H I S T Ó R I A S  E  C R Ô N I C A S
O RAPTO, SEGUIDO DE MORTE, DO JACARÉ DA PRAÇA DE BOM JESUS DO NORTE/ES – VERSÃO 1.493



Em Calçado, nas férias de meio de ano e nos feriados mais prolongados, um bom planejamento do que fazer é de fundamental importância para que, não havendo tempo ocioso, não hajam idéias malucas para serem postas em prática.

Numa dessas estadias mais prolongadas, encontrava-se um grupo de broinhas ausentes, presentes na cidade. Uma certa monotonia teimava em manter as coisas como de costume, sem atropelos, sem sobressaltos, enfim, calmas como a superfície das águas do lago Titicaca, do alto de seus 3.800m acima do nível do mar. Mas, parecido com a lenda desse lago, eis que surge dessa monotonia profunda, uma idéia que, apesar de se apresentar boa no início, mais tarde, no desenrolar dos acontecimentos, os excessos festivos de uma noite agitada descambaram para uma ação um tanto ou quanto exótica.

Era sexta-feira, e a tarde ia se despedindo da cidade, recolhendo os últimos raios de sol e escondendo-os atrás da Pedra do Jaspe. Um movimento parado, igual àqueles verificados nos dias de aula, após as últimas turmas do Colégio de Calçado e do Grupo Escolar silenciarem suas algazarras pelas ladeiras e cada qual tomar o caminho de casa. Cruz credo, estou até ouvindo esse silêncio!

Os broinhas ausentes, já tendo visitado todos os botecos da cidade, se encontra com um outro grupo de broinhas, também ausentes, e resolvem bater papo e quebrar a monotonia, contemplando o que deveria ser a hora do rush em Calçado. Não deve ter passado uns 20 minutos e alguém propôs, desolado, uma viagem até o estado do Rio de Janeiro. Sem opções melhores, mesmo porque, em Calçado, o horário de rush se dava por volta das 17:00 hs, quando chegava o ônibus da Viação Real, vindo de Cachoeiro de Itapemirim, a capital secreta do estado, trazendo, além dos passageiros, a correspondência para a agência dos Correios e Telégrafos. Proposta feita, todos aceitaram. Foi só o tempo de um banho de gato e todos já estavam na estrada, em direção a Bom Jesus do Itabapoana/RJ ou Bondinho, como queiram.

A passagem por Bom Jesus do Norte/ES, nossa antiga colônia, foi de passagem, mas deu para perceber algum movimento na praça em frente a Igreja de São Geraldo. Provavelmente eram os católicos que, após se verem livres dos pecados da alma, se empanturravam de doces e salgados, adquiridos nas barracas instaladas na praça. Com a consciência mais leve, os fiéis tratavam de recompor seu estoque de pecado, agora com a gula.

Após atravessar a ponte sobre o rio Itabapoana, divisa natural dos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro, chega-se, sem muito esforço, na praça da Igreja Matriz de Bom Jesus do Itabapoana/RJ. O movimento ali já era bem maior. Foi na praça que os broinhas ficaram sabendo que haveria uma seresta na churrascaria Pitucão. Não deu tempo nem de comprar um saquinho de pipoca em frente a entrada do Cine Monte Líbano, que dirá arranjar confusão com algum bondinho mais atrevido. Nem bem a porta do último carro fechou e o pessoal já estava passando na reta do INSS, em frente onde está a renovada delegacia de policia, no lado contrário à loja Braga Móveis, na cabeça da ponte do canal.

Alguns segundos depois já subiam o trecho da estrada que passa em frente ao Colégio Padre Melo. Uma curva para direita, no fim da subida, em frente ao Hospital Aurora Avelino, levava a um pequeno trecho de reta, terminando numa segunda curva, também à direita, em frente à fábrica de doces Chamego Bom. A reta do J. Azevedo iniciava com um pequeno aclive após a curva do Chamego Bom, terminando numa outra curva, também à direita, em frente ao terreno do Colégio Agrícola, passando, antes, pela Usina de Resfriamento de Leite da CAVIL.

Agora era só contornar um quarto de trevo e seguir a direita, direto para o Pitucão, na estrada que vai dar em Itaperuna/RJ. Aliás, para dar em Itaperuna, só mesmo se o acontecimento tivesse que ser muito sigiloso. Existe uma estrada alternativa, a que passa pelo “Rebenta Rabicho”, que sai próximo a um motel, sendo esta a alternativa mais usada pelos apressadinhos, não precisando ir a Itaperuna, economizando tempo e dinheiro, sem falar no alcance do prazer mais rápido. Porém, não existe privacidade. Entrou à noite e na manhã seguinte, no café da manhã, a noticia já está correndo solta. Bom, mas esse não é o assunto, mesmo porque, estamos falando de jacaré que, com aquela bocarra, é mais de comer que dar. Mudemos, então, o rumo da prosa...

Chegando na Churrascaria Pitucão, a seresta já havia começado e o movimento ainda estava a meia bomba. Os broinhas até que não se importaram muito, pois foram logo sentando em volta de duas mesas, na varanda da churrascaria, e pediram o de sempre – cerveja, e tome conversa fiada. Alguém lembrou que haviam saído de Calçado para quebrar a rotina e estavam todos ali só tomando cerveja. Não seja por isso! Que tal batata frita? Garçom, duas porções de batata frita. Por favor, não esqueça os palitos!

