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Em Calçado, nas férias de meio de ano e nos
feriados mais prolongados, um bom planejamento do que fazer
é de fundamental importância para que, não
havendo tempo ocioso, não hajam idéias malucas
para serem postas em prática.
Numa
dessas estadias mais prolongadas, encontrava-se um grupo de
broinhas ausentes, presentes na cidade. Uma certa monotonia
teimava em manter as coisas como de costume, sem atropelos,
sem sobressaltos, enfim, calmas como a superfície das
águas do lago Titicaca, do alto de seus 3.800m acima
do nível do mar. Mas, parecido com a lenda desse lago,
eis que surge dessa monotonia profunda, uma idéia que,
apesar de se apresentar boa no início, mais tarde,
no desenrolar dos acontecimentos, os excessos festivos de
uma noite agitada descambaram para uma ação
um tanto ou quanto exótica.
Era
sexta-feira, e a tarde ia se despedindo da cidade, recolhendo
os últimos raios de sol e escondendo-os atrás
da Pedra do Jaspe. Um movimento parado, igual àqueles
verificados nos dias de aula, após as últimas
turmas do Colégio de Calçado e do Grupo Escolar
silenciarem suas algazarras pelas ladeiras e cada qual tomar
o caminho de casa. Cruz credo, estou até ouvindo esse
silêncio!
Os
broinhas ausentes, já tendo visitado todos os botecos
da cidade, se encontra com um outro grupo de broinhas, também
ausentes, e resolvem bater papo e quebrar a monotonia, contemplando
o que deveria ser a hora do rush em Calçado. Não
deve ter passado uns 20 minutos e alguém propôs,
desolado, uma viagem até o estado do Rio de Janeiro.
Sem opções melhores, mesmo porque, em Calçado,
o horário de rush se dava por volta das 17:00 hs, quando
chegava o ônibus da Viação Real, vindo
de Cachoeiro de Itapemirim, a capital secreta do estado, trazendo,
além dos passageiros, a correspondência para
a agência dos Correios e Telégrafos. Proposta
feita, todos aceitaram. Foi só o tempo de um banho
de gato e todos já estavam na estrada, em direção
a Bom Jesus do Itabapoana/RJ ou Bondinho, como queiram.
A
passagem por Bom Jesus do Norte/ES, nossa antiga colônia,
foi de passagem, mas deu para perceber algum movimento na
praça em frente a Igreja de São Geraldo. Provavelmente
eram os católicos que, após se verem livres
dos pecados da alma, se empanturravam de doces e salgados,
adquiridos nas barracas instaladas na praça. Com a
consciência mais leve, os fiéis tratavam de recompor
seu estoque de pecado, agora com a gula.
Após
atravessar a ponte sobre o rio Itabapoana, divisa natural
dos estados do Espírito Santo e Rio de Janeiro, chega-se,
sem muito esforço, na praça da Igreja Matriz
de Bom Jesus do Itabapoana/RJ. O movimento ali já era
bem maior. Foi na praça que os broinhas ficaram sabendo
que haveria uma seresta na churrascaria Pitucão. Não
deu tempo nem de comprar um saquinho de pipoca em frente a
entrada do Cine Monte Líbano, que dirá arranjar
confusão com algum bondinho mais atrevido. Nem bem
a porta do último carro fechou e o pessoal já
estava passando na reta do INSS, em frente onde está
a renovada delegacia de policia, no lado contrário
à loja Braga Móveis, na cabeça da ponte
do canal.
Alguns
segundos depois já subiam o trecho da estrada que passa
em frente ao Colégio Padre Melo. Uma curva para direita,
no fim da subida, em frente ao Hospital Aurora Avelino, levava
a um pequeno trecho de reta, terminando numa segunda curva,
também à direita, em frente à fábrica
de doces Chamego Bom. A reta do J. Azevedo iniciava com um
pequeno aclive após a curva do Chamego Bom, terminando
numa outra curva, também à direita, em frente
ao terreno do Colégio Agrícola, passando, antes,
pela Usina de Resfriamento de Leite da CAVIL.
