Ao
prezado colega e amigo
como irmão, Eliézer Rosa,
perdoando-me o espírito
polêmico que não consigo evitar.
Estas
memórias não terão princípio, inobstante
havê-las começado numa primeira pincelada, pela
origem, na evocação a meus pais. Prosseguem, marcadas
às vezes de certa circunstancialidade temática,
a que não posso fugir, sem obediência a espaços
ou ao tempo, no rigor cronológico.
Assim é que peço vênia para rememorar um
dos episódios, dentre as muitas lutas que travei, na
judicatura criminal, visando à recuperação
de delinqüentes pela via da assistência à
saúde, educação e do trabalho produtivo,
muitos anos antes que esse permissivo-- então apenas
na doutrina e prática de nações mais cultas,
ou de Estados como São Paulo--viesse a tornar-se lei
entre nós, embora o sistema anterior, melhor entendido,
o não vedasse.
Até aí, quanta incompreensão,quantos avanços
e recuos, aplausos e censuras, que acabei, de tanto brigar,
participando na dos outros, a fim de fazer valer o direito que
o Espírito Santo tinha, nessa abertura para o moderno
e o contemporâneo, deixando para trás um provincianismo
difícil de aceitar-se.
Certo, em nosso Estado, predominava a ausência de regime
penitenciário, uma vez que o Instituto de Readaptação
Social de Pedra D'Água, na área da Capital, não
atendia às necessidades de internamento. Nesse sentido,
cheguei a propor, no ensaio - "Cadeias como Centros de
Recuperação Social" -,que os estabelecimentos
prisionais, em cada comarca, enquanto se não criavam
outras unidades, de preferência agrícolas, suprissem
aquela falta, cumprindo os requisitos do "sistema progressivo"
adotado no próprio Estatuto Penal, art. 30, parág.
1º.
"Entrando na briga", pois, foi o título do
que escrevi para a imprensa cachoeirense, e mereceu interessante
comentário, pela A Gazeta, de Vitória, da autoria
de Beneventino,pseudônimo do desembargador amigo, Eurípedes
Queiroz do Valle, de imperecível memória, na sua
crônica "Com o apito à boca". Concordava
ele, a par de mais considerações, cheias de graça
e simplicidade, "que o nosso Espírito Santo vem
sendo, realmente, de há muito, vítima desses pequenos
'furtos' em seu patrimônio de idéias felizes. Daí
a necessidade, vez por outra, de levar o apito à boca
e dar o alarme. Adianta pouco, é certo, mas fica o registro"
(no jornal citado, edição de 18/05/1969).
Travava-se, no então Estado da Guanabara, séria
controvérsia entre o Secretário da Justiça
e o Juiz das Execuções Criminais, de início
pela disputada competência para autorizar o trabalho de
presos, e outras regalias. Nesse ponto, quando o colega de lá
reivindicava para o seu pequeno-grande Estado tal primazia,
não resisti e, a bem da verdade, o contestei.
Com efeito, havia sido na comarca de Muniz Freíre, em
1964, que se criara e se pusera em funcionamento um curso de
alfabetização de presos, com professor (um Oficial
de Justiça que era estudante de ginásio) pago
pela Prefeitura local, complementada, a mesma escola, por uma
biblioteca e pequena farmácia para socorrer em casos
de doenças, os detentos pobres, mediante receita médica
ou, à falta de médico (e era o caso), de farmacêutico
consciencioso e experimentado. 0 Ministério da Educação
e Cultura fornecera o material escolar, isto é, as cartilhas
para os alunos e de orientação ao professor, e
as primeiras obras para a biblioteca. Posso acrescentar que
o próprio Titular daquela Pasta nos felicitara pela iniciativa
pioneira (sic), por intermédio de seu representante no
Rio. 0 ministro era Darcy Ribeiro.
Depois, em Cachoeiro de Itapemirim, quando assumi o exercício
da 2ª Vara, tomei a mesma iniciativa criando, junto à
Delegacia de Polícia, uma classe primária mediante
convênio com a Secretaria da Educação e
Cultura do Estado, e, a completá-la, como sempre entendi,
a indispensável prateleira de livros, que denominei "Biblioteca
dos Reeducandos". Estimulava, deste modo, a leitura até
como amizade (La lectura est une amitié) segundo Proust.
