|
Iná pousara o crochet nos joelhos e deitou
o olhar através da janela a contemplar no fundo do
vale, a cachoeira que rumorejava e deslizava incansavelmente
por anos sem fim. Mas além, balançavam os galhos
das roseiras, cobertas de flores que se desgarravam ao vento
e deixavam o chão como um tapete imenso, todo matizado...
Ao longe, passavam alguns bois e por ser já tarde,
os passarinhos antes de se recolherem aos ninhos, trinavam
melodiosos cantos que espargiram na amplidão.
Era
uma tarde assim aquela que viu Juquita pela primeira vez,
ele tinha 20 anos, ela 16, e o amor nasceu. A principio, consistia
na passagem quotidiana dele, frente a sua porta, ela naturalmente,
lá estava feliz, desde antes, como a Raposa do Pequeno
Príncipe, porque ele ia passar. Sorriam um para o outro,
olhavam-se, era tudo, eram felizes.
Numa
tarde de domingo, à saída da igreja, se encontraram,
quase não falaram, a presença recíproca
bastava. O amor botão desabrochou, fez-se sorte e quatro
anos depois se concretizava num sim.
E
como este sim os levou longe!
As
finanças nunca eram o bastante, veio o primeiro filho
e foi uma alegria imensa. Apesar de pobres...bem, pobreza
não impede nascimento de frutos do amor. A vida interiorana
produzia e as dificuldades não compreensíveis,
abatiam-se implacavelmente. Mas Juquita foi sempre um folgazão,
alegre, brincalhão, sempre a gozar de tudo e de todos
e tristeza com ele não tinha vez
Os
meninos cresciam, precisavam ir para escola, começaram
a freqüentar a mais proxima. E todos os dias as mesmas
coisas aconteciam. Carinhosamente preparados pela mãe,
estavam sempre limpas as roupas ainda queda gente pobre.
Ina
via-os sair, continuava depois a cuidar dos menores que não
estavam em idade escolar de naqueles tempos, não havia
esse luxo de jardim de infância.
Na
volta da escola, o Maurílio sempre apanhava de seu
predecessor na família, o Marcelo. Mas também,
com vontade ou sem ela, chorava até chegar em casa
só para ver o outro levar uns petelecos do pai.
O
tempo passou. Os meninos se tornaram homens, cada qual foi
se colocando, os mais velhos ajudando os mais novos, todos
se formaram e os velhos pais que também não
eram tão velhos, chegados ao ápice de sua missão,
rendiam graças a Deus, pelos netos que vinham, pela
família que se reunia e enchia a casa com os risos
das crianças, as gargalhadas dos rapazes.
Mas
a saúde do Juquita delibitou-se e foi descendo sempre
mais. Inspirava cuidados, muitas proibições
lhe foram feitas e exatamente das coisas que mais gostava,
o cigarro, uma gostosa polenta pra comer pra vale...
Um
dia, num gesto muito seu, sobe numa goiabeira, ao vê-lo,
a boa Iná o repreende:
- Juquita, você não tem juízo não?
- É que eu fui tirar esta goiaba pra você
E
quem podia dizer mais alguma coisa?
Solicitados
pelos filhos, cada qual em cidades distantes, vão os
dois passar dias aqui, recepcionar netinhos ali, visitar F.
que quebrou braço... E foi exatamente numa dessas visitas,
São Mateus, onde mora Maurílio, que depois de
ter conversado com tanta gente, de ter sido visto na janela
por outros tantos, ele a chamar:
-
Iná, vem cá.
Pressurosa,
ela corre e o encontra com aquelas características
que o médico prevenira antecipar-lhe o fim. Apela para
a mãe da nora, pessoa que lhe estava mais perto, o
médico é chamado, vem rapidamente, tudo se faz,
mas aquele era o dia em que o Senhor o elegera.
Que
pena! Ela fica em prantos, choram todos, os amigos a cercam.
Será que é possível continuar vivendo,
voltar àquela casa...como sobreviver se ele não
existe? Como...?
Eram
estas as lembranças que aquela tarde, já quase
absorvida pela noite, lhe traziam. De fato, era duro demais!
Contudo,
como ensinara o Pajé a Tibicuera, os pais não
morrem nunca, eles continuam a viver nos filhos... é
quando a pequenina Danielle, netinha de três anos, achegando-se
a ela, toma-lhe as mãos e convida:
-
Vovó, vem jantar vem!
Ela
deixa conduzir, uma estrela despontara no céu e dava-lhe
impressão de falar-lhe como se fosse ele: À
frente, Iná, a vida continua, no dia do Senhor, nós
ressuscitaremos.
No
corarão de Iná reacende-se a fé que sempre
a sustentara nos dias difíceis de outrora, quando nem
tudo eram flores. Na igrejinha pequenina da cidade, os sinos
dobravam, do seu coração brotou a prece do Ângelus
e em tempo algum foi mais intenso o seu ardor ao repedir:
“Faça-se em mim segundo a vossa vontade”
Marlusse
Pestana Daher
09/setembro/1976
São Mateus

|