Mas eu não desisto Caçapinha,até porque
sua alma enxovalhada de maldades pede que eu faça isso.
Eu
disse sua alma, seu cachorro do mato metido a lobo guará,
não disse esse corpo que mais parece uma larva de mosca
varejeira. Você realmente é merecedor de umas boas
pancadas, mas como seu amigo me reservo no direito de não
fazer agora o que nunca fiz quando éramos crianças.
Você
sempre com suas sacanagens comigo,disso não esquece não
é mesmo? Como daquela vez que fomos brincar de National
Kid nas goiabeiras do quintal de sua casa.
Para
começar lembra do berreiro que você arrumou quando
eu disse que eu seria o National Kid e você o Inca Venusiano?
Lembra disso estorvo de pinico?
Pronto,depois
de tudo sanado lá estava eu, como sempre, jururú
no meu canto e vem você com aquela roupa ridicula de National
Kid que mais parecia um Batman aviadado. Mas tudo bem,me contentei
com aquela imagem. Puto da vida,mas tinha que controlar minha
ira,ainda mais com um sujeitinho maldoso como você.
Não
esqueço de suas profundas palavras:
-
Pirica, O National Kid "avua" num "avua"?
Voa
sim Caçapa,voa sim.
-
Pirica, se eu der um pulo daquele galho ali será que
eu consigo "avuar"?
Não
Caçapinha,tem que ser daquele lá óóóóóóóóo,lá
nas grinpinhas que é para pegar mais galei.
E
lá foi você em mais um ato de sacanagem para com
minha pessoa. E eu,coitado de mim,resignado cá embaixo
esperando o voo do idiota do Caçapa, perdão o
voo do herói National Kid.
Me
lembro direitinho de sua ansia em me sacanear. Lá no
alto e perguntando:
-
Aqui tá bom Pirica?
Não
Caçapa,sobe mais,só mais um cadinho.
Você
parecia mais uma bandeira sendo chacoalhada pelo vento de tanto
que balangava.
E
chegou o grande momento, o grande herói estufou o peito,deu
um aceno de quem ia embora e espingolou lá de cima. Eu
que não sou besta,sai correndo e me protegi no chiqueiro.
Caçapinha,sem
modéstia de minha parte,nunca vi uma "avuada"tão
bonita como aquela. Principalmente sua aterrissagem,que foi
monumental. Sorte a sua que tinha chovido e o chiqueiro estava
que era lama pura,não é mesmo rapaz?
Lembra
quando você chegou "avuou"rapidinho e se estatelou
em cima de uma leitoa e espalhou os leitões para tudo
quanto era canto? Que sorte meu amigo,que sorte. E a sua fuça,
perdão, o rosto do National Kid enfiado na lama cheia
de merda de porco? Ainda bem que eu, quero dizer,o Inca Venusiano
estava lá para ajudar o Kid,né mesmo? Morto de
raiva,mas te ajudei.
Peguei
o Kid pelo pescoço, enfiei debaixo da mangueira de lavar
o chiqueiro, dei umas baforadas de água sanitária
nele que era para tirar a fedentina e pronto,novinho em folha.
O
Kid ainda me pergunta:
-
Pirica, e o Inca não "avua"?
Não
Caçapa Kid, esse aqui é do mar,só sabe
nadar.
Mas
que fiquei puto com você fiquei sim. Mas te perdoo.
Mas
heim? Lembra das maldades que fazia comigo quando brincávamos
de carniça? Engraçado que nesse mesmo dia você
foi escolhido para ser a carniça sem ver quem pulava
menos né? Acho que pela fedentina que ainda restava em
você.
Os
saltos,os saltos para ver quem seria a carniça,que beleza.
Fazíamos
uma linha no chão e quem pulasse mais afastado da linha
seria a carniça, que a propósito sempre era você
mesmo. Mas isso era culpa do Gilberto Juquita, que quando via
esse seu corpo escultural se preparando para pular sempre passava
o pé no risco e afastava mais uns 2 metros.
Caçapinha,lembra
direitinho como você se esticava todo para pular meu rapaz?
Mais parecia uma cobra de duas cabeças sem rumo.
E
lá estava meu grande amigo naquela posição
maravilhosa para começarmos a brincadeira. Dobradinho,mão
no joelho e esperando as ordens.Quietinho,sem chiar,só
para me fazer raiva.
Coisa
horrivel eu sentia quando tinha que cumprir aquilo que o jogo
mandava, tal como cortar bife no açougue. Mas você
gostava,só para me agredir perante os amigos. E olha
que eu te enfiava a mão mesmo né? E você
lá,impassivel.
Lembra
quando tinha que fazer o gavião? A gente com os dedos
duros,curvados,igual uma garra de gavião e atochava na
sua carcunda. Como você gosdtava disso. Eu sabia que gostava
pelo seu semblante avermelhado e pelas lágrimas que corriam
de seus olhos.Mas eram lágrimas de crocodilo,lágrimas
de prazer,só para me sacanear.
Aposto
que não se esqueçe da derradeira sacanagem que
fez comigo na hora do finco, lembra disso? A gente com o dedo
indicador durinho da silva e ia dando fincados na sua já
encalombada carcunda.
E
lá ia eu,dava uma,duas, dez,vinte,trinta e nada. Meu
dedo já começava a inchar de tantas futucadas
que dava e você lá impassivel novamente.Realmente
aquele dia foi uma de suas piores maldades comigo. Minha raiva
era tanta,que você se lembra bem, perdi o controle e enfiei
o dedo no seu furi....
Que
azar o meu, a brincadeira acabou e fiquei mais de uma semana
desinfetando minha mão com criolina.
Mas
te perdoo e vou continuar te perdoando por todas as maldades
que fez comigo, escutou bem centopéia perneta?
Em
tempo, não se preocupe e pare de choramingar, esse ano
prometo que te dou o perdão de Natal.
Do
seu amigo
Inca
Venusiano do Dedo Fedido, quero dizer,Piriquito
Djalma
Junger Lahud
natyem@bellsouth.net
