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Nascer,
crescer e viver em São José do Calçado,
por si só já é um privilégio e
tanto! Imagina morar na praça!
E.
Nessa minha vida de “cigana” (e que cigana) já
morei em vários pontos da hospitaleira São José.
Agora por uma dessas circunstâncias da vida, pela segunda
vez estou morando numa casa em que viveu Sr. Manoel Vieira
e dona Rita. E para melhor dizer, bem na praça. Não
tão bela como nos tempos do saudoso José Borges,
o homem que revolucionou Calçado, matizando nossos
jardins com flores multicoloridas, que causavam admiração
a todos.
Vejam
bem, da janela do meu quarto, no conforto da minha cama, me
deleito com a visão da Igreja matriz, que se agiganta
majestosamente com suas duas pequenas torres, apontando para
o infinito. Tudo transmite muita paz. Vive-se mais e melhor.
Bem
cedo antes mesmo das seis, a poetiza Joana D’Agostini
já está caminhando na praça. Daí
a pouco chegam outras pessoas. O grupo da “melhor idade”
vem chegando para a ginástica no Montanha Clube. O
professor Antonio Carlos Abreu, credenciado para o cargo,
sabe das limitações impostas pela idade, leva
tudo na esportiva.
Os
trabalhadores e funcionários municipais ocupam seus
cargos, seus afazeres, agradecidos a Deus pelo seu trabalho.
Os
estudantes começam a chegar da Zona Rural, de ônibus,
de kombi e fazem algazarra como é próprio de
sua idade. As árvores podadas e verdinhas completam
o cenário. A cidade circundada de montanhas é
puro verde. Passarinhos é o que não falta. O
chafariz, serve mais é para banho de crianças
desocupadas em plena tarde abafada de sábados e domingos,
até aparecer a patrulhinha para espaventá-los.
O
Dudu do Lelê é querido por todos. Bate palmas
na porta da casa dele (a porta já está aberta,
mas ele bate palmas) até aparecer alguém e ele
oferecer “olha o leite”, “olha o pão”.
Dudu canta, assovia, fala com todos que passam pela calçada.
Prestativo, leva seu tio Joaquim até sua casa, com
o maior cuidado. Anjo de candura, de pureza na limitação
que a vida lhe impôs. Meus vizinhos são simpáticos
e prestativos, discretos.
O
Paulo do Lelê está sempre pronto a servir. José
Humberto traz o leite fresquinho so seu sítio.
A
igreja está sempre de portas abertas, como diz a canção
“esta porta não se fecha, São os braços
de Jesus” nas missas ou celebrações a
música suave e as vozes maviosas chegam aos meus ouvidos
como coro celestial.
Terminando
o culto, as pessoas se abraçam e batem um papo à
porta da igreja.
E
parabenizo ao Dr. Raft que substituiu a grama antiga pela
atual onde as crianças deitam e rolam sem danificá-la.
Se fossem os canteiros antigos não teria como conservá-los.
Não
sei de onde parte essa indisciplina das crianças, se
dos pais, dos professores ou da época em que vivemos,
ninguém respeita mis nada.
Nem
o enérgico e saudoso jardineiro José Gomes,
não daria jeito. Acredito que a culpa seja de todos.
Que pena!
Mas
a bem da verdade até os cachorros são felizes
em Calçado.
Vira-latas,
não resta nem dúvida, pois são livres,
sem coleira, sem donos, dormindo debaixo dos ônibus
escolares à sombra da igreja, mas felizes.
Brincam
na grama do jardim, deitam e rolam, correm de lá pra
cá, até cansar.
E
a exemplo dos jovens namorados, também namoram. Fazem
amor e proliferam. Aqui não se dá “bola”
pra cachorro.
Assim
sendo, são livres e felizes.
Ângela
Tavares adotou uma cadela branca, sem teto, sem ninguém.
Dá-lhe carinho, banho, alimentação. Está
linda! Passeia com ela presa na coleira e os outros vira-latas
costumam fazer um cortejo para acompanhá-la. E ela,
orgulhosa, indiferente aos galanteios... Está noutra,
esqueceu a vida de “cão sem dono”. Rico
é outra coisa, deve ser o que ela pensa, agradecida.
Mas na verdade eu acho que ela preferia ser livre, leve e
solta.
Mas
como tudo tem um preço, que fazer?
Da
varanda que dá para a praça, ao entardecer aprecio
o espetáculo das garças que vem pousar numa
árvore no quintal do José Gastão. A árvore
fica toda branquinha, apinhada de garças que ali passam
a noite e debandam no outro dia cedo, voltando a tardinha,
depois que o sol se vai.
Algumas
pessoas vem para a porta da igreja, ver o espetáculo
que realmente é muito bonito.
E
agora?
É
ou não, um privilégio morar na praça
de São José do Calçado?
Fica
o convite: Venha conferir!
Você
vai amar, se tiver os olhos para ver e coração
para sentir!
(Acho
que vou fincar raízes aqui. Daqui sé mesmo pra
onde foi Sr. Manoel e dona Rita.
Mas,
veja bem: não estou com pressa! Apesar deles estarem
no paraíso celestial, vou ficando mais um pouco neste
paraíso terrestre que é São José
do Calçado.
Verconda Spadarotte
Domingo
– 06 março de 2005

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