A seresta já havia terminado e o pessoal estava na penúltima saideira. Garçom, a última! Trás, também, a dolorosa! Na volta para casa bateu uma certa fome, e o que ainda restava na memória era a vaga lembrança das barracas na praça de Bom Jesus do Norte. Atravessaram a ponte da divisa e foram direto para a praça do Espírito Santo. Devem ter soltado o leão mais cedo, pois não havia uma única alma na praça, exceto as dos broinhas, que acabaram de chegar nos dois carros. Uma rápida vistoria na praça e a constatação foi desoladora. Não havia nada, nada, para comer. Todas as barracas estavam fechadas.

Na realidade, a praça não estavam assim tão deserta e sem alma. Depois de uma vistoria mais detalhada, foi encontrado o vigia da praça, deitado sob o balcão da barraca do jogo de lata, abraçado com algumas bolas de meia, num sono profundo. Pelo jeito, podia-se derrubar todas as latas de óleo Mazzola que o danado não acordaria. O desânimo era geral e a fome só apertava. Todos reunidos em volta no chafariz da praça, contemplavam aquele filhote de jacaré recém instalado em seu novo habitat.

De repente alguém pensou mais alto e, sem querer, deu a dica. Com a fome que eu tô, como esse jacaré inteiro! Uma rápida troca de olhares e todos estavam de acordo, exceto as broinhas, menos afetadas pelo álcool e com um certo receio de serem papadas pelo jacaré já no caminho de casa. O jacaré percebeu que a sua batata estava assando e tratou de cair na água, no lago formado em volta do chafariz. Ué, jacaré na água nada bem! Observou uma broinha, vendo a dificuldade que era agarrar aquele bicho de rabo atrevido e boca cheia de dentes. O broinha incumbido de pegar o jacarezinho, não perdeu a oportunidade e respondeu. Nada sim. Agora, no seco, anda! Foi uma risadagem só, mas nem assim o vigia acordou. Acho que se fosse uma risadaria, ele também não acordaria.

Com o jacaré devidamente seguro pela boca e pelo rabo, todos entraram nos carros e seguiram para Calçado. Na estrada broinha-bondinho, na altura da Volta Fria, por um descuido do carcereiro do jacaré, que diminuiu a força com que segurava o rabo do bicho, o jacaré deu uma rabanada, se soltando das mãos de seu opressor, que se encontrava sentado no banco da frente do fusca. Na queda, e antes de ir parar sob o banco do carona, o jacaré não perdeu a oportunidade e cravou seus “dentes de leite” no calcanhar do broinha, que saltou um ai meio que de dor, meio que de aterrorizado. O motorista, meio que no desespero, não parou o carro e acelerou foi mais, esquecendo que o fusquinha estava subindo a Volta Fria e o que ele mais precisava era uma mudança de marcha, pois o motor já estava quase fazendo o cano de descarga encostar no asfalto.

O susto foi grande, mas o jacaré finalmente foi recapturado. O banco de trás do fusca estava quase vazio, visto que as broinhas, para salvar a pele e a reputação, se encarapitaram por sobre o tampo do minúsculo bagageiro. Já pensou, caso o desastre se consumasse, a manchete que o senhor Jair Melo colocaria no jornal “A Ordem”: Broinhas são atacadas na Volta Fria e acabam comidas. Seria motivo de comentário para mais de mês. E como a maioria das pessoas só lêem o título da notícia, até descobrirem que as broinhas, na verdade, haviam sido devoradas pelo jacaré, a reputação delas já teria ido para a cucuia a muito tempo.

Com o jacaré mais manso e os nervos todos nos lugares, finalmente chegou-se em Calçado. Cada um foi deixado em suas casas, mas com o compromisso de, no outro dia, à noite, todos se reuniriam para vingar a honra das broinhas ameaçadas. O jacaré seria morto na parte da manhã, ficaria de molho no tempero e no final da tarde seria colocado para assar. Então, à noite, seria comido. A vingança é um prato cheio de carne de jacaré, que se come assada!

No outro dia, por volta do meio-dia, corre a notícia que na noite passada o gato angorá do “seu” Nonô havia sido roubado. Foi um constrangimento geral, pois o gato era muito bonito. Se bem que, ele esticado no tamborim ficaria também muito bonito A notícia, além de triste, caiu como uma bomba nos ouvidos dos broinhas que haviam raptado o jacaré. É que, para despistar, os broinhas haviam acertado com o dono do bar que, naquela noite, eles iriam tomar umas cervejas, mas o tira-gosto eles iriam levar. A princípio o dono do bar não agradou da idéia, pois pensava que o pessoal não estava gostando de seus quitutes. Foi logo convencido do contrário e lhe foi explicado que, como nunca tinham comido gato, iriam provar um gato assado. O churrasquinho de gato tinha um cheiro delicioso e se gato assado fosse tão saboroso quanto era cheiroso o churrasco, iriam ficar freguês. O dono do bar fez uma cara de quem comeu e não gostou, mas aceitou a explicação e deixou que levassem o gato assado como tira-gosto.

Mas, e agora? Que situação! Se comessem o jacaré no bar, iriam falar que era o gato do “seu” Nonô e a sociedade ia cair de pau. Por outro lado, se provassem que o tira-gosto era de jacaré, a informação chegaria até os ouvidos do prefeito de Bom Jesus do Norte, que ficaria uma arara, sem falar no pessoal do IBAMA que, certamente, teria interesse em saber como a arara fora parar na prefeitura e, muito mais grave, como fora parar aquele jacaré, um legítimo filhote papo amarelo da fauna brasileira quase em extinção, protegido por lei federal, num lago de praça de uma ex-colônia do município de Calçado. Bom, a partir desse trecho da história, há controvérsia. Pelo que se sabe, uma única certeza ficou – o jacaré morreu. Quem comeu? Talvez nem o Lineu tenha essa informação. Mas existem suspeitas...

GILBERTO VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br