Da bicicleta. Nesse tempo, talvez no mês de junho, comprei
a minha bicicleta. Vários dos meus colegas tinham bicicletas
e eu de há muito sonhava com a minha. Um andarilho de mínimos
recursos, a pé para todos os lados, na canela, de Calçado
para o Jacá ida e volta, de Calçado para a Fazenda
Velha idem, às vezes até Bom Jesus, ou mesmo a Rosal
que era bem distante. Pernas fortes, excelente preparo físico,
mas e o tempo? O que se fazia a pé em uma hora certamente
na bicicleta seria reduzido à metade ou até menos,
e era muito mais divertido, mais agradável, emocionante,
podendo até fazer exibições.
Da maior injustiça. Vamos dar uma volta, regredir um pouco,
há uns três anos antes, com o caso da outra bicicleta,
a primeira, uma bicicleta virtual, aquela que foi e não
foi. Cansado daquelas andanças, um dia resolvi pedir à
Nadia, ela que era tão jeitosa, que sabia convencer o velho.
“Oh Nádia, você bem que podia pedir ao papai
para comprar uma bicicleta para mim, você que sabe que estou
cansado de andar à pé!”. Ela, com aquela lábia
que só ela tinha, cheia de argumentos, concordou e conversou
com ele. O velho cedeu. Alegria das alegrias, já comecei
na minha cabeça a me ver andando na bicicleta antes da
hora, antes de comprá-la. Eufórico, cheguei à
ousadia de perguntar ao velho se podia ser uma Monarck, igual
à do Geraldo, bicicleta moderna, um pouco mais cara, porém
linda, listrada de branco e azul, cheia de assessórios
e enfeites, freios de cabo de aço e outras modernidades,
bem diferente daquelas pretas que todo mundo tinha. Papai ou estava
numa boa ou não percebeu bem o que eu queria, respondeu
que sim e eu adorei, vibrei, saí me imaginando pedalando
aquela bicicleta linda, deixando todo mundo com inveja.
Novo retrospecto. Desde antes que minha mãe morreu, por
causa dos estudos, eu e meus dois irmãos menores já
morávamos fora, nas casas dos mais velhos, do primeiro
casamento do papai. Eu na casa da Nádia, na Fazenda Velha
e depois em Calçado na casa da Madrinha, o Renato com o
Joãozinho, e a Sônia andava já pela casa da
Bisica. A diferença entre nós é que enquanto
eles tinham que dar obediência a seus enérgicos hospedeiros,
como se fossem seus filhos, dependiam de autorização
para tudo, se podia fazer isso ou aquilo, etc., eu não,
desde o início consegui me impor e deixar claro que quem
mandava em mim era o meu pai, que era o papai, e somente a ele
eu prestaria contas. Como ele morava distante, lá na Fazenda
e não interferia, na prática eu fiquei foi independente,
livre, fazia o que queria, dono do meu nariz, não tinha
que pedir permissão para nada a ninguém. Queria
ir ao Jacá para ver o velho, ia; à Fazenda Velha
na casa da Nádia, ia; a Bom Jesus, ia, a Rosal na casa
de outra irmã ia; e onde mais quisesse. O problema era
o meio de transporte, a pé, as pernas, a canela. Fiquei
conhecendo aquelas estradas minuciosamente, trecho por trecho,
pedra por pedra, barranco por barranco, incidente por incidente,
palmo por palmo.
Da cantoria. Nessas andanças a pé na estrada deserta
eu costumava cantar, cantar alto, voz grossa, abrir o peito, músicas
de Luiz Gonzaga, Pedro Raimundo, Vicente Celestino, Francisco
Alves e outros. De preferência daquelas românticas,
chorosas, lamentando um amor perdido ou uma traição.
Devia cantar desafinado, é claro, como sempre fiz, mas
ninguém estava vendo ou escutando, podia ficar à
vontade, apenas tomar cuidado quando se aproximassem as curvas.
Quando ia chegando numa abaixava a voz ou me calava, parava um
pouco, até que aparecesse um novo trecho em descampado.
Um dia, nessa época, descuidei e entrei numa curva cantando,
surgiu um homem à cavalo vindo de lá, deve ter me
ouvido, tomei um susto, sem graça me calei, desajeitado
cumprimentei-o, e ele tirou o chapéu respondendo. Por coincidência,
acrescenta-se, era o sisudo pai da namorada. Que droga, hem?
