Pão com presunto



Já contei uma história do Luiz quando ele levou uma sacola de pão para o Cine Glória em Vitória, fazendo com que suas irmãs passassem uma grande vergonha. Remexendo na memória veio à tona outro fato ocorrido com ele, quando da sua curta passagem pela capital capixaba, no início da década de 1970, para estudar e trabalhar.

Na Calçado dos anos 60 e 70 comer presunto era coisa muito rara, provavelmente só as famílias mais “chiques” da cidade é que, esporadicamente, utilizavam esta iguaria nos lanches de domingo. Na residência dos pais do Luiz este tipo de comida só aparecia nos sonhos das crianças, o normal era se virar com o popular “pão com salame”, comprado na venda do seu Adélbio.

O desejo de comer os famosos embutidos e a disposição que o Luiz tinha para encarar um bom prato deram a ele a fama de um adolescente compulsivamente guloso.

Tendo mudado para a capital, o desejo de comer sanduíches de presunto e outras iguarias aumentou ainda mais. Ele ficava com água na boca só de ver aquelas guloseimas nas vitrines das padarias e confeitarias espalhadas pelas ruas ao redor do Parque Moscoso. Como a grana era curta e não se podia gastar dinheiro com este tipo de extravagância, o jeito era visitar nos finais de semana, e em horários estratégicos, alguns parentes. Em geral, os escolhidos eram o Sr. Walter Mendonça, o Dr. Pedro Vieira e a prima Marília Rezende, filha de um irmão de seu pai, e que na época era esposa do deputado estadual Theodorico Ferraço. A expectativa destas visitas era que ele e as irmãs fossem convidados para ficar um pouco mais e esperar o lanche.

A estratégia sempre dava certo. A cada final de semana, Luiz e as irmãs visitavam um parente diferente, para que não desconfiassem que o interesse das visitas se desse mais pelo lanche do que pelos laços sanguíneos.

Na casa de seu tio Pedro Vieira é que as coisas eram mais complicadas. Apesar da informalidade, alegria e simplicidade do velhinho, a sua esposa dona Mercês Garcia Vieira era uma mulher muito fina e educada. Sentar à mesa para lanchar com o casal era uma verdadeira tortura para Luiz. Ele se sentia tão constrangido que acabava não se entendendo bem com os talheres. Resquício da jequice trazida da Fazenda Velha. Uma indagação que ele sempre fazia é por que na casa de “rico” se comia tão pouco? Saía de lá com mais fome ainda. Segundo ele, aquela quantidade de comida nem as lombrigas davam para alimentar.

Já na casa do Sr. Walter Mendonça, Luiz e as irmãs se sentiam mais à vontade. Os filhos do Sr. Walter e de sua esposa dona Sofia eram mais ou menos da mesma geração, o que tornavam as coisas mais simples. Ele lanchava sem muitas preocupações com a etiqueta, apenas ficava atento para não exagerar muito e provocar em dona Sofia a reação de não mais convidá-los para lanches futuros.

Mas o bom mesmo era o lanche na casa da prima Marília. Além de ser uma pessoa muito alegre e simpática, a mesa de lanches em sua casa era de uma fartura de dar inveja aos jantares mostrados nos velhos filmes históricos sobre o Império Romano. Havia de tudo na mesa: frutas, pães, presuntos, queijos diversos, salgadinhos, etc.


Toda vez que visitavam a casa da Marília, Luiz se vestia de forma adequada para a ocasião. Uma calça de tergal, com enormes bolsos que iam quase aos joelhos, e uma camiseta de malha debaixo de um velho paletó jeans, com dois bolsos internos. A roupa era perfeita para a ocasião.

Conversa vai, conversa vem, uma risada daqui, outra dali, um pãozinho com presunto aqui, um salgadinho ali, e o Luiz ia comendo, comendo até não agüentar mais. Assim era o clima na casa da Marília.

Terminado o lanche, todos se levantavam da mesa e caminhavam para uma varanda contígua, dando continuidade à animada conversa. Este era o momento que o Luiz agia. Dava uma olhada rápida para um lado e para o outro e quando ninguém o observava fazia movimentos ágeis como os de um gato catando várias fatias de presunto, de queijo alguns salgadinhos, frutas, e distribuía tudo nos bolsos da calça e do paletó. Assim, o lanche do dia seguinte estava garantido.

A conversa fluía alegre até altas horas e o Luiz se mantinha de pé o tempo todo, para não amassar as iguarias que estavam nos bolsos da calça. Quando alguém o convidava para sentar, respondia no maior cinismo que era por prazer que ficava em pé.

Ao retornarem para casa as suas irmãs sempre lhe davam a maior bronca. Diziam que aquela atitude era desonesta e um abuso com a boa fé da prima. Só que na manhã seguinte, lá estavam elas apreciando com prazer o resultado do roubo do dia anterior.


Oscar Rezende
roscar@uol.com.br


 



 

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