Agora
era só contornar um quarto de trevo e seguir a direita,
direto para o Pitucão, na estrada que vai dar em Itaperuna/RJ.
Aliás, para dar em Itaperuna, só mesmo se o
acontecimento tivesse que ser muito sigiloso. Existe uma estrada
alternativa, a que passa pelo “Rebenta Rabicho”,
que sai próximo a um motel, sendo esta a alternativa
mais usada pelos apressadinhos, não precisando ir a
Itaperuna, economizando tempo e dinheiro, sem falar no alcance
do prazer mais rápido. Porém, não existe
privacidade. Entrou à noite e na manhã seguinte,
no café da manhã, a noticia já está
correndo solta. Bom, mas esse não é o assunto,
mesmo porque, estamos falando de jacaré que, com aquela
bocarra, é mais de comer que dar. Mudemos, então,
o rumo da prosa...
Chegando
na Churrascaria Pitucão, a seresta já havia
começado e o movimento ainda estava a meia bomba. Os
broinhas até que não se importaram muito, pois
foram logo sentando em volta de duas mesas, na varanda da
churrascaria, e pediram o de sempre – cerveja, e tome
conversa fiada. Alguém lembrou que haviam saído
de Calçado para quebrar a rotina e estavam todos ali
só tomando cerveja. Não seja por isso! Que tal
batata frita? Garçom, duas porções de
batata frita. Por favor, não esqueça os palitos!
A
seresta já havia terminado e o pessoal estava na penúltima
saideira. Garçom, a última! Trás, também,
a dolorosa! Na volta para casa bateu uma certa fome, e o que
ainda restava na memória era a vaga lembrança
das barracas na praça de Bom Jesus do Norte. Atravessaram
a ponte da divisa e foram direto para a praça do Espírito
Santo. Devem ter soltado o leão mais cedo, pois não
havia uma única alma na praça, exceto as dos
broinhas, que acabaram de chegar nos dois carros. Uma rápida
vistoria na praça e a constatação foi
desoladora. Não havia nada, nada, para comer. Todas
as barracas estavam fechadas.
Na
realidade, a praça não estavam assim tão
deserta e sem alma. Depois de uma vistoria mais detalhada,
foi encontrado o vigia da praça, deitado sob o balcão
da barraca do jogo de lata, abraçado com algumas bolas
de meia, num sono profundo. Pelo jeito, podia-se derrubar
todas as latas de óleo Mazzola que o danado não
acordaria. O desânimo era geral e a fome só apertava.
Todos reunidos em volta no chafariz da praça, contemplavam
aquele filhote de jacaré recém instalado em
seu novo habitat.
De
repente alguém pensou mais alto e, sem querer, deu
a dica. Com a fome que eu tô, como esse jacaré
inteiro! Uma rápida troca de olhares e todos estavam
de acordo, exceto as broinhas, menos afetadas pelo álcool
e com um certo receio de serem papadas pelo jacaré
já no caminho de casa. O jacaré percebeu que
a sua batata estava assando e tratou de cair na água,
no lago formado em volta do chafariz. Ué, jacaré
na água nada bem! Observou uma broinha, vendo a dificuldade
que era agarrar aquele bicho de rabo atrevido e boca cheia
de dentes. O broinha incumbido de pegar o jacarezinho, não
perdeu a oportunidade e respondeu. Nada sim. Agora, no seco,
anda! Foi uma risadagem só, mas nem assim o vigia acordou.
Acho que se fosse uma risadaria, ele também não
acordaria.
Com
o jacaré devidamente seguro pela boca e pelo rabo,
todos entraram nos carros e seguiram para Calçado.
