Doces dos meus beijos,
calor dos meus braços
perfume de jasmim
Chegou no meu espaço
mandando no pedaço
O amor que não é brincadeira
pegou me deu um laço,
Dançou bem no compasso,
de prazer levantou poeira
poeira... poeira... poeira...
Levantou poeira...
Hoje,
o anjo e a bruxinha ainda vivem distantes, sentem muitas saudades
um do outro, mas é um amor tão intenso que se abateu
sobre eles, que eles têm fé, acreditam mesmo, que
o universo estará conspirando para juntá-los no
futuro. Como podem ver a história não tem um final
feliz. Ainda não... afinal, quem disse que a história
acabou?
Novembro
de 2005.
Antonio Claudio Medina de Almeida
Antonioclaudio@broinha.com.br
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