De volta à bicicleta, o primeiro obstáculo. Quando
a Bisica soube que eu ia ganhar uma bicicleta, criou caso, falou
com papai “Não papai! Se comprar para o Herculano,
tem que comprar também para a Sônia Maria e o Renato,
não pode tratar as crianças diferentemente”.
Pelo que fiquei sabendo, tudo bem, o velho não gostou muito
mas terminou concordando em comprar as três bicicletas.
Fiquei até muito surpreso, três bicicletas, um exagero,
a Sônia mais o Renato não precisavam, para quê?
Eles não andavam à pé pelas estradas, naquelas
longas caminhadas, bicicleta no meu entender era muito mais um
meio de transporte do que brincadeira de ficar rodando pra cá
e pra lá, vadiando.
Do segundo e derradeiro obstáculo. Catarina que morava
em Cachoeiro chegou de férias e parece que foi ela quem
convocou a reunião, na casa da Bisica, para tratar do assunto
das bicicletas. Presentes papai e os filhos adultos, mais velhos:
Catarina, Bisica, Nádia, talvez Elcida, não sei
se Joãozinho, não tenho certeza. A pauta, a agenda,
uma dúvida com as bicicletas. Será que convinha
mesmo comprar as bicicletas? A Sônia mais o Renato uns vadios,
não gostavam de estudar, notas baixas nas provas, essas
bicicletas iam atrapalhar mais ainda, aumentar os problemas. Dilema
final, ou compra as três ou não compra nenhuma? Terminou
valendo a segunda alternativa. Fiquei do lado de fora, sentado
num dos bancos do jardim, esperando o resultado da discussão,
quando finalmente a Nádia apareceu, com cara desconsolada
e falou para mim: “lamento, fui voto vencido, convenceram
o papai, por sinal com muita facilidade, a não comprar
as bicicletas”.
E agora, três ou quatro anos passados, os quais eu continuei
nas minhas andanças à pé, estava lá
no Jacá, já no segundo ano científico, morando
com papai e dona Maria, sua atual mulher. Nunca me conformei e
sempre lamentei a frustração da bicicleta perdida.
Contei o caso para a dona Maria e ela, muito minha amiga, sensível,
ficou penalizada e me fez uma proposta. “Olha, eu tenho
uma porca, que ganhei de uns amigos, que está no chiqueiro
engordando junto com os capados de seu pai, quando ela estiver
no ponto vou vendê-la e emprestar o dinheiro para você
comprar uma bicicleta”. “O quê dona Maria? Não,
de jeito nenhum, como eu vou pagar à senhora, não
vou ter possibilidade nem tão cedo, a senhora sabe que
sou um duro”. “Não, não interessa, tem
que aceitar, quando você tiver o seu primeiro dinheiro,
seja lá quando for, você me paga”. E assim
ficou o nosso trato, a porca ia demorar, somente estaria no ponto
em uns três ou quatro meses. Dona Maria jeitosa perguntou
ao papai se ele não podia lhe adiantar o dinheiro, depois
ela pagaria. Ele concordou e me mandou ver os preços das
bicicletas. Uma nova estava mais de três mil cruzeiros,
bem acima do que se poderia apurar com a venda da porca. O jeito
foi comprar uma usada. O Zé Roberto, meu colega de turma,
estava querendo vender a dele, uma daquelas pretas comuns bastante
usada, entretanto bem conservada, queria mil e setecentos cruzeiros.
Fechamos o negócio, e quando o papai me entregou o dinheiro,
surpresa, me disse que ia me dar a bicicleta, não precisaria
pagar a dona Maria.
E assim tardiamente consegui a minha bicicleta que me foi muito
útil durante o ano e meio que ainda permaneci em Calçado.
Estava boa, exceto as rodas bem empenadas. Acho que o Zé
Roberto era daqueles ciclistas que costumavam subir e descer meio
fios, o que acabava com os aros. Tive que ir a Bom Jesus e gastar
um dinheirinho a mais, numa oficina, lembro-me ainda que de um
tal de Cipriano, onde troquei vários raios, deixando os
aros mais ou menos certos. A partir de então, com esse
novo meio de transporte, aquelas longas distâncias ficaram
bem mais amenas.
Vila Velha, outubro de 2005.
João Hertesi.
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