Na estrada broinha-bondinho, na altura da Volta Fria, por
um descuido do carcereiro do jacaré, que diminuiu a
força com que segurava o rabo do bicho, o jacaré
deu uma rabanada, se soltando das mãos de seu opressor,
que se encontrava sentado no banco da frente do fusca. Na
queda, e antes de ir parar sob o banco do carona, o jacaré
não perdeu a oportunidade e cravou seus “dentes
de leite” no calcanhar do broinha, que saltou um ai
meio que de dor, meio que de aterrorizado. O motorista, meio
que no desespero, não parou o carro e acelerou foi
mais, esquecendo que o fusquinha estava subindo a Volta Fria
e o que ele mais precisava era uma mudança de marcha,
pois o motor já estava quase fazendo o cano de descarga
encostar no asfalto.
O
susto foi grande, mas o jacaré finalmente foi recapturado.
O banco de trás do fusca estava quase vazio, visto
que as broinhas, para salvar a pele e a reputação,
se encarapitaram por sobre o tampo do minúsculo bagageiro.
Já pensou, caso o desastre se consumasse, a manchete
que o senhor Jair Melo colocaria no jornal “A Ordem”:
Broinhas são atacadas na Volta Fria e acabam comidas.
Seria motivo de comentário para mais de mês.
E como a maioria das pessoas só lêem o título
da notícia, até descobrirem que as broinhas,
na verdade, haviam sido devoradas pelo jacaré, a reputação
delas já teria ido para a cucuia a muito tempo.
Com
o jacaré mais manso e os nervos todos nos lugares,
finalmente chegou-se em Calçado. Cada um foi deixado
em suas casas, mas com o compromisso de, no outro dia, à
noite, todos se reuniriam para vingar a honra das broinhas
ameaçadas. O jacaré seria morto na parte da
manhã, ficaria de molho no tempero e no final da tarde
seria colocado para assar. Então, à noite, seria
comido. A vingança é um prato cheio de carne
de jacaré, que se come assada!
No
outro dia, por volta do meio-dia, corre a notícia que
na noite passada o gato angorá do “seu”
Nonô havia sido roubado. Foi um constrangimento geral,
pois o gato era muito bonito. Se bem que, ele esticado no
tamborim ficaria também muito bonito A notícia,
além de triste, caiu como uma bomba nos ouvidos dos
broinhas que haviam raptado o jacaré. É que,
para despistar, os broinhas haviam acertado com o dono do
bar que, naquela noite, eles iriam tomar umas cervejas, mas
o tira-gosto eles iriam levar. A princípio o dono do
bar não agradou da idéia, pois pensava que o
pessoal não estava gostando de seus quitutes. Foi logo
convencido do contrário e lhe foi explicado que, como
nunca tinham comido gato, iriam provar um gato assado. O churrasquinho
de gato tinha um cheiro delicioso e se gato assado fosse tão
saboroso quanto era cheiroso o churrasco, iriam ficar freguês.
O dono do bar fez uma cara de quem comeu e não gostou,
mas aceitou a explicação e deixou que levassem
o gato assado como tira-gosto.
Mas,
e agora? Que situação! Se comessem o jacaré
no bar, iriam falar que era o gato do “seu” Nonô
e a sociedade ia cair de pau. Por outro lado, se provassem
que o tira-gosto era de jacaré, a informação
chegaria até os ouvidos do prefeito de Bom Jesus do
Norte, que ficaria uma arara, sem falar no pessoal do IBAMA
que, certamente, teria interesse em saber como a arara fora
parar na prefeitura e, muito mais grave, como fora parar aquele
jacaré, um legítimo filhote papo amarelo da
fauna brasileira quase em extinção, protegido
por lei federal, num lago de praça de uma ex-colônia
do município de Calçado. Bom, a partir desse
trecho da história, há controvérsia.
Pelo que se sabe, uma única certeza ficou – o
jacaré morreu. Quem comeu? Talvez nem o Lineu tenha
essa informação. Mas existem suspeitas...
GILBERTO
VIEIRA DE REZENDE
calcadense@bol.com.br


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