Mania, que me acompanha, de buscar o auxilio de juristas, escritores
e poetas. Uma vez me socorri de Stendhal, na "Cartuxa de
Parma, para mostrar quanto são perigosas as interpretações
literais, no episódio dos encontros Clélia/Fabrício.
De outra feita, em processo por acidente de trânsito,
pela via indireta de Mário Moacyr Porto, excelente jurista,
invoquei o filósofo Bergeret, criação literária
de Anatole France, no propósito de humanizar a lei (não
há texto que se não deixe solicitar; o juiz a
lei vivifica, flexionando-a às sugestões da vida),
num caso que merecia decisão absolutória.
Da minha experiência nesse setor, cumprindo a missão
pedagógica e social do juiz na comunidade, posso dar
dois testemunhos. Em Muniz Freire (ali o que era considerado
mais perigoso quebrou pedras para calçamento de ruas),
um detento analfabeto ao ser preso, menos de um mês após,
denunciado, assinou, de próprio punho, o seu interrogatório
em Juízo. Confesso que não aparentei chorar, mas
soluçava, por dentro, de emoção...
Na importante comarca de Cachoeiro de Itapemirim (onde encerrei
minha carreira), um preso de nome Rui Barbosa foi alfabetizado
em apenas oito dias! Heron Domingues, impressionado com o fato,
divulgou-o pela Rede Tupi de Televisão.
Sob o aspecto do trabalho, à época em que se permitia,
por força de minha insistência, ou, pelo menos,
não era praticamente proibido, andei conseguindo, inclusive
noutras comarcas,com o proporcionar ocupação produtiva
aos presos, mais de 80% de recuperação de delinqüentes,
registrando-se apenas uma tentativa de fuga, mesmo assim de
um inveterado larápio, que já saiu furtando de
seus próprios colegas... Por isso sempre achei, ao longo
da minha vida de magistrado, que o autor de crimes contra o
patrimônio, pelo comprometimento do caráter, é
da mais difícil recuperação.
Este é o depoimento de um modesto juiz do interior, que
só agora, ao escrever suas memórias, desvenda
o a que chamou, numa conferência sobre problemas da mendicância,
de "mistério" - o haver optado, nos últimos
anos, além de Menores e Família, por uma Vara
Criminal (aliás no mesmo "feixe"), contra as
suas preferências jurídicas (pois de formação
profissional civilística levada da advocacia), a oportunidade
de ser útil aos menos felizes. Valeu. Tudo vale a pena
(se a alma não é pequena, está em Fernando
Pessoa), quando se busca um ideal. Ainda que tarde atingido,
não importa. Semeia-se para o futuro, à semelhança
do "voto vencido" nos tribunais, no apontar o caminho
para a melhor e mais desejada justiça.
Na luta, a que me referi, não fiquei só, é
bem que o diga. Tive a honra de ser acompanhado pelo jovem e
culto colega João Baptista Herkenhoff, que na sua passagem
pela comarca de São José do Calçado, fundou,
com igual idealismo, a Associação de Assistência
aos Presos "Dona Mulatinha", infelizmente desativada
por falta de continuadores.
Os tempos mudam; e chega ao Brasil, pela lei sociológica
do reflexo - de que falava Alceu Amoroso Lima (Tristão
de Athayde) - a negação da própria pena
como meio eficaz de preparar o homem delinqüente no seu
itinerário de volta à sociedade. E assim, num
forte clima passional, pleno de incertezas e contradições,
sob o pretexto de combater a violência, prega-se a supressão
do valor maior, que é a vida, através da "pena
de morte já" (um padre) ou, menos extremado, para
o "específico reincidente homicida" (um jurista).
Perde-se, em resultado disso e sem medir conseqüências
até a crença - religiosa - na capacidade de redenção
do ser humano; e nessa escalada autoritária, quer-se
dividir a sociedade entre anjos e demônios, não
fôssemos nós, "bichos da terra tão
pequenos", a um só tempo, lobos e cordeiros - lembra-nos,
de sua vez, com o dom da poesia, a admirável Adélia
Prado.
E agora, José? Urge se adotem soluções
pacíficas e criativas para tais problemas, pondo termo
a tamanha insensatez.

Fazenda Velha
Pedro Borges de Rezende